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"O Diabo Veste Prada 2". As grandes mudanças na moda, na tecnologia e na vida das personagens 20 anos depois do primeiro filme

Os padrões de beleza e estilo, a consciência sobre o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e a forma de produzir e consumir moda passaram por mudanças que o filme terá o desafio de retratar.

Larissa Faria
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As mudanças na moda, na tecnologia e nas revistas nos últimos vinte anos que decorreram entre o lançamento de O Diabo Veste Prada e a sequela do filme, que tem a sua estreia global marcada para 30 de abril, podem abalar o elevado ego de Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep. A consagrada editora-chefe da revista de moda Runway reinava naquele período em que o jornalismo impresso não tinha ainda a internet como a sua grande concorrente. Com o avanço desta tecnologia e a sua popularidade, surgiram também bloguers e influenciadoras digitais, que impactaram a forma como a moda é produzida e divulgada. E enfraqueceram o poder que figuras como Miranda detinham nas suas mãos.

https://www.youtube.com/watch?v=hoO5_xrrtNs

A obra cinematográfica que se tornou uma referência do que é trabalhar com o jornalismo de moda, inspirando gerações, recupera não só a diabólica Priestly (de óculos escuros, é claro, e com a mesma Meryl Streep de cabelos curtos e brancos) mas também a sua assistente Andrea Sachs, a Andy, interpretada por Anne Hathaway. Apesar de o trailer de O Diabo Veste Prada 2 não revelar muitos detalhes dos dilemas que serão tratados, sabe-se que o filme será, naturalmente, uma forma de projetar no grande ecrã o que ocorreu no mundo nas últimas duas décadas.

O fim das revistas como a única montra de tendências

Naquela altura, seja na vida real ou no filme, as revistas ainda eram consideradas quase como a única referência do que era tendência. As indicações da editora-chefe Miranda Priestly, inspirada na homóloga na revista Vogue norte-americana Anna Wintour — que esteve no cargo até junho de 2025 — materializavam-se na “bíblia” da moda mundial. Tal facto não deixa de ser verdade até aos dias de hoje, a considerar que Wintour, há mais de 30 anos, trata pessoalmente da lista de convidados e das marcas de alta costura presentes na Met Gala.

Mas com o surgimento de influenciadores digitais e a popularização dos blogs de moda, as revistas já não reinam como uma única montra do que está em alta. Com a atenção do público voltada para estas novas formas de consumir conteúdo, as revistas tiveram de dividir os orçamentos de publicidade a partir do momento em que as marcas encontraram na internet mais um canal de divulgação para além dos meios impressos.

Vintage, confortável e sem género

A Andy que era criticada na redação pelo facto de as suas roupas não serem de grandes marcas e por não usar saltos altos talvez hoje respirasse (um pouco) mais aliviada. Nas fotografias das gravações de O Diabo Veste Prada 2, que continua a ter Nova Iorque como principal cenário, é possível ter um spoiler dos próximos outfits da assistente que tentou moldar-se aos gostos de Miranda. Roupas com o conceito “sem género”, como fatos largos com gravata e um macacão no confortável estilo streetwear estão entre as escolhas da figurinista Molly Rogers para a personagem de Hathaway.

Numa entrevista à Vogue, a própria Anna Wintour admitiu este mês dispensar a obrigação do power suit nos escritórios e elogiou o estilo vintage da primeira-dama de Nova Iorque, Rama Duwaji. A nova responsável pelo guarda-roupa do filme e sucessora de Patricia Field recolheu referências atuais e acolheu também as sugestões do elenco. Anne Hathaway, por exemplo, pediu a Rogers que os seus looks refletissem neste retorno os anos em que Andy trabalhou como jornalista de investigação e comprou roupas em segunda mão após demitir-se da Runaway. “Tínhamos que justificar [no filme] como é que alguém que, a trabalhar como escritora, poderia ter um guarda-roupa luxuoso”, disse Hathaway à Vogue. Em concordância com o pedido da atriz, Rogers garimpou casacos Armani para Andy em lojas vintage.

Conforto e estilo podem caminhar juntos?

No cartaz do primeiro filme, o stiletto vermelho é a figura principal. E os saltos altos e finos, uma “farda obrigatória” na redação da Runway. É bem provável que este tipo de sapato continue a fazer parte da trama, mas a collab lançada este mês entre o filme e a Havaianas pode representar uma nova era. “Podes tirar os saltos, mas nunca o estilo” é o conceito da campanha das quatro sandálias estilo puffer que estão a ser vendidas pela marca brasileira. Mas será que Priestly trocaria os seus saltos altos vermelhos por um par daquelas sandálias? Ainda não se sabe se as personagens vão mesmo usar este exato sapato no filme — Andy já foi vista a calçar sandálias Chanel. A atriz Meryl Streep certamente não seria contra a descida do salto. “Quase desenvolvi um transtorno de stress pós-traumático por usar salto alto por 16 semanas. Acho que mereço uma medalha!”, disse à Vogue.

O café de sempre

Um caffè latte extra quente, com dose extra de café, sem espuma e com leite desnatado. O desejo de Miranda era uma ordem para Andy, que estava sempre a correr até a uma das lojas Starbucks para satisfazê-lo. Vinte anos depois, será que Miranda ainda pede o mesmo café ou, por exemplo, ter-se-á rendido ao fenómeno ‘matcha’? Desta vez, quem terá de trazê-lo é a sua “nova Emily”, interpretada por Simone Ashley — várias páginas de fãs especulam que o nome da personagem da assistente seja Amari Mari. Para apanhar a boleia do filme, a marca de cafetaria norte-americana lança a 28 de abril em todas as suas lojas não só a bebida sempre pedida por Miranda, mas também mais três delas inspiradas em Andy, Emily e Nigel — disponíveis até ao final do mês de maio.

Corpos reais: o pedido de Anne Hathaway

Emily [interpretada por Emily Blunt] chega a celebrar uma má disposição física que pode resultar na perda de peso e Andy é frequentemente criticada no trabalho por ser considerada “fora de forma” no primeiro filme. Vinte anos depois, ozempic é uma das palavras mais recorrentes no estilo de vida ocidental. Será que o tema vem à baila? Nesta continuação da história, a própria Hathaway pediu aos produtores do filme que as modelos que participam do novo filme tivessem “corpos saudáveis e naturais”, revelou Streep à Harper’s Bazaar, revista que tem na sua capa de abril a intérprete de Andy.

Tal pedido terá sido feito após a dupla assistir ao desfile da Dolce & Gabbana na Semana da Moda de Milão em 2025. “Fiquei impressionada com o quão não apenas bonitas e jovens, mas também alarmantemente magras, as modelos eram. Achei que tudo isso já tivesse sido resolvido há anos. Annie também notou”, disse Streep à revista, ao descrever a colega de elenco como “uma mulher de fibra” por tentar garantir que as modelos do filme não fossem “tão esqueléticas”.

Au revoir, Paris. Ciao, Milano!

As semanas da moda continuam em destaque no grande ecrã e fora dele. Mas se em 2006 Miranda Priestly reinava em Paris, vinte anos depois talvez a editora-chefe tenha de sentar-se na primeira fila ao lado de influenciadoras digitais, como já acontece há anos no mundo real. Desta vez, o cenário já não é a cidade-luz, mas sim Milão, onde Andy e Miranda devem assistir juntas ao desfile da coleção primavera/verão 2026 da Dolce & Gabbana. Algumas cenas foram também gravadas na bucólica cidade e lago de Como, a menos de 100 quilómetros de Milão.

Ainda mais luxuoso

Apesar de trocar de casacos e carteiras com grande frequência, Miranda permanece fiel ao modelo do seu carro, um Mercedes Classe S. No novo filme, o seu condutor particular deve levá-la pelas ruas de Nova Iorque num Mercedes-Maybach Classe S, lançado este ano. A divisão de ultra-luxo da Mercedes-Benz foi estabelecida em 2014, e sendo o filme atualizado, é natural que o mesmo acontecesse com o carro de uma das protagonistas. A parceria entre o filme e a marca de carros luxuosos tem como mote “A arte da chegada”, com referências ao salto alto vermelho no seu vídeo de divulgação.

Como será a vida amorosa?

Não há sinais de Nate, o namorado de Andy, no novo trailer. Interpretado por Adrian Grenier, tentava fazer com que Andy não deixasse de dar atenção aos seus relacionamentos pessoais no meio dos compromissos do trabalho. Nate fica desapontado quando a namorada perde a comemoração dos seus anos e parece deixar de reconhecê-la quando esta muda o seu guarda-roupa numa tentativa de agradar a Miranda.

Se por um lado tencionava que a jornalista se mantivesse fiel àquilo que acreditava, por outro não parecia aceitar a sua ascensão profissional e o facto de estar feliz com o novo estilo. A dualidade do personagem chegou a chegar discussões entre os fãs da trama, sendo considerado por alguns como um “vilão”. Grenier lamentou ao Page Six não ter sido convidado para a sequela. “Obviamente foi uma deceção, mas também entendo que houve algumas críticas em relação ao meu personagem, o que pode ter influenciado na decisão [de David Frankel, realizador das duas obras]”.

Os óculos das “sereias do escritório”

Gisele Bündchen estava no seu auge profissional em 2006, ano em que foi considerada pela Forbes a modelo mais bem paga do mundo enquanto vivia os seus últimos meses como uma das estrelas da passadeira da Victoria’s Secret. Ao ser convidada para uma curta participação no filme, Gisele revelou ao EW que inicialmente não aceitou o convite para interpretar uma modelo. “Posso ser uma assistente? Posso interpretar o outro lado da história?”, pediu à argumentista Aline Brosh McKenna na altura.

Convite aceite, veio da modelo a ideia de usar uma armação de óculos Miu Miu com as lentes alongadas para interpretar Serena, uma das assistentes da revista Runway. Dezoito anos depois, em 2024, este tipo de armação foi incluída numa trend no TikTok que reúne acessórios dos anos 2000, dando a este estilo o nome de office siren (sereia de escritório). Naquele mesmo ano, a Miu Miu teve vários modelos deste tipo esgotados.

Sempre online?

Um ano após o lançamento do primeiro filme, em 2007, a Apple lançou o seu primeiro iPhone, revolucionando a forma como acedemos à internet. Se apenas com chamadas telefónicas Miranda já perturbava a rotina das suas assistentes, isso talvez tenha até piorado com os avanços da tecnologia, quando um e-mail pode ser consultado facilmente nos smartphones e as mensagens de texto e áudio no WhatsApp são mais populares que as chamadas de voz. Para além das tentativas de intervenção de Nate à rotina da sua namorada, há na obra também falas que expõem a romantização do excesso de trabalho.

Numa das cenas do primeiro filme, o diretor de arte da revista Runway, Nigel, diz a Andy: “Diz-me quando a tua vida pessoal for pelos ares. Significa que estás prestes a ser promovida“. Sempre que o telemóvel de Andy toca com alguma chamada de Miranda, a assistente atende de imediato, seja qual for a hora. E sacrifica compromissos já marcados (como um jantar com o pai) para atender aos desejos da sua chefe. E é impossível esquecer o acidente que a sua colega Emily sofre quando corre para a redação: é atropelada enquanto atravessa uma movimentada avenida a carregar muitos sacos, enquanto estava distraída ao telefone.

Divas da música Pop

Tanto Madonna quanto Lady Gaga já foram capas da Vogue em várias ocasiões. Na primeira versão do filme, as canções Jump e Vogue fazem parte da banda sonora. Desta vez, outra diva da música Pop que também já esteve várias vezes na capa da revista norte-americana participa do filme: Lady Gaga. Numa colaboração com a rapper Doechii, Gaga lançou este mês a canção “Runway”, com Bruno Mars entre os seus compositores. Especula-se ainda que a cantora possa ter uma curta participação entre as gravações — Gaga terá sido vista em Milão ao lado de Anne Hathaway e Meryl Streep na altura das filmagens, revelou a Variety.

https://youtu.be/Ll6kYJPLNxg?si=Fg5OwbSiDjLPE-zC

Os desafios no setor do luxo

Há 20 anos, como hoje, as escolhas de roupas e acessórios que integramos editoriais de moda impactavam o setor — mas hoje multiplicam-se os players saídos de redutos como o Instagram e TikTok. Com a capacidade de antecipar, lançar e ditar tendências, as decisões de líderes como Priestly tinham um peso determinante no setor (quase de sentido único), com a capacidade de fazer arruinar uma carreira ou esgotar peças de marcas conceituadas num abrir e fechar de olhos. Num contexto de grande fragmentação do bolo da publicidade, e disputa por assinantes e seguidores, esta é uma das grandes mudanças de fundo que vai afetar o ego de Miranda Prestly — e fazer-nos avaliar que poder conservam ainda os antigos árbitros da moda.

A sua antiga assistente Emily é agora uma executiva de um grande grupo luxuoso, cujas decisões podem afetar diretamente o rumo da Runway e consequentemente também de Priestly. A personagem de cabelos ruivos tem agora como par romântico um magnata bilionário, que será interpretado por Justin Theroux. Segundo fontes revelaram à Variety, a sua personalidade foi inspirada em Jeff Bezos e Elon Musk — enquanto a nova rica Emily se assemelha à mulher de Bezos, a jornalista Lauren Sánchez. Antes subordinada de Miranda, agora tenta convencer o seu marido a comprar a revista Runway — tal e qual na vida real, com os rumores de que Bezos tencionava adquirir a Condé Nast, detentora da Vogue.

Mulheres no centro da história

Engana-se quem pensa que o primeiro O Diabo Veste Prada foi, desde a sua criação, um grande sucesso. O receio de designers de associarem a sua imagem às possíveis críticas do filme à indústria da moda — ainda mais sendo Anna Wintour a inspiração para o papel principal — era grande. “Tivemos muita dificuldade em encontrar alguém no mundo da moda que quisesse falar connosco, porque as pessoas tinham medo de ser boicotadas por Anna e pela Vogue”, admitiu a argumentista McKenna ao EW. Tal afirmação é corroborada pelo realizador David Frankel, que na mesma entrevista menciona a dificuldade para arrendar sítios para as gravações e empréstimos de peças de designers de moda prestigiados.

Para além do tema polémico na altura, O Diabo Veste Prada também não teve um orçamento à altura do seu posterior sucesso. Ao programa de televisão The Late Show With Stephen Colbert, Meryl Streep disse que o facto de ser aquele um “filme apenas para mulheres” limitou os investimentos na produção. “Essa afirmação provou-se errada depois de Barbie, Mammia Mia! e outros filmes que apanharam os estúdios de surpresa e fizeram com que as pessoas quisessem assisti-los por terem mulheres no centro da história“.

Uma primavera — nem sempre — florida

As portas da indústria cinematográfica e também da moda que se fechavam para os produtores, figurinistas e todo o restante da equipa de O Diabo Veste Prada abriram-se após o sucesso do primeiro filme. “Desta vez, querido, gastaram dinheiro!”, disse Streep na entrevista a Stephen Colbert. O fator “nostalgia” também pode estar a impactar a expectativa dos fãs do filme, que já celebravam o regresso antes mesmo de o trailer ser divulgado. À Vogue, as protagonistas disseram que o sucesso era explícito principalmente quando gravavam nas ruas de Nova Iorque, com curiosos a observar.

Para tentar manter em segredo os looks da sequela, as atrizes disseram que tentavam, ao máximo, aparecer vestidas com as roupas das gravações apenas quando era realmente o momento de filmar. “Troquei de roupa, saí do vestiário e ouvi gritos! Quando filmamos a imitação da Met Gala, foi ainda mais louco. As pessoas estavam vestidas de Miranda! Honestamente, isso deixou-me realmente sem palavras”, afirmou Streep. “Foi muito gratificante quando finalmente cheguei à Sexta Avenida, onde filmámos há 20 anos e ninguém na altura demonstrou interesse“. Para Emily Blunt, a “atenção e obsessão” com o filme antes mesmo do seu lançamento “é emblemático de como a nossa indústria e as nossas vidas mudaram”.

A beleza do tempo

Pelo que se pôde ver nos conteúdos já divulgados, o filme manteve as mesmas protagonistas do elenco vinte anos depois e retratou-as com o amadurecimento natural da sua aparência. A presença de atrizes acima dos 40 anos em papéis de destaque e inspiração era tão rara em Hollywood que Streep declarou em diversas ocasiões que acreditava que a sua carreira tivesse “os dias contados” nesta faixa etária — um destino a que a artista de 76 anos tem conseguido escapar com sucesso, bem como as colegas de elenco. Anne Hathaway e Emily Blunt têm 43 anos.

De resto, a passagem do tempo para as suas personagens, Miranda, Andy e Emily, foi cuidadosamente pensada pela maquilhadora Nicki Ledermann, que apostou no conceito clean beauty, realçando os traços naturais. “Eu realmente queria evitar que as atrizes parecessem ter vinte e poucos anos”, explicou Ledermann à Vogue. “Não há nada mais bonito do que um rosto com as linhas de expressão que a vida demonstra”.

Ícones eternos

Valentino Garavani, que participou em uma das cenas da primeira edição do filme, morreu em janeiro deste ano. Outros designers de moda citados como referência também morreram desde o primeiro lançamento, entre eles Giorgio Armani e Karl Lagerfeld. Mas a continuação de O Diabo Veste Prada não deve deixar a desejar quando o assunto é nomes de peso. Donatella Versace e Naomi Campbell, assim como Lady Gaga, foram vistas em Milão durante as gravações, o que causou nos fãs a expectativa de vê-las no grande ecrã junto à equipa da Runaway.