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Todd Webb em Portugal: memória fotográfica de um país

O norte-americano esteve por três ocasiões em Portugal, entre 1972 e 1982. As imagens que agora vemos numa exposição na Gulbenkian, em Lisboa, mostram-nos quem éramos naqueles anos.

Vasco Rosa
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O generoso trabalho de Jorge Calado em dar a ver e conhecer fotografia prossegue com a exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian, dois anos após a muito bem sucedida mostra sobre Maria Lamas fotógrafa das mulheres portuguesas. O átrio da Biblioteca de Arte continua impedido pelas obras de beneficiação do Museu, mas é este o serviço da Fundação envolvido nesta realização, onde o curador encontrou, nas suas palavras, “os melhores dos melhores” para levarem a cabo os seus projetos expositivos — que em 2022-24 tiveram expressão de grande excelência com A Família Humana, no Museu do Neo-Realismo, de Vila Franca de Xira, à época dirigido por Raquel Henriques da Silva.

O colecionador, crítico e curador de 88 anos acrescenta agora mais um importante fotógrafo, o norte-americano Todd Webb (1905-2000), à galeria dos que, famosos, conhecidos ou quase anónimos, deixaram registos imagéticos da sua passagem por Portugal — de alguma maneira dando a mão à palmatória pelo seu tardio contacto com fotografias que um quase acaso feliz colocou diante dos seus olhos. Jorge Calado vive como peixe na água nos meios exclusivos das galerias, dos colecionadores e das feiras de fotografia na Europa e nos Estados Unidos da América, e essa raríssima condição para o nosso meio oferece-lhe oportunidades como esta, de que resulta também a doação deste portefólio português ao acervo da Fundação Gulbenkian, em particular da sua Biblioteca de Arte, que está a desenvolver um protagonismo atento na integração e difusão de espólios artísticos, e também de coleções fotográficas, dos irmãos Novais ao sul-africano Cloete Breytenbach (1933-2019).

A partir de agora, além destas imagens e do catálogo da exposição, os leitores da Biblioteca de Arte passam a dispor de toda a bibliografia de Todd Webb, em especial as suas Memórias e os belos álbuns monográficos sobre Nova Iorque e Paris, cidades em que o fotógrafo andarilho viveu por mais tempo e amou — Paris: A Love Story 1948-1952 é precisamente o título de um deles, que decanta 3600 fotografias da cidade-luz —, mas também do excecional livro de retratos da pintora Georgia O’Keeffe. Um trabalho muito bem feito, portanto. Como justamente escreve o diretor João Vieira, na abertura do catálogo, “ao apresentar este conjunto fotográfico, a Biblioteca de Arte reforça o seu papel como espaço de preservação, investigação e divulgação da Fotografia e do património visual” (p. 8).

O norte-americano esteve por três ocasiões em Portugal, entre 1972 e 1982, pelo que estas suas imagens do país e dos portugueses nos dão uma representação do que éramos naqueles anos de transição, mesmo que não constituam um ensaio fotográfico em si mesmo — muito longe disso, de facto —, antes se aproximem do tipo de registos que a singularidade dum instante faz um fotógrafo de passagem, em pleno modo de férias, digamos assim, disparar a sua máquina (v. por exemplo, a Calçada de São Salvador, em Alfama; cat. figs. 27 e 32).

Ruas estreitas, arcos baixos e edifícios descuidados — além da inevitável Nazaré e os seus pescadores —, mais os sinais urbanos da vida política naqueles anos 1980 e 1982, são dominantes. Não estamos diante de fotografias como as que George Dussaud tirou entre 1985 e 2002, de que doravante se exibem 50 no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, ou de outras — da década de 1940 em diante — que Calado expôs em Vila Franca e estão no catálogo respetivo (casos de Anna Riwkin-Brick, Édouard Boubat, George Pickow, Ingeborg Lippmann, Joe Fazen, Kees Scherer e Toni Frissell), ou sequer de outros fotógrafos ainda, que o valoroso connaisseur elencou na exposição Portugal Fotografado por Estrangeiros, que a Europália mostrou em Charleroi em 1991 e a Culturgest em Lisboa em 2005 (depois do Centro Cultural da Gulbenkian em Paris), onde surgem Alma Lavenson, Bert Hardy, Brett Weston, Leo Levinstein, Leo Rubinfien (já em 2000), Neal Slavin, Ray Metzker, Sabine Weiss, Thurston Hopkins (com uma surpreendente foto de Amália Rodrigues nos anos 1950, com hidroavião ao fundo) e Wolf Suschitzky.

Em nenhum momento Calado confronta os registos portugueses de Todd Webb com os destes tantos que ele já identificara como fotógrafos estrangeiros em Portugal. E é preciso dizer que, à vista da larga maioria destas, as imagens portuguesas de Webb podem afigurar-se um bocadinho dececionantes, e mais ainda quando contrapostas na mesma exposição — e é de realçar essa honest vision, título, aliás, de um documentário biográfico do fotógrafo em 1996 — com as magníficas 16 imagens norte-americanas (a preto) e africanas (a cores) que a amizade de Calado com a curadora do arquivo do fotógrafo, Betsy Evans Hunt, permitiu trazer até Lisboa, e pela primeira vez.

À vista destas, importa concluir que teria sido certamente um benefício — ou até um privilégio para o país — que Webb se demorasse e interessasse mais por Portugal enquanto grande fotógrafo internacional, que claramente foi. Não tivemos, porém, essa sorte.

Até 27 de Julho, no edifício central da Fundação Calouste Gulbenkian. Bilhete a 6 € e catálogo bilingue a 32,50 €. Visitas guiadas a 24 de Abril às 16h30, a 20 de Junho e a 18 de Julho às 15 h. Sob marcação.