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Banco de Portugal reduz prejuízos operacionais e está mais perto de voltar aos lucros. Mas tão cedo não irá pagar dividendos ao Estado

Descida das taxas de juro ajudou a baixar prejuízo operacional de 1.142 milhões para 304 milhões. Regresso ao lucro mais próximo mas mesmo quando acontecer não irá haver dividendos pagos ao Estado.

Edgar Caetano
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O Banco de Portugal reduziu em 75% os prejuízos operacionais em 2025, para 304 milhões de euros, voltando a recorrer à “almofada” criada durante os anos de juros baixos para evitar que os resultados líquidos sejam negativos – tal como aconteceu nos últimos anos. Beneficiando da descida das taxas de juro, os prejuízos operacionais melhoraram e colocaram o banco central mais perto do regresso aos lucros, mas o regresso ao pagamento de dividendos ao Estado ainda estará longe.

Na divulgação do relatório do conselho de administração de 2025, feita nesta quinta-feira, o Banco de Portugal informa que o indicador do resultado antes de provisões e impostos (RAPI) de 2025 se “manteve negativo, em -304 milhões de euros, embora substancialmente menos negativo do que em 2024 (-1.142 milhões de euros)”.

A melhoria no RAPI está relacionada com a evolução da margem de juros, que acompanhou a trajetória das taxas de juro de referência e passou a ser positiva. O resultado líquido da repartição do rendimento monetário foi igualmente influenciado por este contexto e, apesar de o Banco de Portugal continuar com uma posição pagadora, em 2025 o valor a pagar foi significativamente inferior ao de 2024″, afirma o supervisor, numa referência aos valores pagos aos bancos comerciais quando estes fazem depósitos no banco central.

Ao contrário do que aconteceu nos anos de Mário Centeno, em que este relatório sempre foi apresentado em conferência de imprensa pública, a conta de resultados de 2025 com o Banco de Portugal liderado (desde outubro) por Álvaro Santos Pereira não teve uma apresentação pública.

No comunicado de imprensa que acompanha a divulgação do relatório no site oficial, porém, o Banco de Portugal explica que “as provisões acumuladas ao longo dos anos permitiram absorver este resultado, tal como sucedeu no ano anterior“. Ou seja, os resultados operacionais negativos (em 304 milhões) foram compensados por mais um consumo de uma provisão que foi criada no tempo de Carlos Costa e que tinha como objetivo acautelar o provável risco de que, um dia, as taxas de juro subissem – algo que aconteceu a partir de 2022.

Dessa “provisão para riscos gerais“, que chegou a superar largamente os três mil milhões de euros, sobram nesta altura cerca de 1,4 mil milhões. Este é um valor que, a menos que exista uma nova subida significativa e prolongada das taxas de juro, deverá ser suficiente para que o Banco de Portugal continue a usar esta “almofada” para evitar ter prejuízos na conta final dos resultados.

Banco de Portugal mais perto dos lucros, mas não dos dividendos

A descida de cerca de 75% dos prejuízos operacionais, de quase 1.150 milhões para pouco mais de 300 milhões, reflete uma tendência positiva mas ainda não é certo que o Banco de Portugal vá conseguir fechar o exercício de 2026 com um resultado operacional positivo – isso depende da evolução das taxas de juro e de outros fatores.

Porém, ao que o Observador apurou, mesmo que exista um regresso aos lucros neste ano (ou, mesmo, nos próximos), o regresso ao pagamento de dividendos ao Estado não está para breve. Isto porque o Banco de Portugal quererá aproveitar os lucros, quando eles existirem, para voltar a reforçar a “provisão para riscos gerais” para valores que, mesmo sem atingir os níveis do passado, deem ao banco central mais conforto do que aqueles que existem hoje – os tais 1,4 mil milhões.

https://observador.pt/2026/04/23/banco-de-portugal-prepara-medidas-para-arrefecer-credito-a-habitacao-aquecido-pela-garantia-publica/

Com o consumo de cerca de 300 milhões da provisão, neste exercício de 2025, o Banco de Portugal teve um resultado antes de impostos (RAI) nulo, sendo que “o resultado líquido foi negativo em um milhão de euros, em resultado da redução de impostos diferidos ativos e da tributação autónoma”, um valor pouco significativo face à dimensão do balanço da instituição.

Esse é um balanço que cresceu 20 mil milhões para 211 mil milhões de euros, fruto da valorização de 46% das reservas de ouro – para 45.140 milhões de euros (sendo que as reservas, em si, se mantiveram inalteradas nas mesmas 382,7 toneladas).

Em sentido contrário, o Banco de Portugal reduziu em 7,3 mil milhões, para 67,7 mil milhões, o valor dos títulos de dívida no balanço – obrigações da República Portuguesa que o supervisor comprou nos anos das medidas extraordinárias de estímulo lançadas pelo Banco Central Europeu. Entretanto, com a normalização da política monetária, os títulos de dívida pública que vão vencendo deixaram de ser reinvestidos em novos títulos, como acontecia.

Ainda na conta de resultados, acrescenta o supervisor, “as despesas de funcionamento totalizaram 222 milhões de euros, o que representa um aumento de 4,7%“, o que “reflete, entre outros fatores, a subida dos gastos com pessoal, devida, essencialmente, à atualização salarial”. Já “os fornecimentos e serviços de terceiros reduziram-se em cerca de 1 milhão de euros em relação a 2024”.