O senso comum – ou a idade, ou a experiência – ensinam-nos que, quando uma relação acaba, ela já estava acabada, simplesmente os intervenientes da mesma ainda não tinham tido a coragem de o reconhecer. Em agosto de 2023, os Black Midi estavam em digressão na China; quando esta acabou, a banda entrou num hiato – que dura até hoje.
Adorados pela crítica e favoritos dos amantes de música indie, os Black Midi eram o tipo de banda cujo sucesso (repito: relativo e confinado ao mundo indie) era simultaneamente inexplicável e absolutamente óbvio. Cada canção podia desdobrar-se em 10 géneros diferentes, nada era claro e isso não é um refrão, aliás, é possível que não haja refrão. Em termos de fórmulas para vender discos, os Black Midi não usaram nenhuma – mas eram excessivos e excitantes e imprevisíveis e, sobretudo, (repito para realçar) excessivos.
Não tenho conhecimentos científicos para afirmar se Lavoisier estava certo ou não quando afirmou que na natureza nada se perde, tudo se transforma, mas sei que na música às vezes não se perde tudo e algumas coisas transformam-se noutras coisas. Vide o caso de Cameron Picton: em agosto de 2023 ele era o baixista e ocasional compositor e cantor dos Black Midi; acabada a digressão, desatou a beber cerveja e a comer comida de rua, que lhe caiu mal ao ponto dele entrar numa espécie de delírio em que desatou a escrever febrilmente. No dia seguinte, leu o que tinha escrito e entre as várias frases provocadas pela paragem digestiva estava “My New Band Believe”.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/0FypCc1StF9mNiLemcuJ3J?si=qUCu3ZISTIGysaDiOvlRlg
My New Band Believe é o nome da nova banda de Cameron Picton cujo disco de estreia é homónimo – isto se considerarmos que se trata de uma banda, já que a banda é Picton e quem mais se tenha aprestado a tocar com ele; para que não haja dúvidas a este respeito, Picton fornece números: de quantidade de colaboradores envolvidos (22 músicos, sem contar com a orquestra, 21 cantores e 9 engenheiros de som), o espectro de idades dos ditos colaboradores (o mais velho tinha 66; o mais novo tinha 21), o número de locais em que gravou (11) e o número de dias que levou a gravar o disco (29).
O que estes números indicam é que este não foi (e não é) o processo normal de gravação de um disco – por norma entra-se com um número de canções já compostas e arranjadas, aluga-se um estúdio durante X dias, previamente estabelecidos, e grava-se. Mas My New Band Believe é um disco diferente: mais solto, mais improvisado (à exceção, talvez, das cordas), quase tão expansivo em termos de géneros como os Black Midi, mas com algumas diferenças notórias: no disco só há instrumentos acústicos, os géneros musicais centram-se quase sempre na folk e no jazz, e há uma muito maior ênfase na melodia – aliás, o que não faltam são ótimas melodias.
As primeiras atuações a solo de Picton com a sua guitarra acústica foram a abrir para os Black Midi; na altura, ele adotava nomes diferentes a cada atuação. Depois dos Black Midi entrarem em hiato ele começou a ponderar gravar um disco com uma banda (digamos, os Caroline) e depois gravar as exatas mesmas canções com outra banda (digamos os Idles), e assim sucessivamente até ter uma série de canções suficientemente diversificada.
https://www.youtube.com/watch?v=zztKclSNRz8&pp=0gcJCdQKAYcqIYzv
Não foi isso que sucedeu, foi mais: por vezes, um par de amigos ia ao encontro dele no estúdio e pegava-se em algo que ele tivesse composto e gravava-se; o que não o impedia de meses depois, com outros músicos, gravar uma nova parte para a mesma canção e um novo refrão. Como as canções partiam de uma parte composta a partir do qual os músicos convidados improvisavam, isto acaba por fazer sentido.
Claro que só há uma forma de provar que isto faz sentido – e essa forma é ouvir o disco, que deve muito à folk britânica dos anos 60 e 70, a homens como Bert Jansch e John Renbourn ou bandas como os Pentangle ou os Fairport Convention – seja no dedilhado cuidadoso ou na capacidade de transformar uma canção em várias canções, algo que é particularmente notório na extraordinária Heart of Darkness, que tem 8 minutos e meio: começa noutro século, ascende à procura de beleza, tem coros e arranjos de cordas magníficos e consegue caramelizar num ponto de doçura que acaba por definir o disco: em todas as canções as melodias assumem uma importância vital.
Picton usa Heart Of Darkness para explicar as suas intenções com este disco: tudo partiu do facto de ele estar frustrado com a ideia comum daquilo que um cantautor pode e deve ser. E nesta canção ele quis ser transatlântico, ir da folk à soul (que aparece lá pelo meio), “oscilar entre John Renbourn e Otis Redding, alternar entre um e outro”.
https://www.youtube.com/watch?v=Yl2PNRKaU20
O facto de ele ter tentado que Van Dyke Parks fizesse a orquestração do disco diz bem da variedade que ele procurava, mas se calhar ainda bem que Parks não aceitou, porque o disco, centrando-se nessa espécie de folk-jazz, ganhou uma coerência que talvez não fosse possível com Van Dyke ao leme.
Target Practice, a canção de abertura, começa com voz e guitarra acústica e depois enche-se de cordas e coros, enquanto ele lança uma frase cruel (“Don’t cry / you deserve it”) mas cantada numa melodia de fantasia; musicalmente, lembra o Kevin Ayers do início, a solo.
O que acaba por estar a umas milhas de Actress, outra canção de oito minutos (descansem, são só duas), mas não demasiadas: Actress abre com um belo arranjo de cordas, depois as guitarras parecem andar à procura de uma melodia até a encontrarem, e depois há uma ascensão absolutamente extraordinária antes das cordas entrarem em dissonância e regressarmos à melodia.
Há aqui uma sensação constante de procura, como se nenhuma canção estivesse verdadeiramente satisfeita consigo mesma e precisasse de se reinventar a meio, de se desmentir, de se voltar a afirmar por outros meios. Como se a bússola estivesse com uma ligeira falha de alguns graus e fosse necessário constantemente recalcular a rota.
https://www.youtube.com/watch?v=dlj9QMOkx4M
É um disco de tentativas (no melhor sentido da palavra) em que cada faixa parece testar os limites daquilo que pode ser uma canção folk sem deixar de ser, ao mesmo tempo, qualquer outra coisa. E talvez seja isso que mais o aproxima – paradoxalmente – dos Black Midi: não tanto a exuberância caótica ou o virtuosismo nervoso, mas essa recusa quase teimosa em aceitar formas fechadas. Aqui, contudo, essa recusa surge mais serena, mais contemplativa, menos ansiosa por provar seja o que for. Há espaço, há silêncio, há até momentos de uma simplicidade desconcertante que contrastam com a ambição estrutural das composições. Digamos que este é menos excessivo na mistura de géneros e não vive em convulsão constante.
Por vezes, o disco parece quase desmoronar-se – não por incompetência, mas por excesso de liberdade. O curioso é que mesmo os desvios que parecem não compensar, que estão cheios de urtigas, acabam em lindos lagos azuis e por poluir, cheios de corais garridos. Mesmo nesses momentos há uma honestidade rara: a sensação de que estamos a ouvir alguém a pensar em voz alta, a experimentar sem rede, a falhar e a acertar no mesmo gesto.
No fim, My New Band Believe não é tanto um “primeiro disco”, é antes um mapa de possibilidades. Um ponto de partida mais do que um ponto de chegada. Um ponto de partida onde podemos ficar sem querer partir para lado algum, porque como ponto de partida tem tudo o que podíamos esperar e ainda mais. E isso, num panorama onde tantos discos soam como produtos acabados antes mesmo de começarem, é talvez a sua maior virtude.