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Fotógrafo oficial de Marcelo aconselha Seguro: "Não cometa o erro de viver no Palácio de Belém"

Rui Ochôa descreve a residência oficial do Presidente como "inóspita" e critica ambiente criado por funcionários do Palácio. "A vida de Marcelo, quando passou a viver lá, estagnou um pouco."

Miguel Pereira Santos
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Viver no Palácio de Belém é “um horror”. Quem o diz é uma das pessoas que mais acesso teve à residência oficial do Presidente da República ao longo dos últimos 10 anos: Rui Ochôa, fotógrafo oficial do Chefe de Estado durante os dois mandatos presidenciais de Marcelo Rebelo de Sousa. O antigo editor de fotografia do Expresso e fotógrafo oficial de primeiros-ministros como Sá Carneiro, Pinto Balsemão ou Cavaco Silva, aproveita para aconselhar o novo inquilino de Belém no início de mandato: “Aconselho, se me é permitido, ao senhor Presidente Seguro que não cometa o erro de ficar lá. Não tem muitas condições para lá viver.”

No programa Contra-Corrente, da Rádio Observador, Ochôa disse “perceber perfeitamente” que António José Seguro tenha optado por não se mudar para a residência oficial. “O Presidente Marcelo disse-me várias vezes que nunca quereria utilizar o Palácio de Belém como residência. Mesmo as refeições, fazia poucas lá. Ele ia dormir todos os dias a casa e dava-se muito bem com isso. Acontece que veio a pandemia e foi aconselhado, por uma questão de logística, a passar a dormir lá.”

O fotógrafo acredita que essa mudança para Belém teve consequências anímicas no antigo Chefe de Estado. “A vida do Presidente Marcelo quando passou a viver lá estagnou um pouco. Apesar de ele ser uma pessoa que saía todos os dias à rua para passear depois de jantar, ficou um bocado confiando a determinados funcionários que estão por lá e exerceram, como é normal, muita influência pelos seus interesses.”

O perfil dos funcionários do Palácio tornou “muito difícil” a tarefa de trabalhar naquele espaço, admite Ochôa, que diz “não [ter gostado] nada do ambiente” em Belém. O fotógrafo descreve estes trabalhadores como pessoas “muito envelhecidas”, “muito formais”, que se tratam “todos por doutores e engenheiros”. No entanto, explica que existia uma “diferença abissal” entre os membros da Casa Civil de Marcelo, que se tratavam pelo nome, e os funcionários da secretaria-geral da Presidência da República, que se mantêm independentemente de quem ocupa o cargo e nos quais notava “alguma susbverviência”.

Além disso, Rui Ochôa é especialmente crítico das condições físicas do edifício que descreve como “inóspito” e “muito antigo”. Por outro lado, reconheceu que a vista e os jardins do Palácio compensam, em parte, esses problemas. “É só, mais nada. Não gostei nada de trabalhar no Palácio de Belém porque as condições físicas do edifício são péssimas. Acho que aquilo está completamente fora de moda.”

“Com Marcelo não se viu muito a ausência de uma primeira-dama”

O fotógrafo oficial do ex-Presidente também comentou o papel que as esposas dos Chefes de Estado têm em Belém. Depois de Portugal ter passado uma década sem primeira-dama, Ochôa considera “fundamental” a presença de Margarida Maldonado Freitas nas primeiras semanas da Presidência de Seguro. Todavia, considera que, se a mulher do atual Presidente se dedicasse exclusivamente a esse papel e tivesse um gabinete no Palácio, seria “muito útil”, por exemplo, para os cidadãos que escrevem milhares de cartas.

No caso de Marcelo, o seu fotógrafo oficial diz que “não se viu muito a ausência” de uma primeira-dama. “O Presidente Marcelo era uma pessoa que resolvia tudo. Combinávamos um decor para uma fotografia e ele chegava lá e mudava tudo. E muitas vezes tinha razão, porque é um homem que tem uma grande noção de comunicação”, exemplifica. Sobre Marcelo, Rui Ochôa acrescenta: “Adorei trabalhar estes 10 anos com o Professor Marcelo, apesar de já ser amigo dele dos anos do Expresso, por isso é que eu fui para lá.”

O fotógrafo conta que, a esse nível, Cavaco Silva, de quem também foi fotógrafo oficial, é “exatamente o contrário” de Marcelo. “A doutora Maria Cavaco Silva tinha uma influência muito grande [e] não só no Palácio”, defende. Apesar de não aparecer muito publicamente,  a mulher “intrometia-se um pouco na forma como a campanha [eleitoral] era feita”, lembra Rui Ochôa.

Tal como Maria José Rita, mulher de Jorge Sampaio, Maria Cavaco Silva tinha uma gabinete do Palácio de Belém e, segundo o fotógrafo, esta última “foi talvez das primeiras-damas que tiveram uma maior assertividade e influência no Palácio”. Ochôa sublinha a importância que a mulher de Cavaco Silva teve durante a sua vida política e continua a ter: “Aquilo é uma paixão incrível, mas, de facto, a doutora Maria Cavaco Silva é uma pessoa mais afirmativa e não teve qualquer problema em beijá-lo na cerimónia dos 40 anos do Governo de Cavaco em Belém.”

Contudo, o fotógrafo elege Manuela Eanes como a primeira-dama com a “presença” mais “intensa” de todas aquelas que passaram por Belém desde o 25 de Abril. “Era uma pessoa positivamente presente, muito carinhosa [e] um ponto de equilíbrio no Palácio de Belém.” Rui Ochôa recorda o papel político ativo que esta teve durante e depois da Presidência de António Ramalho Eanes: “Manuela Eanes preocupava-se com as pessoas numa situação económica mais débil. Fiz um pouco da campanha do PRD e a Manuela Eanes era uma líder política incrível e as pessoas reviam-se muito nela.”

Apesar de ter sido fotógrafo oficial do único Presidente que não teve uma primeira-dama, Rui Ochôa vinca a importância desta figura não oficial: “Estou de acordo que a presença feminina é sempre muito melhor. É muito importante um Presidente ter uma primeira-dama.”