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(A) :: "Duarte Cordeiro tem muito pouco de taticismo. Pedro Nuno foi injusto"

"Duarte Cordeiro tem muito pouco de taticismo. Pedro Nuno foi injusto"

Em entrevista, Pedro Vaz, amigo e aliado dos dois homens que marcaram a semana do PS, lamenta que Pedro Nuno tenha criticado abertamente Duarte Cordeiro e fala sobre o momento interno do partido.

Mariana Lima Cunha
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Miguel Santos Carrapatoso
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Miguel Viterbo Dias
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Rita Tavares
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Esteve na direção da Juventude Socialista com Pedro Nuno Santos. Quando Duarte Cordeiro assumiu a sucessão na jota, tornou-se secretário-geral adjunto. Conhece os dois há décadas e foi testemunha privilegiada de uma amizade e aliança política que foi dinamitada esta semana. Ninguém — nem o próprio, assume — sabe exatamente o que quer e para onde vai Pedro Nuno Santos. Mas a forma como se dirigiu a Duarte Cordeiro vai provocar ondas de choque imprevisíveis.

Em entrevista ao Observador, Pedro Vaz, deputado do PS e o homem que Pedro Nuno Santos escolheu para a organização do partido quando foi líder socialista, lamenta a forma como tudo se processou em público e aponta o dedo a Pedro Nuno. “Se o Pedro fez essa declaração [sobre taticistas] a pensar no Duarte, acho que não esteve bem. Foi injusto”, defende.

Pedro Vaz, o único militante socialista que recordou e defendeu Pedro Nuno Santos no último Congresso do PS, fala ainda sobre as condições políticas do ex-secretário-geral socialista, dizendo que, “ao dia de hoje”, este não tem “condições políticas” para ambicionar um eventual regresso à liderança do partido. E vaticina: os dois, Duarte Cordeiro e Pedro Nuno Santos, nunca se enfrentarão numa corrida interna.

“O que o PS fez ainda não é suficiente para reconquistar os portugueses”

Nos últimos dias vimos José Luís Carneiro eleger os órgãos de direção, mas também vimos Duarte Cordeiro a ficar fora para marcar uma posição, um importante grupo a distanciar-se do atual líder e ainda o regresso de Pedro Nuno Santos ao Parlamento. A oposição interna no PS está a organizar-se? É desejável um partido que atravessa um momento tão difícil ter esta turbulência interna?
Relativamente a esta questão de oposição interna e de turbulência interna, há uma dimensão que é mais especulativa, publicamente, do que real.

Já antecipava que a resposta fosse essa, a culpa é da comunicação social, está tudo bem no Partido Socialista…
Não disse isso, disse que é mais especulativa do que real. No entanto, e aqui entra a adversativa, é normal que um partido como o PS, que esteve oito anos no poder, os últimos dois num Governo de maioria absoluta, tenha uma necessidade de ajustamento. Não só de protagonistas, mas também de estratégia política, de ambição política, de proposta política, e isso cria sempre alguma tensão interna. Não significa, contudo, que haja, organizadamente, pessoas que ambicionem o lugar dos outros. A discordância é muito normal no PS, há sempre pontos de vista diferentes, estratégias diferentes para atingir os objetivos. Em todo o caso, não encaro essas circunstâncias ou essas situações como dramáticas nas vidas internas do partido. Se toda a gente agir com lealdade, é normal haver dissensos e é normal que haja pessoas que queiram ser protagonistas em vez de outras.

Mas há a hipótese de se repetir o que aconteceu em 2014 e o líder que está a fazer o caminho na oposição não chegar a eleições legislativas, tal como aconteceu com António José Seguro e António Costa?
Não tenho a certeza disso. Na política, aquilo que hoje é uma certeza absoluta, no dia a seguir não é. Basta lembrarmos o que aconteceu com o último Governo de António Costa.

Outros, no seu lugar, responderiam – e já têm respondido – que é uma prerrogativa do líder em funções chegar às eleições legislativas.
Mas eu já cá estive e disse que José Luís Carneiro tinha todas as condições e está a conquistar o direito de ser candidato nas próximas eleições legislativas, só que as próximas legislativas, mantendo-se tudo constante, serão em 2029. Até lá temos um congresso. Se as sondagens se mantiverem constantes com o PS significativamente à frente da AD ou de outros partidos (porque agora há uma variável nova, que é o Chega) e fizer um trabalho de reconquistar a confiança dos portugueses (porque em 2022 foi-nos dada uma oportunidade que as pessoas sentem que desperdiçámos, e isso trouxe maus os resultados), obviamente que José Luís Carneiro não só será candidato a primeiro-ministro quando houver eleições, como no próximo Congresso Nacional não terá adversário.

Até agora, o que fez ainda não é suficiente, é isso?
Não gostava de particularizar no José Luís, porque eu sou militante, deputado e fui dirigente do PS até há bem pouco tempo, mas com o que o Partido Socialista fez ainda não é suficiente.

"É normal que um partido como o PS, que esteve oito anos no poder, tenha uma necessidade de ajustamento. Não só de protagonistas, mas também de estratégia política, de ambição política, e isso cria sempre alguma tensão interna"

“Se Pedro Nuno falou em taticismo a pensar em Cordeiro, não esteve bem”

Duarte Cordeiro decidiu ficar fora da Comissão Política Nacional do PS. Concorda que fazer parte desse órgão de direção era estar vinculado às decisões do líder?
Não concordo com a premissa, isto é, o Duarte Cordeiro não disse isso. Disse que ficando de fora dos órgãos sentia-se com mais liberdade, e até teve a oportunidade de fazer uma ressalva, dizendo que todas as pessoas que estão têm essa liberdade. Agora, foi uma opção pessoal dele, e com com lealdade, com franqueza, transmitiu porque é que não queria estar.

Mas ele disse claramente que fica “menos comprometido”, portanto, estar dentro desse órgão compromete alguém com as decisões do líder.
Não sei qual foi a conversa que ele teve com o secretário-geral no que diz respeito ao convite que lhe foi dirigido, ele pode ter entendido que, dessa conversa entre os dois, terá havido esse compromisso.

Mas ele disse publicamente que o que José Luís Carneiro estava era a “tentar projetar que quem aceitava o convite para a Comissão Política era da equipa e apoiava o líder”.
Também posso dizer que fui tendo um bocadinho essa interpretação, pelas notícias que fui vendo ao longo do período pré e pós-Congresso relativamente aos órgãos do partido.

José Luís Carneiro estava a fazer uma extensão da sua direção para a Comissão Política?
Nem é isso, é aquela coisa do ‘vejam que toda a gente me apoia’, foi isso que fui lendo das notícias. O Fernando Medina apoia, a Mariana apoia, o Duarte apoia, o Francisco Assis apoia. A questão é que aquilo que se tentou transmitir foi esta ‘gente está toda a bordo porque toda concorda com o meu projeto político’, e não é necessário que assim seja, nem tem que ser agora, como o José Luís Carneiro também sabe.

Mas Duarte Cordeiro fez bem em marcar esta distância agora e, já agora, o Pedro Vaz também não ficou na Comissão Política Nacional, por alguma razão?
Não, confesso que não recebi nenhum convite para fazer parte da Comissão Política Nacional. Estou muito tranquilo em relação ao facto de pertencer aos órgãos do partido, já pertenci praticamente a todos e também já houve momentos que não pertencia a nenhum. Por exemplo, na liderança do António Costa, não fiz parte de nenhum órgão nacional. Não me sinto diminuído politicamente na minha ação, continuo a ser um militante do PS, tenho acesso a poder dizer o que entendo dentro dos órgãos do partido e junto dos dirigentes do partido.

Duarte Cordeiro faz bem em marcar esta distância e não vai perder aqui espaço para exprimir a sua opinião dentro dos órgãos próprios?
A experiência que tenho dos órgãos do partido é que ninguém quer saber do que é que a gente vai lá decidir. Aquilo é uma conversa onde pessoas que já sabem as posições uns dos outros vão marcar, alguns porque gostam muito de falar, outros porque vão marcar perante os outros a sua sapiência e a sua análise. E atenção, não quero desvalorizar os órgãos dos partidos políticos nem do meu, que são relevantes e são importantes, mas olho às vezes também para o Parlamento e vejo que nem tenho tempo para expressar opinião nenhuma sobre nada, tirando os 10 segundos para os TikToks.

No caso de Duarte Cordeiro e este movimento que ele fez, é como disse Pedro Nuno Santos, “taticismo à espera de dias mais fáceis para o PS”?
Não creio. Se o Pedro fez essa declaração a pensar no Duarte, acho que não esteve bem. Conheço bem quer o Pedro, quer o Duarte, e o Duarte de taticismo, dessa maneira pejorativa como se quis indicar, tem muito pouco. E o Pedro Nuno sabe.

"A experiência que tenho dos órgãos do partido é que ninguém quer saber do que é que a gente vai lá decidir. É uma conversa onde pessoas que já sabem as posições uns dos outros vão marcar, alguns porque gostam muito de falar, outros porque vão marcar perante os outros a sua sapiência e a sua análise"

“Ao dia de hoje, Pedro Nuno não tem condições para voltar a ser líder”

No último congresso do PS, apenas o Pedro Vaz falou de Pedro Nuno Santos. O partido tratou bem o seu antigo líder?
Falei do Pedro Nuno Santos porque acho que era devido. Antes deste congresso tinha havido um congresso para eleger o Pedro Nuno Santos, e dava a sensação de que era business as usual. Independentemente dos resultados eleitorais que o PS teve, quer nas legislativas de 2024, quer nas legislativas de 2025, devemos agradecer enquanto partido às pessoas que contribuem. Merecem o nosso respeito e o nosso reconhecimento, mesmo que às vezes as coisas não tenham sido ideais. Não sei se as outras pessoas não o fizeram por esquecimento ou se foi deliberado, mas como eu não tenho qualquer tipo de questão com ninguém, sinto-me totalmente livre, achei que lhe era devido um agradecimento pelo trabalho que fez. E, tal como disse no Congresso, o Pedro Nuno tem no Partido Socialista o espaço que entender vir a ter.

Sendo próximo dos dois, Duarte Cordeiro e Pedro Nuno Santos, ficou surpreendido com estas declarações que oficializam uma rutura de uma aliança com muito tempo?
Se dissesse que fiquei, estaria à mentir. Foram sempre parceiros um do outro, e não digo que não continuem a ser no futuro.

Mas o que é que aconteceu? É que aquela declaração não se faz sobre um parceiro, não é?
Então não fazem? Fazem-se mais por aqueles que são mais próximos. Não considero que nada seja definitivo na vida. Então na vida política muito menos. Às vezes acontecem afastamentos, mal entendidos nas nossas relações pessoais. Na vida com os nossos amigos, há momentos de maior tensão, de menor tensão. Estamos a falar de política, mas confesso que a parte que a mim me diz mais respeito não é tanto a trica político-partidária, até olho para a coisa de uma perspetiva mais pessoal, mais subjetiva. Mas não é o fim de nada. Nem o início de coisíssima nenhuma também.

Um dos motivos apontados para esse afastamento é a proximidade, por exemplo, de Duarte Cordeiro a António Costa, ou seja, alguma autonomia em relação a um plano conjunto de Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro para a liderança. Houve aí, um afastamento de estratégia?
Quando Pedro Nuno Santos foi secretário-geral do PS não houve da parte de ninguém, nem do Duarte Cordeiro, uma quebra, em nenhum momento, de lealdade. Tanto que Duarte fez parte do Secretariado Nacional de Pedro Nuno nas circunstâncias em que ele tinha determinado, que se queria afastar da política ativa. E ser parte do Secretariado Nacional de um partido não é afastar-se, ele continuou no Secretariado Nacional do Pedro Nuno Santos.

Seria de esperar, por exemplo, que nas duas campanhas eleitorais a presença de Duarte Cordeiro fosse constante e não foi.
Poderia haver essa expectativa, se calhar, mais externa. Mas olhando para o contexto pessoal de cada um deles, eu não vi a coisa como uma anormalidade. As campanhas correram da forma que foram planeadas, com a mobilização que o PS costuma fazer em campanhas eleitorais. Em 2024, quase que ganhámos as eleições. Tenho para mim que os principais motivos por não termos ganho aquelas eleições têm a ver com decisões finais, já depois da dissolução da Assembleia ou do Governo ainda em funções que se calhar não deviam ter sido…

A culpa foi de Fernando Medina e da sua avareza, é isso?
Não, nem falo disso.Não olho para os governos como se houvesse ministros que decidem e os outros não decidem. O Governo é um todo. Portanto, há um primeiro-ministro que é o principal responsável, mas havia muita coisa que o PS tinha margem para ter feito, e não fez. Mas isto é o que é.

Pedro Nuno Santos tem condições para voltar a ser líder do PS um dia?
Em abstrato, tem. Objetivamente e ao dia de hoje, diria que não.

Mas não se torna inevitável, depois destes acontecimentos mais recentes, que Duarte Cordeiro e Pedro Nuno se enfrentem numa candidatura à liderança do PS?
Não, isso não vai acontecer. Tenho a certeza de que nunca acontecerá.

O grupo que está unido há vários anos nunca se irá separar em duas candidaturas autónomas?
Esta coisa do grupo… eu já nem sei bem quem é o grupo. O PS como um todo é um grande grupo. Esta turbulência dos últimos tempos, com muitos atos eleitorais, não ajuda.

Isto quase que torna o primeiro a pôr o pé na porta, fica com esse lugar. Ser o candidato desse tal grupo.
A vida política e partidária tem muitas nuances. Há pessoas que hoje estão, que depois abraçam outros desafios e não estão. Há pessoas novas que surgem. Aliás, no último congresso vimos claramente dois camaradas meus, mais jovens que eu, que se mostraram um bocadinho a toda a gente, que é o caso do Pedro Costa e do Miguel Costa Matos. Portanto, os partidos são muito dinâmicos entre quem está, quem não está, quem vai, quem vai, quem fica.

São dois nomes críticos de José Luís Carneiro e próximos de Duarte Cordeiro.
E do Pedro Nuno Santos.

Também isso não quer dizer nada?
Não faço essa leitura.

Esta turbulência do PS não pode passar a ideia de um partido que não consegue governar-se a si próprio?
Não sinto turbulência. Vejo estas declarações, mas a vida continua com a normalidade de um partido que está a querer construir uma alternativa de governação, com as dificuldades que ser oposição em Portugal tem, no contexto atual, em que objetivamente o partido não é a segunda força política no Parlamento e isso tem impacto até do ponto de vista mediático. O PS não faz a política do soundbite, onde quanto mais chocante melhor, apenas para chamar a si as atenções. Um partido como o PS tem as responsabilidades de quem pensa um dia vir a ser governo, construir uma alternativa que faça sentido na cabeça das pessoas. Os partidos são muito responsáveis por uma ideia: temos que dar tudo, a todo o tempo, sendo que…

Os recursos são finitos.
São finitos e são de todos, porque os recursos do Estado são os nossos impostos.

Pedro Nuno Santos foi injusto na crítica que fez a Duarte Cordeiro?
Foi.

"Às vezes acontecem afastamentos, mal entendidos nas nossas relações pessoais. Na vida, com os nossos amigos, há momentos de maior tensão. Estamos a falar de política, mas até olho para a coisa de uma perspetiva mais pessoal. Mas não é o fim de nada. Nem o início de coisíssima nenhuma também"

“Seguro deve vetar reforma laboral”

Se não houver acordo entre o governo e o GT e demais parceiros sociais, o Presidente da República deve ou não vetar a reforma laboral?
Deve, claro. Aliás, ele disse que o faria.

Já tem tentado introduzir umas certas nuances a essa promessa que deixou, mas, no seu entender, deve ser coerente.
Ainda não ouvi as nuances, só ouvi a primeira declaração.

O PS devia dizer que viabiliza o Orçamento do Estado, mesmo antes de o ver, para dar um sinal de que preza a estabilidade?
Estamos sempre nessa discussão, todos os anos, nesta altura. A estabilidade política do país, pelas declarações do atual Presidente da República, não está em causa se o Orçamento não for viabilizado. Vamos esperar para ver o Orçamento.

“Gyökeres ou Pedro Nuno? Não é tempo de nenhum dos dois regressar”

Vamos avançar para o segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe, em que o convidado só pode escolher uma de duas opções.Preferia ter Duarte Cordeiro a liderar o PS na oposição a um governo da AD, ou José Luís Carneiro a liderar um governo do bloco central?
José Luís Carneiro a governar um governo do bloco central.

Preferia dirigir a campanha de José Luís Carneiro nas legislativas de 2029 ou a candidatura de Duarte Cordeiro à Câmara de Lisboa nesse mesmo ano?
Dirigir a campanha do Duarte.

Preferia o Sporting tricampeão ou eleições legislativas antecipadas já no próximo ano?
Sporting tricampeão.

Preferia o regresso de Viktor Gyökeres ao Sporting ou o de Pedro Nuno Santos à liderança do Partido Socialista?
Acho que não é tempo de nenhum dos dois regressar.

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