Pela primeira vez, uma posição russa foi capturada exclusivamente com recurso a drones e sistemas robóticos terrestres, sem qualquer presença de infantaria. A operação foi concluída sem baixas do lado ucraniano, confirmando aquilo que muitos analistas vinham antecipando: a tecnologia já não é apenas um multiplicador de força, está a tornar-se, em determinados contextos, o próprio instrumento principal de combate. Em paralelo, a integração acelerada de sistemas não tripulados no campo de batalha, desde drones a veículos terrestres autónomos, está a transformar não só as tácticas, mas a própria natureza da guerra. Estes sistemas permitem reduzir riscos humanos, aumentar a persistência no terreno e operar em ambientes onde o soldado tradicional dificilmente sobreviveria.
À primeira vista, a conclusão parece óbvia: menos necessidade de militares, mais dependência de tecnologia, mas essa leitura é não só simplista, é perigosa.
Apesar da crescente robotização do campo de batalha, a guerra continua a ser, na sua essência, uma actividade profundamente humana: exige decisão, liderança, adaptação, julgamento sob pressão e, sobretudo, presença no terreno quando a tecnologia falha, é neutralizada ou simplesmente não consegue substituir a complexidade do factor humano. Importa sublinhar que a história militar demonstra repetidamente uma tendência recorrente: a crença na substituição do elemento humano pela tecnologia tende a emergir em cada salto tecnológico significativo, das metralhadoras em 1914 à blindagem na II GM, da aviação aos drones de hoje, mas nunca se confirmou como substituição total, apenas como reconfiguração da função do combatente.
É precisamente neste aparente paradoxo, mais tecnologia, mas não menos necessidade de militares, que se joga uma das grandes questões estratégicas do nosso tempo.
E convenhamos, ainda que mais bem preparados e em menor número há um mínimo absolutamente necessário para dar corpo às FFAA e materializar as missões que o País lhes atribui, ainda que com mais ou menos sistemas autónomos! E aqui a questão é simples: os números de 24 517 militares que há dias Nuno Melo, ministro da Defesa Nacional, anunciou, assinalando uma inversão da queda nos últimos anos, são suficientes?
O próprio governante deu a resposta assegurando que a tendência é “notável”, mas deve ser encarada “sem euforias”, realçando que é necessário continuar a investir em medidas para que se atinja o objectivo legal de 32 mil. Este debate insere-se também na tensão estrutural entre três tempos distintos: o tempo político, que tende a ser imediato; o tempo tecnológico, que evolui exponencialmente; e o tempo militar, que depende de formação, experiência e maturação institucional.
Sejamos justos para com quem herdou da governação anterior uma situação lastimável do estado das FFAA, onde durante esses anos de má memória, Portugal perdeu 20% dos efetivos nas FFAA. Quando Nuno Melo tomou posse os efectivos somavam-se na ordem dos 23.000 militares e nele incluídos militares dos quadros permanentes no ativo, na efetividade de serviço (na estrutura ou fora da estrutura das FFAA), os quadros permanentes na reserva na efetividade de serviço, assim como militares em formação para o quadro permanente e em regime de contrato, voluntariado e contrato especial. Contas feitas e factos provados a governação socialista de Dezembro de 2015 a Março de 2024, fez perder 5.958 efetivos das FFAA, cerca de um quinto do total de efectivos registados na altura em que o primeiro Governo de António Costa tomou posse. Uma média de 600 militares por ano, o que se comparáramos com a governação de Nuno Melo, não só anulou este ritmo de perda como ganhou em menos de dois anos cerca de 1300 efectivos. Isto não surgiu por criação espontânea nem por milagre, mas sim por políticas corajosas e diferenciadoras, que vão da melhoria da remuneração, das condições de trabalho, etc.
Um outro exemplo, o acordo recente entre o Ministério da Defesa Nacional e o Sindicato Independente dos Médicos para o Hospital das FFAA resolve bloqueios estruturais com décadas, regulariza progressões nas carreiras médicas, cria previsibilidade nos concursos e devolve dignidade e atractividade a uma área crítica para a retenção e funcionamento das FFAA. Mais do que uma medida administrativa, é um passo estratégico para garantir melhores cuidados de saúde aos militares e maior capacidade operacional, incluindo em missões externas. Curiosamente, sendo uma reforma concreta que corrige injustiças antigas e reforça o sistema, passa quase despercebida, quando, seguramente com um governo socialista e outro ministro daqueles que desconhecia um paiol ou enviava roupa íntima para a Ucrânia, dificilmente não abriria manchetes sobre “valorização do SNS militar” e “reforço do Estado”.
Por isso, insisto no mérito desta política porque, no domínio dos recursos humanos, o processo nas FFAA está longe de ser simples ou imediato. Não se trata apenas de atrair jovens — trata-se de construir, de forma sustentada, capital humano altamente qualificado para um contexto operacional cada vez mais exigente. O cenário que hoje se coloca já não é o das chamadas “missões de paz”, mas o de conflitos de alta intensidade, prolongados, tecnologicamente complexos e com níveis de desgaste humano e material muito elevados. Um ambiente onde a prontidão, a resiliência e a capacidade de adaptação fazem toda a diferença. Neste contexto, não há atalhos.
Entre recrutar um jovem e ter um militar plenamente preparado vão anos de formação, treino e experiência operacional. E esse ciclo não pode ser acelerado por decreto nem improvisado em momentos de crise.
Atrair é apenas o primeiro passo, e talvez o mais visível. Exige comunicação eficaz, valorização da carreira militar e condições que tornem o serviço atractivo para novas gerações, num mercado de trabalho cada vez mais competitivo.
Mas atrair não chega, é preciso captar. Ou seja, selecionar os perfis certos, com aptidões físicas, psicológicas e cognitivas adequadas. Num ambiente onde a tecnologia ganha peso, a exigência é hoje maior: não basta robustez física, exige-se também capacidade de adaptação, pensamento crítico e literacia tecnológica.
Segue-se a instrução, que vai muito além da formação inicial. É aqui que se incutem valores, disciplina, cultura organizacional e os fundamentos da profissão militar. É um processo exigente, prolongado e irreversível na formação do indivíduo enquanto combatente, mas também enquanto cidadão. No retorno à “vida civil” este processo de formação tem de aportar valores de cidadania à sociedade que com os seus impostos suportou essa formação.
Depois, a capacitação. Já não falamos apenas de saber executar, mas de integrar sistemas complexos, operar em ambientes multidomínio e compreender a interligação entre tecnologia, informação e decisão. A guerra contemporânea exige militares que sejam simultaneamente operadores, analistas e decisores. E decisores, cada vez mais conscientes, porque um erro de confiança exagerado na tecnologia ou mesmo na IA na definição de um alvo pode resultar na morte de dezenas de crianças numa escola que, entretanto, está onde estaria um depósito de armamento.
O treino contínuo é outro pilar essencial. Não há prontidão operacional sem repetição, validação e adaptação constante. Treinar hoje significa simular cenários híbridos, integrar novas tecnologias e preparar respostas para ameaças que evoluem a um ritmo acelerado.
A fase de operação é onde tudo converge, e onde o factor humano continua a ser decisivo. Por mais avançados que sejam os sistemas, é o militar que decide, interpreta e assume o risco. A tecnologia apoia, mas não substitui a responsabilidade no terreno.
Finalmente, a retenção. Talvez o maior desafio de todos. Formar um militar exige anos e investimento significativo. Perdê-lo precocemente significa desperdiçar capacidade instalada. Reter implica carreiras credíveis, reconhecimento, estabilidade e condições que permitam conciliar exigência operacional com vida pessoal.
É por isso que falar de reforço de efectivos não é uma questão quantitativa, é uma questão estrutural e estratégica. Porque entre recrutar um cidadão e formar um militar plenamente operacional vai um caminho longo, exigente e que não se compadece com improvisações. É por isso que o debate sobre o serviço militar é hoje inadiável. É por isso que, apesar de ser justo reconhecer o mérito de Portugal ter finalmente invertido o ciclo de perdas de efectivos, não podemos ignorar a realidade: ao ritmo actual, só dentro de uma década atingiremos os mínimos necessários para assegurar uma prontidão operacional credível.
A questão que se impõe é simples, e inquietante: teremos esse tempo? Perante a aceleração das ameaças e a crescente instabilidade do contexto estratégico mundial, confiar no calendário pode ser o maior dos riscos.
Entretanto, continuamos a investir, e bem, em capacidades críticas: novos aviões, novas viaturas blindadas e novas fragatas, mas impõe-se uma pergunta simples e incómoda: quem os vai operar, manter e integrar em operações reais? Qual é o custo estratégico, e não apenas financeiro, de sistemas avançados sem recursos humanos qualificados e em número suficiente?
Não podemos continuar a discutir meios ignorando o essencial: são as pessoas que dão sentido à capacidade militar. Sem elas, qualquer investimento corre o risco de se transformar numa ilusão de segurança.
Por isso, este não pode ser um esforço solitário. Não podemos deixar o ministro isolado neste caminho, nem os nossos chefes militares sem as condições necessárias para cumprir as missões que lhes são atribuídas. Mais ainda quando o Governo na proposta de Lei das Grandes Opções para 2025-2029 estabeleceu a nova meta de efectivos das FFAA em mais de 3700 militares até ao fim de 2027, o que mais do que uma meta sectorial, é um desígnio nacional que dependerá diretamente do compromisso político do Primeiro-Ministro e da determinação do Ministro das Finanças, porque sem esse alinhamento no topo do Governo, nenhuma estratégia do ministro da Defesa será sustentável no tempo.
A defesa nacional não é uma responsabilidade exclusiva das FFAA, é uma responsabilidade colectiva… é um desígnio nacional e de cidadania!
E aqui importa recordar a data comemorativa que se avizinha, a da Revolução de 25 de Abril de 1974. Foram militares que, num momento decisivo, assumiram o risco e lutaram para devolver a liberdade à sociedade portuguesa. Hoje, essa mesma sociedade é chamada a retribuir, não com gestos simbólicos, mas com compromisso, compreensão, apoio efectivo e de efectivos às suas FFAA.
Porque, tal como já acontece na Ucrânia: a tecnologia pode evoluir, os sistemas podem multiplicar-se, mas a guerra, e a segurança, continuam a ser, em última análise, uma responsabilidade humana. E sem militares e civis preparados, motivados e disponíveis, nenhum sistema, por mais avançado que seja, fará a diferença.
E talvez valha a pena não esquecer que a “Liberdade de Abril”, para existir e perdurar, não se herda nem se garante por inércia, nem se esgota em museus por melhor que eles sejam, agora defende-se todos os dias, com vontade, sacrifício e a capacidade real de a proteger.
(Nota: escrito a 22 de Abril para comemorar os 52 anos da Revolução de Abril)