Tiago Guedes regressa a Cannes este ano com a sua nova longa-metragem, Aquí, uma adaptação da Trilogia de Jesus que J.M. Coetzee escreveu em inglês mas mandou publicar em língua espanhola antes da versão original (daí o acento no “í” na palavra castelhana do título). A produção, uma vez mais, é de Paulo Branco, com quem Tiago Guedes tem vindo a trabalhar regularmente nesta última década.
O filme conta com um elenco de notáveis do país vizinho, Manolo Solo e Patricia López Arnaiz à cabeça (a actriz pode ser vista em Os Domingos, filme que Paulo Branco também distribuiu entre nós), bem como Sergi López e a participação especial de Angela Molna, Fernando Trueba e do português Albano Jerónimo (rosto frequente nas obras do cineasta). Aquí será exibido fora de concurso, na secção Cannes Première, quatro anos após a estreia mundial na Croisette de Restos do Vento, que foi escolha das Sessões Especiais de Cannes 2022. Antes disso, Tiago Guedes competira em 2019, no Festival de Veneza, com A Herdade, projecto que partiu igualmente de uma ideia de Branco.
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O escritor sul-africano, residente na Austrália há um quarto de século (e que já visitou Portugal diversas vezes, no âmbito do Leffest), acompanhará a comitiva luso-espanhola desta ficção distópica agora transposta para cinema. “Num lugar em que todos recomeçam sem um passado”, diz a nota enviada à imprensa, “Simón (Manolo Solo) responsabiliza-se por David (Alex Peláez), a criança que ele encontra na passagem para uma nova vida.” O argumento desta reflexão sobre a memória e a maneira como se reformulam as relações filiais sem ela é da autoria de Tiago Guedes e de Luís Araújo. Co-produção internacional que, além dos dois países ibéricos, envolve também a França e a Alemanha, o filme é falado em castelhano (no elenco está também o francês Lambert Wilson) e, até ver (com os anúncios da Croisette, nunca se sabe…), a única longa-metragem de produção portuguesa em Cannes 2006.
James Gray na competição
Era o segredo de polichinelo deste Cannes 2026, toda a gente sabia desde o primeiro dia que James Gray estava na liça para ir ao concurso pela Palma de Ouro, mas a decisão de escolha da distribuição americana estava a atrasar o processo. Thierry Frémaux, delegado-geral de Cannes, foi obrigado a esperar. Por fim, é oficial: Paper Tiger, novo filme de James Gray, é o 22.º (e último) concorrente à Palma de Ouro deste ano e segundo filme norte-americano deste lote (o outro é The Man I Love, de Ira Sachs).

Vai trazer a Cannes Scarlett Johansson, Adam Driver e Miles Teller, em mais uma história a envolver máfias russas com o sonho americano desfeito — assim começou James Gray, recorde-se, há mais de três décadas, quando se lançou com Little Odessa (1994). O nova-iorquino regressa assim a um festival que se tornou a sua casa. Esta é a sexta vez que se apresenta a concurso pela Palma de Ouro, a última aconteceu há quatro anos, com Armageddon Time (que não chegou a estrear-se comercialmente em Portugal, passando directamente para o streaming).
https://observador.pt/2026/04/09/almodovar-hamaguchi-pawlikowski-ira-sachs-e-arthur-harari-na-competicao-pela-palma-de-ouro-de-cannes/
Cannes anunciou entretanto o poster para a edição deste ano — e foi buscar Thelma & Louise, de Ridley Scott:

Eis a lista das longas metragens que se juntam ao festival:
COMPETIÇÃO
Paper Tiger, de James Gray
UN CERTAIN REGARD
Victorian Psycho, de Zachary Wigon
Mémoire de fille, de Judith Godrèche
Titanic Ocean, de Konstantina Kotzamani
Ulysse, de Laetitia Masson filme de enceramento)
CANNES PREMIÈRE
The End of It, de Maria Martinez Bayona
Marie Madeleine, de Gessica Généus
Aquí, de Tiago Guedes
Mariage au gout d’orange, de Christophe Honoré
Si tu penses bien, de Géraldine Nakache
SESSÕES ESPECIAIS
Spring, de Rostislav Kirpicenko
Ashes, de Diego Luna
Tangles, de Leah Nelson
Le Triangle d’or, de Hélène Rosselet-Ruiz
Groundswell, de Joshua & Rebecca Tickell
SESSÃO DE FAMÍLIA
Lucy Lost, de Olivier Clert (animação)
O autor escreve segundo a antiga ortografia.