Investigadores acreditam que grupos de macacos que vivem no Rochedo de Gibraltar aprenderam a comer terra para evitar problemas de estômago e irritações intestinais causadas pela grande quantidade de alimentos pouco saudáveis que recebem — e por vezes roubam — dos turistas. Os animais com maior contacto com os visitantes eram também os que mais consumiam terra, com esse comportamento a atingir o pico durante as épocas festivas na região, constataram os cientistas.
Conhecido como geofagia, o hábito intencional de consumir terra, solo ou argila também ocorre em seres humanos. Em algumas regiões de África, da Ásia e da América do Sul, mulheres grávidas consomem terra para aliviar náuseas ou obter minerais essenciais, relata o The Guardian. No entanto, os investigadores não observaram um aumento do consumo de solo entre as macacas em gestação de Gibraltar, o que sugere que este comportamento não estará ligado à suplementação nutricional da dieta. Assim, os cientistas acreditam que o comportamento possa ter uma função protetora do sistema digestivo, embora as observações ainda não permitam confirmar de forma conclusiva a razão pela qual estes animais ingerem terra.
“Pensamos que o consumo dos alimentos pouco saudáveis desequilibra a composição do microbioma e sabemos que as bactérias e os minerais presentes no solo podem ajudar a restabelecê-lo e a atenuar os efeitos negativos”, explicou Sylvain Lemoine, ecologista comportamental de primatas da Universidade de Cambridge, citado pelo jornal britânico. “Acreditamos que o solo exerce um efeito protetor“.
“Há muito gelado. Adoram Magnum e Cornetto. O que não gostam muito é de sorvete”
Em Gibraltar vivem cerca de 230 macacos, divididos em oito grupos distintos. Segundo o The Guardian, os investigadores observaram, entre o verão de 2022 e a primavera de 2024, que quase um quinto de toda a comida consumida por estes animais era composta por alimentos não saudáveis. Embora as autoridades locais lhes forneçam frutas, legumes e sementes todos os dias, os turistas — que são aconselhados a não tocar nem dar comida aos macacos — alimentam os animais com snacks desde batatas fritas, chocolates, M&Ms e até mesmo Coca-Cola. “Há muito gelado. Adoram Magnum e Cornetto. O que não gostam muito é de sorvete”, contou Sylvain Lemoine.
Ao todo, os cientistas registaram 44 macacos a consumir terra em 46 ocasiões diferentes. Em três dos casos, os animais foram vistos a ingerir solo após lhes terem sido oferecidos alimentos como gelado, bolachas ou pão. No inverno, quando o número de turistas diminuiu, os macacos mostraram menos 40% de probabilidade de consumir a comida oferecida pelos turistas e cerca de menos 30% probabilidade de ingerir terra.
Os macacos de Gibraltar parecem aprender o hábito socialmente, preferindo diferentes tipos de solo dependendo do grupo em que estão inseridos. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, indica que a maioria dos animais procura solo argiloso, enquanto um grupo que habita as encostas ocidentais mais baixas prefere o solo saturado de alcatrão proveniente de buracos nas estradas asfaltadas.
Embora os alimentos pouco saudáveis possam ser prejudiciais para os macacos, o solo também o pode ser, explica o ecologista comportamental de primatas. “Muitos veículos passam todos os dias, e a maioria ainda não é elétrica”, afirmou Lemoine. “Queremos analisar o solo. Estamos muito interessados em verificar os níveis de poluentes.”
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
