“Michael”
Imaginem um filme biográfico sobre O.J. Simpson que só se focasse na sua carreira desportiva e nos papéis no cinema e omitisse o caso do assassinato da sua mulher e de um amigo. O realizador Antoine Fuqua (Dia de Treino) e a família de Michael Jackson fazem o equivalente disto em Michael, que termina em Londres, na digressão mundial do álbum Bad, em 1988, e ignora tudo o que se seguiu, da sucessão de cirurgias plásticas desfiguradoras às acusações de predação sexual pedófila e à decadência mental e artística do “Rei da Pop”, interpretado pelo seu sobrinho Jaafar. Aqui, só há uma vítima, e é Michael Jackson, às mãos do seu ambicioso e brutal pai, Joseph. Feito com um orçamento e meios técnicos dignos uma grande produção de super-heróis, e controlado pelos familiares e próximos do cantor, Michael fica-se pela celebração, branqueamento e veneração do biografado em estilo de Wikipedia filmada, e por um tour de force de mímica por parte de Jaafar Jackson. O projeto original durava quatro horas e abrangia a segunda parte da vida de Jackson, mas teve que ser cortado e refeito por Fuqua e pelo argumentista John Logan. E ficou apenas o conto de fadas cintilante e edificante, e não a realidade complexa e controversa. O produtor Graham King, já responsável por Bohemian Rhapsody, disse que a segunda parte do filme poderá ir em frente, dependendo dos resultados comerciais de Michael. Por agora, é mesmo caso para dizer: “It’s bad”.
https://www.youtube.com/watch?v=3zOLzsbOleM
“A Mulher Mais Rica do Mundo”
Esta fita de Thierry Klifa inspira-se no caso escandaloso da falecida multimilionária e socialite francesa Liliane Bettencourt, herdeira e presidente do império de cosméticos L’Oréal, e a mulher mais rica do mundo, cuja família recorreu à justiça nos anos 80 para impedir que ela dissipasse a sua colossal fortuna com o seu amigo especial e confidente de eleição, o artista, escritor e fotógrafo gay François-Marie Banier, que cobria de presentes caros e em cheque ou dinheiro vivo. Isabelle Huppert personifica Bettencourt, aqui chamada Marianne Farrère, e Laurent Lafitte incarna o oportunista, insolente e escandaloso Pierre Alain-Fantin. A Mulher Mais Rica do Mundo é tão impessoal e funcional como um telefilme dos anos 90, e vale só mesmo pela parelha Huppert/Laffite.
https://www.youtube.com/watch?v=s1g9v9AjFBU
“My Way — A História de uma Canção”
Assinado por Lisa Azuelos e Thierry Teston, My Way — A História de Uma Canção, não traz nada de especialmente novo sobre a história e as curiosidades em redor da canção originalmente intitulada Comme d’habitude e escrita pelos franceses Jacques Revaux, Gilles Thibaut e Claude François, gravada por este em 1967, comprada, levada para os EUA e retrabalhada por Paul Anka, que a passou, agora rebatizada My Way, a Frank Sinatra, que a imortalizaria e a associaria intimamente a si, embora se tivesse fartado dela mais tarde. Mesmo assim, o documentário, curto e sucinto, e narrado por Jane Fonda em nome da própria canção, vê-se com agrado, e recorda coisas como os tiroteios mortais nos bares de karaoke das Filipinas por causa de interpretações menos afinadas de My Way.
https://www.youtube.com/watch?v=BN-mAsPbWSY
“Projecto Global”
Ivo M. Ferreira filma aqui, com acrescentos e personagens ficcionais, a história das Forças Populares 25 de Abril (FP-25), um movimento terrorista de extrema-esquerda que esteve ativo em Portugal entre 1980 e 1987, e que pretendia instaurar no país o “socialismo popular” e a ditadura do proletariado, tendo Otelo Saraiva de Carvalho como um dos mentores. Enquanto estiveram ativas, as FP-25 fizeram atentados a tiro e à bomba, roubaram bancos, empresas e carrinhas de transporte de valores, e mataram 19 pessoas, incluindo um bebé de quatro meses. O filme centra-se nas ações de um punhado de operacionais do grupo, que estão a ser vigiados e investigados pela Polícia Judiciária. Projecto Global foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.