“Amigos? Eles eram irmãos.” A proximidade entre Pedro Nuno e Duarte Cordeiro é assim descrita entre os que lhes são mais próximos no PS e o alinhamento de agenda política era evidente. Sempre estiveram do mesmo lado, com o mesmo objetivo: ter Pedro Nuno na liderança do PS. O desejo antigo de ambos concretizou-se quando a dupla já estava menos coesa. O afastamento foi-se acentuando e, agora, transformou-se numa rutura aberta, com contornos de confronto político e público.
A frase que cristaliza esse momento é clara: “Eu tenho muito mais respeito pelo José Luís Carneiro do que pelos taticistas que estão à espera que venham tempos mais fáceis para o PS e avançarem”. Não houve margem para dúvidas sobre o alvo do tiro: no domingo, Duarte Cordeiro fez saber que recusara integrar a Comissão Política Nacional do PS para ter “liberdade para discordar” da direção do PS. “Taticismo”, na leitura do seu ex-amigo. E deve ter resposta, já que Duarte Cordeiro estará a guardar uma reação para o seu espaço de comentário semanal no canal televisivo Now, na próxima terça-feira.

Mas Pedro Nuno não atingiu só Cordeiro, também tocou de raspão em Fernando Medina ou Mariana Vieira da Silva, que são críticos da atual direção, mas não avançaram para a liderança — nem no ano passado, nem nas diretas mais recentes. E também aqui aparece a considerar Carneiro, ao lembrar que em 2023, que foi a jogo com clareza, quando ele próprio concorreu a líder “depois de se encontrarem 75 mil euros em São Bento, depois da notícia de que havia vários governantes a serem investigados, entre os quais o primeiro-ministro”.
Na mesma linha de valorização de José Luís Carneiro, Pedro Nuno Santos acabou ainda por deixar implícita uma crítica a António Costa. Ao afirmar que “no final de 2023 o PS já tinha perdido o país”, apontando em particular à erosão junto da função pública — um dos eleitorados tradicionalmente mais fiéis —, o antigo líder traça um diagnóstico que atinge o ciclo governativo anterior.
É, no entanto, também um elemento de autoafirmação: foi nesse contexto adverso que o próprio Pedro Nuno enfrentou Carneiro — e acabou por ser ele a liderar o partido nas legislativas seguintes, que perdeu por uma margem curta, de cerca de 50 mil votos. A “distância” ideológica face ao líder que lhe sucedeu continua a existir — e Pedro Nuno Santos fez questão de a sublinhar: “Eu sou um social-democrata de esquerda que defende um Estado forte como instrumento do desenvolvimento nacional e como instrumento para travar a apropriação da riqueza gerada por todos por meia dúzia e, portanto, não sou adepto de nenhuma estratégia centrista nem nunca serei adepto de nenhuma estratégia centrista“.
Também acaba por dar a entender que o atual líder precisa de reforços para “combater a direita” e “um Governo que é medíocre”, aquilo que jura que vem ajudar fazer, recusando a ideia de estar de regresso com outras intenções, sobretudo a de recuperar poder no PS. Aos que habitualmente o rodeiam, não se tem cansado de dizer que “está livre” e que é assim que pretende continuar, sem querer nada nem ter uma agenda — foi isto mesmo que terá também assegurado ao atual líder, segundo apurou o Observador, quando lhe disse que estava interessado em retomar o seu lugar de deputado depois de o ter suspendido há seis meses. Ainda não é certo, no entanto, que não venha a ter algum espaço de comentário político num órgão de comunicação social.
No Parlamento, esta quarta-feira e depois da declaração estrondosa que deixou aos jornalistas, ainda antes do plenário começar, Pedro Nuno esteve sempre na última fila da bancada, sentado grande parte do tempo entre o seu antigo chefe de gabinete, o deputado Hernâni Loureiro, e a ex-ministra Marina Gonçalves. Mas muitos socialistas foram circulando por aquela fila para cumprimentos e conversas, como Francisco César, por exemplo. Pedro Nuno Santos estava num indisfarçável frenesim, depois de nos últimos três meses se ter dedicado em exclusivo ao negócio de família, a empresa de venda de maquinaria para o calçado, Tecmacal, em São João da Madeira.
O trilho dividido traz consequências para o PS?
A rajada de ataques e a necessidade de reafirmação do posicionamento político com que regressou é, no entanto, reduzida por alguns socialistas ouvidos pelo Observador a um mero acerto de contas passadas, sendo as mais significativas com Duarte Cordeiro, dada a proximidade pessoal e política que sempre tiveram. O distanciamento entre os dois começou, de acordo com elementos do seu grupo mais próximo (são muitos os amigos dos dois que se cruzam), ainda antes das diretas de 2023, no final de 2022, e consolidou-se depois da saída de Pedro Nuno do Governo. Houve “problemas de comunicação”, descreve um desses socialistas ao Observador. Em pano de fundo terá estado uma crescente desconfiança de Pedro Nuno quanto a uma eventual autonomização política de Cordeiro.

O então aliado estava cada vez mais no núcleo de confiança de António Costa, que lhe confiou diversas direções de campanha, incluindo a que culminou na maioria absoluta de 2022. Entre 2018 e 2024, Cordeiro presidiu à maior federação do partido, a da Área Urbana de Lisboa, onde consolidou uma influência significativa. Era um trunfo valioso para qualquer liderança, ao mesmo tempo que se afirmava como um ativo político em ascensão, acumulando ele mesmo capital para disputar o próprio topo.
O colapso do Governo, em 2023, e a investigação ao então ministro do Ambiente na operação Influencer — com buscas domiciliárias — precipitaram o seu afastamento da vida política, precisamente quando Pedro Nuno chegava à liderança. Ainda participou nas diretas, mas a sua presença nas campanhas seguintes foi residual. Nas legislativas de 2025, surgiu apenas num almoço na Figueira da Foz, onde atacou a AD e defendeu que, com Pedro Nuno como primeiro-ministro, o país não teria ido a eleições antecipadas.

Entre os mais próximos de Pedro Nuno, a leitura é clara: “O Duarte quis afastar-se, não ser o braço direito e não quis estar no núcleo duro.” Um afastamento que, como descreve outro socialista que acompanhou o processo, foi sendo “progressivo”. Outro deputado socialista explica ao Observador que Duarte Cordeiro foi-se afastando sobretudo por discordância com a “estratégia política” seguida por Pedro Nuno na liderança, em vários momentos — fazia parte da sua direção que mal reunia (e essa também era uma crítica que fazia internamente).
A proximidade que os dois cultivaram durante anos fez com que o grupo dos dois dentro do partido fosse, em grande medida, o mesmo, pelo que é pouco provável que daqui saia um grande cisma no PS. Até porque, como recordam mesmo alguns pedronunistas, o ex-líder não terá condições para voltar ao poder no PS — e sem perspetiva de poder, as tropas tendem a desmobilizar para outras frentes.
O poder que tinha nas estruturas do partido “diluiu-se” entretanto, argumenta um deputado do partido. “Pode até haver proximidade pessoal que se mantém, mas não há um objetivo programático comum que junte essas pessoas”, acrescenta. “Neste momento o Pedro Nuno não conta para o totobola interno“, admite um outro socialista que esteve nas suas direções, para explicar a pouca relevância de uma zanga pública entre os dois para futuras ambições de Cordeiro, por exemplo.
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]

Apesar da proximidade que sempre mantiveram, a linha política de um e de outro foi-se afinando com o tempo. Pedro Nuno Santos posicionou-se cada vez mais à esquerda do PS, enquanto Duarte Cordeiro, embora também associado à ala esquerda, nunca exibiu o mesmo grau de vinculação ideológica e surge muitas vezes mais focado na gestão e na tática. Há, aliás, quem não se espante com a rutura. Uma dirigente comentou com o Observador que nunca percebeu verdadeiramente a “amizade política” entre os dois: “Em cada dez assuntos, discordavam em oito”.
Já Duarte Cordeiro, poderá vir a contar e, se chegar aí, pode ter a animosidade de Pedro Nuno Santos, mas terá seguramente ao seu lado alguns dos que fizeram parte do núcleo de confiança do ex-líder — no qual ele mesmo participou e, no seu caso, desde a faculdade e o associativismo em que os dois participaram. Ambos se licenciaram em Economia no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa. Duarte era amigo de Catarina Gamboa, mulher de Pedro Nuno Santos, que chegou a ser sua chefe de gabinete na Câmara de Lisboa e também nos Assuntos Parlamentares.
Foi nesses tempos que ambos cozinharam boa parte das ambições políticas que viriam a seguir no PS. A de Pedro Nuno concretizou-se num tempo inesperado, depois da saída abrupta de Costa. A de Duarte Cordeiro pode ainda não ter começado. Em tempos, quando era Pedro Passos Coelho o primeiro-ministro e a troika estava no país, foram ambos ativos no combate interno a António José Seguro (então líder do PS), num grupo que no Parlamento era conhecido pelos “jovens turcos” (onde também se incluía outro ex-amigo de Pedro Nuno, João Galamba). Eram então jogadores versados na tática política pura. Hoje é essa mesma tática que os separa.
