Passado e presente do Banco de Portugal (BdP) vão sentar-se no Parlamento para dar explicações sobre o futuro da instituição, mais concretamente o projeto da nova sede prevista para a zona de Entrecampos, em Lisboa, e cujo projeto está envolto em polémica. Os deputados da Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública (COFAP) aprovaram esta quarta-feira as audições do ex-governador do BdP, Mário Centeno, e do atual governador, Álvaro Santos Pereira, que tinham sido pedidas por CDS-PP e Chega.
Uma investigação do Observador, publicada em julho de 2025 em dois trabalhos (ver aqui e aqui), revelou que a obra terá, afinal, um custo superior aos 191,99 milhões de euros originalmente anunciados pelo BdP no negócio com a Fidelidade, podendo chegar, no mínimo, aos 234 milhões de euros. O banco central era então ainda liderado por Mário Centeno, tendo a decisão sobre o negócio sido tomada a escassos meses do fim do seu mandato.
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Foi então revelado também que a opção de Entrecampos tinha sido chumbada em 2022 por razões de segurança e que o projeto acabou mesmo por avançar nesta localização, apesar de os relatórios de due diligence elaborados pelos assessores jurídicos e técnicos terem apontado para a existência de contingências graves e de “alto risco”.
O requerimento do CDS que solicitou com urgência nova audição do ex-governador vinca que a anterior passagem de Centeno pela COFAP não resultou em “respostas satisfatórias que permitissem o esclarecimento cabal dos fundamentos subjacentes à opção adotada” e que não tinha sido disponibilizada a documentação necessária para a análise dos deputados.
Como os documentos, em regime de confidencialidade, só deram entrada em dezembro passado, os centristas alegaram que “mantêm-se, e até se adensam, as dúvidas que subsistiram após a audição realizada no dia 25 de setembro”.
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Efetivamente, Mário Centeno já foi ouvido no Parlamento em setembro de 2025 sobre este tema e assumiu, então, que “o valor final a Deus pertence”. Defendeu também que a opção de Entrecampos que foi excluída em 2022 consistia num projeto diferente do atual.
A revelação de alguns contornos menos claros em torno do projeto da futura sede do BdP levou o Governo a pedir à Inspeção-Geral das Finanças (IGF) a realização de uma auditoria sobre este tema. Também o Tribunal de Contas não excluiu uma possível auditoria, com a presidente do TdC, Filipa Calvão, a clarificar que um procedimento desse tipo está “no âmbito do mandato” da instituição.
Também na reunião desta quarta-feira da COFAP foi aprovada a audição de Álvaro Santos Pereira, com o requerimento do Chega a destacar que era necessário conhecer a posição da atual liderança do BdP sobre esta matéria e que o projeto continua a levantar dúvidas.
O contrato-promessa do negócio entre o BdP e a Fidelidade foi assumido em maio de 2025, no qual se assumiu o valor de 191,99 milhões de euros. Para trás ficavam outras opções de localização, como Avenida de Berna (uma opção que dependia da aquisição de vários terrenos a outras tantas entidades públicas), Restelo (um terreno que era propriedade do Ministério da Defesa Nacional) e Alto dos Moinhos (um terreno adquirido no mandato do ex-governador Carlos Costa por cerca de 40 milhões de euros em março de 2018).
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[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
