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(A) :: A rivalidade que se transporta para o futebol e começou numa amizade: portista Ordonhas e sportinguista Perloiro lutam pelo título no surf

A rivalidade que se transporta para o futebol e começou numa amizade: portista Ordonhas e sportinguista Perloiro lutam pelo título no surf

São amigos, competem regularmente no surf, torcem por clubes rivais, vão estar no Dragão. Ordonhas é o atual campeão e espera triunfo portista, Perloiro é atleta do Sporting e quer leões no Jamor.

Tiago Gama Alexandre
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À primeira vista, futebol e surf são desportos tão diferentes que pouco parecem ter em comum. Um tende a acontecer quando os termómetros sobem e as praias começam a ficar congestionadas, o outro percorre praticamente todo o ano, atravessando todas as estações, ainda que a sua prática seja pouco aconselhável quando o calor se faz sentir. Nessa toada, seria impensável haver uma ligação entre o clássico desta quarta-feira, entre FC Porto e Sporting, e a modalidade que teve o seu Campeonato a começar no início da abril. Mas é precisamente por esse jogo que passa a amizade e a rivalidade que unem Luís Perloiro e Francisco Ordonhas. Os dois competem na Liga de surf ao mais alto nível. O primeiro é sportinguista e atleta do Sporting, o segundo é portista de coração. Ambos vão assistir ao duelo lado a lado, no Estádio do Dragão, numa iniciativa promovida pela Associação Nacional de Surfistas (ANS), a entidade que organiza a Liga de surf.

https://observador.pt/especiais/esta-prestes-a-comecar-a-16a-edicao-da-liga-meo-surf/

A pouco mais de 24 horas de se enfrentarem no início do Porto Pro, a segunda etapa do campeonato, Perloiro e Ordonhas estiveram à conversa do Observador, onde começaram por antever o duelo desta quarta-feira. Tendo em conta as suas preferências clubísticas, os dois surfistas acreditam no apuramento dos seus clubes para a final da Taça de Portugal, com o portista a perspetivar um “2-0” e o sportinguista um “2-1″ favorável aos leões. “Estou confiante. O FC Porto anda a jogar muito bem, está numa boa fase, lidera o Campeonato. Sendo no Dragão, os adeptos vão puxar muito pela equipa e isso vai ajudar. Espero uma vitória na eliminatória e que seja, acima de tudo, uma boa experiência. Espero levar a energia do estádio para o campeonato [Porto Pro]”, começou por dizer Francisco Ordonhas.

Questionado sobre a diferença entre desportos tão distintos, como é o caso do futebol e do surf, o jovem de 20 anos acredita que um jogador de futebol sinta mais pressão porque “tem milhares de adeptos à sua volta”. “Uma final do surf também tem uma pressão muito grande. Não somos uma equipa, estamos numa final sozinhos e acho que isso pode ser mais complicado. A pressão dá mais motivação, mas por vezes pode ser complicado”, acrescentou. Por outro lado, se tivesse oportunidade, Ordonhas gostava de ter a oportunidade de surfar com Pepe, ex-jogador que “gostava muito de ver jogar, tanto no FC Porto como na Seleção”, por conta da sua “garra” e de “jogar muito bem”. Por fim, o surfista não tem dúvidas de que os dragões deveriam de investir na sua modalidade: “É um desporto que tem crescido imenso ultimamente e teria todo o gosto em que o FC Porto apostasse um bocadinho no surf. Acho que é uma boa aposta”.

https://twitter.com/SCPModalidades/status/1333035353150722053?s=20

Por seu turno, Luís Perloiro recordou que só começou a “ligar mais” ao futebol depois de ter assinado pelo Sporting, em 2020. “Desde aí, através de alguns convites para jogos, comecei a ver alguns jogos no estádio. Acabei por me tornar cada vez mais fã do futebol, que é um desporto que gosto muito de seguir. Benfica e FC Porto deviam entrar no surf. Era excelente para o desporto porque ia trazer mais atenção e mais dinheiro”, concordou com o colega de profissão. Quanto ao clássico, o surfista espera “um jogo renhido” e com as duas equipas a marcar. “Começar a minha estadia no Porto com um clássico destes vai-me deixar motivado para competir em nome do Sporting a partir de sexta-feira. Fico mais nervoso a ver outras pessoas a competir do que quando sou eu. Acho que, dessa forma, podemos equiparar os dois desportos: uma grande final no futebol traz a mesma sensação que uma grande final no surf”, afirmou Perloiro, antes de dizer que gostava de partilhar o mar com Trincão, que “até tem pinta de surfista”.

Ordonhas, a cara da nova geração do surf português

O ano de 2025 foi de grande sucesso para Francisco Ordonhas. Aos 20 anos, o jovem surfista fez história e venceu o Campeonato da modalidade, numa edição em que o amigo Luís Perloiro foi oitavo classificado. Curiosamente, os dois enfrentaram-se na final da primeira etapa, na Figueira da Foz, com a vitória a pender para o atleta dos leões. Já este ano, Ordonhas e Perloiro voltaram a medir forças na etapa inaugural, igualmente na Praia do Cabedelo, mas na segunda ronda. O campeão nacional seguiu em frente em direção à primeira vitória do ano, ao passo que o sportinguista caiu nessa fase.

Apesar de ter “grande parte” da sua família na cidade do Porto, o que o levou a desenvolver a sua paixão pelo FC Porto, Francisco Ordonhas vive no Estoril e é atleta do Quinta dos Lombos, um clube eclético de Carcavelos. “O surf é a minha vida e sonho viver do surf. Nos últimos anos tem estado a correr bem. A minha rotina diária gira à volta disso, treino no ginásio, na água, também me preparo psicologicamente e vou tentar evoluir ao máximo nos próximos tempos. Quero tentar atingir o meu sonho, que é chegar ao World Tour do surf [Championship Tour]. É um trabalho que adoro fazer, mas pode ser considerado um hobby. É um hobby que me tira muitas horas todos os dias e várias vezes ao dia. É um trabalho que adoro fazer, não me custa nada. Sou bastante focado e consciente do que sou capaz. Isso ajuda muito. O mais importante de tudo é gostar do que faço. Adoro surfar, sempre adorei e sempre sonhei um dia viver do surf. Conseguir treinar todos os dias, gostar do que faço e viver disso é um privilégio”, elucidou.

Para lá de ter sido campeão nacional, Ordonhas já se sagrou campeão da Europa de juniores (em 2024) na sua ainda curta carreira, o que o levou a participar no Mundial da categoria que decorreu nas Filipinas, em janeiro de 2025. “Levei esses títulos como um boost de confiança para o ano de 2025, que me correu muito bem. Deu-me muita confiança para entrar no último ano com tudo. Não devo ficar demasiado contente com as vitórias, mas também não devo ficar demasiado abalado com as derrotas. É saber ganhar e saber perder e manter a consistência. É um desporto difícil e que, na maioria das vezes, não depende de nós. O mar é completamente imprevisível e, por mais que treinemos psicologicamente e fisicamente no mar, a onda pode não vir e não somos capazes de fazer aquilo de que somos capazes. Há fases muito difíceis, como quando chegamos a um campeonato em que nos estamos a sentir bem e as coisas não correm bem porque uma onda não veio… é complicado, mas com a ajuda psicológica que tenho, sinto-me preparado para perder e para ganhar. Venha o que vier vou continuar a dar tudo”, contou ao Observador.

Perloiro, o surfista que congelou engenharia e é criador de conteúdos

Por sua vez, Luís Perloiro tem 27 anos e chegou ao surf com apenas seis anos, altura em que o pai o colocou “em cima de uma prancha”. “Comecei a competir aos 11 anos e progressivamente fui dando mais importância ao surf. Terminei o secundário em 2016 e decidi focar-me apenas no surf competitivo. Candidatei-me ao Instituto Superior Técnico, onde entrei em Engenharia Física e Tecnológica, mas acabei por congelar a matrícula. Compito no circuito internacional de qualificação da WSL [Qualifying Series]. Isso trouxe-me a oportunidade de viajar pelo mundo a competir, por exemplo no Hawai, Austrália, África do Sul ou Indonésia. Isto era financiado por marcas de surf e pelos meus pais, a quem agradeço até aos dias de hoje. Felizmente hoje consigo ser eu a pagar. Corro o Campeonato Nacional há vários anos. Puxa muito o nível em Portugal e tem bons prize money. Mais recentemente tenho-me focado na produção de conteúdos digitais para complementar a minha carreira de surfista profissional com conteúdos que atraiam pessoas que não estejam dentro do mundo do surf e desta forma poder mostrar ao mundo este desporto maravilhoso, pelo qual estou apaixonado há anos”, explicou.

“Quando fui campeão nacional de Sub-18, em 2015, percebi que podia seguir o caminho profissional do surf. As marcas começaram a investir financeiramente e quando vi que uma paixão estava a dar retorno financeiro, comecei a por em cima da mesa a possibilidade de viver desse sonho. Foi aí o início da minha carreira profissional. Sou um apaixonado pelo surf e por ondas boas. Quando as ondas estão mais complicadas nos campeonatos, costumo de dizer que é difícil ter motivação. Gosto mesmo muito de apanhar ondas de grande qualidade. Mais do que um surfista competidor, considero-me um surfista apaixonado por surfar ondas boas”, continuou. Apesar de levar mais de uma década a competir, a vitória de Perloiro na Figueira da Foz em 2025 foi a sua primeira na Liga portuguesa: “Teve um significado muito importante. Poder, aos 26 anos, ganhar a minha primeira etapa foi um orgulho, fiquei muito feliz. Tenho muita motivação de continuar a competir durante mais anos”.

https://www.youtube.com/watch?v=TIK9AAX6uC8

Por fim, o atleta do Sporting garantiu que só vai deixar o surf quando o corpo não o deixar competir. “O surf é um desporto que não é fácil, que é caro e que não tem muito dinheiro envolvido em Portugal. É um desporto muito pequenino quando comparado com o futebol. Já tive momentos em que pensei que não dava mais. Felizmente consegui criar novas formas de monetizar o surf e de continuar a viver o sonho. Neste momento também sou sócio de uma empresa de pranchas de surf, a Polen Surfboards. Imagino-me a ter um papel mais ativo nessa empresa e também acho que é possível ter longevidade a produzir conteúdos relacionados com surf. Há vários caminhos que vejo com positividade daqui para a frente”, sentenciou.