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Opinião e Manipulação

As sondagens como radiografia da opinião publica pareciam uma boa ideia; como condicionadoras de decisões prejudicam e prejudicam-se.

Bruno Bobone
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Acabo de ler uma sondagem que afirma que dois terços dos apoiantes da AD estão de acordo com as medidas promovidas pelo governo para fazer face às dificuldades da guerra entre os Estados Unidos, Israel e Irão.

Fui ver quantas pessoas tinham sido entrevistadas e percebi que tinham sido quinhentas.

Como é curioso que um punhado de pessoas nos permite determinar aquilo que pensa uma população de milhões, principalmente quando, ontem, tinha lido outros resultados da mesma sondagem, que dizia que a maioria discorda de Montenegro, mesmo os que votaram AD.

Aquilo que me deixa a duvidar mais destas conclusões, que dão excelentes títulos de jornais, é a compreensão de que as perguntas são feitas de modo a obter respostas simplificadas de concorda ou discorda, mas nunca consideram a interpretação feita pelo entrevistado sobre o alcance da pergunta e que o resultado depende da interpretação da resposta por parte de quem trabalha a informação.

Ora, se numa sondagem em que se pergunta apenas em que partido vai votar, existe uma enorme discrepância entre o seu resultado e a realidade dos votos, o que não se passará sobre estas sondagens que têm muito maiores alternativas na sua interpretação.

Eu compreendo o interesse de jornais, de empresas de sondagens e mesmo o interesse curioso do público em geral por ler estas informações, mas aquilo que me preocupa é compreender o peso que estas sondagens têm na resposta que os políticos tendem a dar quando postos perante esses resultados.

Como os resultados são publicados sempre através da comunicação social e como a eles, apenas os resultados “quentes” interessam, a manipulação da opinião pública torna-se evidente, a reacção dos políticos, seja governo, seja oposição, são condicionadas e a verdade da democracia vai sendo posta em causa, destruindo a qualidade de desempenho dos países.

Por outro lado, a percepção destes efeitos também leva a que tanto políticos como forças de interesses, tentem conseguir as sondagens com resultados que lhes sejam favoráveis, de modo a beneficiar as suas causas e a conseguir empurrar a opinião publica no sentido dos seus interesses, criando uma nova oportunidade de manipulação e de controlo da vida que se pretendia que fosse livre.

A ideia da sondagem como radiografia da opinião publica, parece ser uma boa ajuda à compreensão das preocupações de uma população e poderia ajudar a dirigir o esforço comum no sentido do maior benefício comum.

Ao contrário, a realidade mostra-nos que, seja pelo desajuste dos resultados obtidos, seja pela interpretação necessária entre entrevistados e técnicos, seja pela forma como se apresentam os resultados, as sondagens foram-se tornando mais numa condicionadora de decisões com todo o prejuízo que isso acarreta para a sociedade.

Todos procuramos saber aquilo que nos reserva o futuro e, nessa perspectiva, a sondagem deveria ser uma excelente ferramenta para o conseguir, mas se continuarmos a utilizá-las para título de jornal, para influência de interesses ou para condicionamento na decisão política, melhor seria rasgá-las e passar a navegar à vista.