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(A) :: A mão de Rui segurou a equipa que leva, leva, leva mais um bocado mas não cai (a crónica do FC Porto-Sporting)

A mão de Rui segurou a equipa que leva, leva, leva mais um bocado mas não cai (a crónica do FC Porto-Sporting)

Aquilo que começou por ser uma batalha tática tornou-se uma guerra física entre quem podia e quem queria mas não se conseguia. No fim, imperou quem verga mas não cai – e uma mão salvadora (0-0, 0-1).

Bruno Roseiro
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Não foi à mesma hora, também não andaria muito longe. Numa zona da cidade, mais concretamente junto ao Estádio do Dragão, um grupo de indivíduos alegadamente ligado a claques do Sporting vandalizou os muros com a inscrição das insígnias JL [Juventude Leonina] e SCP Ultras. Num outra zona da cidade, neste caso na Avenida da Boavista, muitos jogadores do Sporting acordaram a meia da noite com o rebentamento de muita pirotecnia nas imediações da unidade hoteleira onde pernoitaram antes do jogo – que não foi a mesma onde a comitiva verde e branca ficara antes do encontro do Campeonato, neste caso em Gaia. Apesar de não ser algo muito falado nos últimos dias no plano mediático, a panela de pressão em que se transformou qualquer clássico de qualquer modalidade tende em não esvaziar. Fora de campo estava assim, dentro de campo podia ou não ser assim consoante o jogo decorresse, com essa certeza de que era dia da primeira decisão.

Do lado do FC Porto, a última jornada do Campeonato acabou por tornar-se um balão de oxigénio extra para o grupo azul e branco, ciente de que tem outra margem para gerir até chegar ao título na sequência da vitória do Benfica no dérbi em Alvalade.  Não é por esse resultado, antes do triunfo na receção ao Tondela, que os comandados de Francesco Farioli vão fazer menos ou mais ou vão jogar melhor ou pior, mas a maneira de encarar cada “final” passou a ser outra – e que chegava também à segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal, último encontro dos portistas a meio da semana até ao final da temporada. Se um penálti de Luis Suárez no derradeiro minuto dos descontos adiou as jogadas decisivas pelo primeiro lugar no Campeonato, agora era o momento do xeque-mate para as duas equipas nesta espécie de final antecipada da Taça frente a Torreense ou Fafe. E com um dado importante: os dragões partiam com um golo de desvantagem.

“É a quarta vez que defrontamos o Sporting esta época mas não concordo totalmente com o facto de não existirem surpresas. Há sempre tempo para preparar as partidas de maneira diferente, veremos que tipo de estratégia cada uma das equipas usa. Contra um adversário forte, jogar em casa será um fator importante. Será um duelo gigante, não acredito que a energia do Sporting esteja em baixo. Tem de ser um grande jogo a nível mental e físico mas há muitos outros fatores envolvidos. Vamos precisar de muita atenção e desejo de colocar amor nos mais pequenos detalhes, bem como um espírito fortíssimo para termos a capacidade de correr aqueles cinco metros extra. Não podemos cair na armadilha de perder a cabeça desde o primeiro minuto. Com bola, é ter uma estrutura que mais conservadora, que nos permita ser mais pacientes. Se atacamos no momento errado, ficamos expostos a contra-ataques”, salientara Francesco Farioli.

Da parte do Sporting, ganhar ou pelo menos assegurar a passagem à final da Taça de Portugal era a diferença entre fechar a semana de todas as decisões com algo ou sem nada. Com sinais evidentes de um desgaste físico acumulado em alguns dos principais jogadores, com o sonho de fazer (mais) história na Liga dos Campeões a bater por duas vezes nos postes e com a corrida pelo Campeonato praticamente hipotecada num dérbi que podia ter caído para qualquer um dos lados entre penáltis falhados, bolas nos ferros e golos anulados, esta era quase uma tábua de salvação em paralelo com a possibilidade de segurar a segunda posição na Liga. Em parte, Rui Borges tinha razão quando dizia que não era uma partida que iria definir a época. Em parte, por mais cruel que pudesse parecer, era isso que podia acontecer – nem tantos pelos troféus ou metas atingidas mas pelo que ficava de aspetos que não correram tão bem, do mercado ao flagelo das várias lesões, passando pelo autêntico calcanhar de Aquiles em que se tinham transformado todos os jogos “grandes”.

“Espero um jogo muito competitivo e um FC Porto à sua imagem, uma equipa bastante intensa no primeiro momento de pressão, principalmente em casa. Em termos físicos são muito fortes nos encurtamentos do espaço, na pressão, nos duelos pelo chão e pelo ar. Culpados se o Sporting não ganhar títulos? Não vou em ‘ses’, estamos a competir. Não sou de ‘ses’, sou de trabalho. Sabemos o que tem sido o nosso trabalho. Todos, não só a equipa técnica ou os jogadores mas também a estrutura. Preparar uma gestão diferente? Um treinador tem de fazer muitos cenários mas há muitos, é difícil tomar decisões. Temos de pensar em muitos cenários mas vai sempre surgir outro, outro e outro. É perceber como os jogadores se sentem e haver muita comunicação, sempre com muita honestidade”, destacara Rui Borges, também na antevisão ao clássico.

Com mais ou menos presença da palavra, sobrava uma ideia: muito do que se podia passar em campo iria depender da capacidade de colocar o jogo num plano mais ou menos físico, com tudo o que FC Porto podia ganhar com isso e com tudo o que o Sporting perderia se não invertesse esse patamar. No entanto, imperou a versão de um leão com sete vidas que até nesse jogo que era tudo o que não lhe convinha conseguiu aguentar até ao final, saindo do Dragão com um nulo que valeu o acesso à final da Taça de Portugal frente ao vencedor do Torreense-Fafe. Foi quase como aquele pugilista que já não aguenta mais, perde rounds aos pontos, anda aos ziguezagues tentando não cair porque depois dificilmente se conseguiria levantar em dez segundos mas sabe que se chegar ao fim com aquele resultado cumpre um objetivo. Com mais baixas por lesão, entre um problema traumático e dois musculares, o Sporting imperou em tudo e acabou da melhor forma a semana mais complicada da temporada. Já o FC Porto, que só muito dificilmente deixará fugir o título, fica também um momento de reflexão: com todas as condições para “engolir” o adversário, pouco criou (e nada marcou).

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O ambiente estava verdadeiramente eletrizante no Dragão, com André Villas-Boas e restantes convidados na tribuna a olharem com orgulho para a enorme tarja levantada no topo sul que tinha João Pinto, Vítor Baía e Rui Jorge com a Taça de Portugal reportando à final da competição de 1994, que foi marcada por lamentáveis incidentes depois do triunfo dos azuis e brancos no prolongamento a envolver arremesso de pedras e garrafas aos jogadores quando subiam a escadaria no Jamor protegidos pela polícia para levantar o troféu. Contudo, o que sobrou nos minutos iniciais foi mesmo a tensão do momento e não tanto a qualidade que era pedida pelas bancadas. Houve uma entrada dura de William Gomes sobre Maxi Araújo sem cartão (5′), houve uma entrada dura de Gonçalo Inácio sobre William Gomes sem cartão (7′), houve a saída por lesão do central leonino depois de ter tentando ainda regressar ao campo, houve o cruzamento rasteiro venenoso de William Gomes a partir da direita para interceção de Rui Silva (11′), houve três amarelos do banco. Isso e só isso. 

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Até aí, dentro de um jogo com poucos de interesse, o FC Porto estava melhor. Porquê? A pressão alta que ia fazendo tinha resultados, com a primeira fase de saída do Sporting condicionada e com a tentativa de jogar mais direto em Luis Suárez a facilitar a tarefa dos defesas portistas. A partir daí, o controlo foi passando de uma forma paulatina para o Sporting. Porquê? Morita conseguiu pautar momentos, Francisco Trincão teve o tempo em posse para distribuir e poder orientar os corredores de ataque, os leões foram conseguindo ações ofensivas pensadas como gostam sem que os dragões ativassem gatilhos de pressão a não ser quando a falta de linha de passes obrigava a reconstruir a partir de trás. Ainda houve um lance em que Gabri Veiga ganhou o espaço entre linhas atrás dos médios leoninos, rodou mas definiu mal, outra jogada em que Pablo Rosario cortou um passe de Morita com a mão que deixaria Geny Catamo em boa posição mas pouco mais.

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Só mesmo nos minutos finais houve alguma coisa realmente interessante para contar, entre uma expulsão no banco do FC Porto de Lucho González e uma paragem pelas muitas cartolinas que estavam a ser atiradas ao banco do Sporting (uma delas serviria até para Pedro Gonçalves estar a dar toques no aquecimento). Oskar Pietuszewski teve um passe em arco que saiu demasiado largo quando podia isolar William Gomes, Francisco Trincão também não conseguiu receber um passe picado de Geny Catamo e teve de ser o rasgo individual a desbloquear a partida, com uma grande jogada de Pietuszewski a culminar com o remate na área de Gabri Veiga contra Debast no lance de maior perigo na primeira parte (42′). Pablo Rosario também teve uma meia distância que saiu por cima nos descontos e o intervalo chegou de novo com o FC Porto melhor apesar do nulo antes de novas investidas de protestos contra Miguel Nogueira… apanhadas pela bodycam.

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O segundo tempo começou sem alterações mas seria um fumo com “fogo”: enquanto o vento ia trazendo uma nuvem para a zona de relvado após um espectáculo de pirotecnia na zona dos Super Dragões que o próprio Farioli pedia para que fosse terminado, Hjulmand caiu no relvado dando mostras de um problema muscular e acabaria mesmo por dar lugar a Daniel Bragança. O FC Porto continuava amarrado no colete de forças que era desenhado pela defesa zonal desenhada pelos leões a partir do ataque, o Sporting continuava amarrado a um jogo que não encontrava as habituais viragens rápidas de centro de jogo entre corredores e só mesmo a primeira substituição dos dragões, com a troca de Thiago Silva por Alan Varela a desbloquear o médio dominicano na primeira fase de construção sem “sombras” para a melhor fase da equipa da casa, com remates ao lado de Alan Varela entre uma boa entrada de Froholdt que ficou nas mãos de Rui Silva (63′).

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Apesar desse crescimento, Farioli percebia que era preciso mais e, após mudar o figurino na saída a construir a partir de trás, trocou peças por peças na frente com as apostas em Rodrigo Mora, Pepê e Moffi (Fofana iria uns minutos depois também a jogo) antes de, na sequência das queixas musculares agora de Maxi Araújo, Rui Borges ter também de fazer três mexidas por ser o último momento de trocas para lançar Mangas, Pedro Gonçalves e o regressado Luis Guilherme. A dimensão física do FC Porto estava no máximo, a força física do Sporting entrava nos limites e o jogo passava de forma assumida a ter apenas um sentido, algo que nem a expulsão com vermelho direto de Alan Varela após uma entrada duríssima sobre Luis Suárez inverteu. No entanto, e já com Bednarek na frente, a oportunidade mais flagrante até aí surgiria no segundo minuto de descontos, com Suárez a isolar Luis Guilherme para grande defesa de Diogo Costa. Os dragões davam tudo, o momento do jogo estava a chegar: na sequência de um canto, Rui Silva teve uma defesa fantástica a um desvio de cabeça de Moffi, Morita fez o corte e Froholdt atirou de cabeça por cima (90+9′).

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