Popular na televisão, na rádio, em podcast e nos jornais, faltava-lhe enfrentar multidões de milhares, sozinho com piadas escritas em casa. Não quis fazê-lo com derivas pessoais, reflexões íntimas e partilhas privadas. Nada disso, os sentimentalismos não entram. E, apesar de autoproclamada “pessoa analógica”, Ricardo Araújo Pereira teve o prazer de já se ter cruzado várias vezes com os pop-ups irritantes que alegam estar “Verificando Se Você é Humano”. Deu esse nome ao espetáculo, mas promete muito mais do que uma reflexão chata sobre as vicissitudes do online e outras cromices do género — que chegou a parodiar no sketch dos Gato Fedorento, “Tsunami de Informáticos”.
A proposta é mais filosófica: um monólogo sobre o que significa estar vivo agora, num mundo em que, apesar do à vontade crónico e predisposição para o ridículo que já lhe conhecemos, o humorista nem sempre encontra conforto. A fórmula para lidar com o inconveniente é rir, desarmá-lo com piadas e “bombas linguísticas” sofisticadas.
Numa conversa com o Observador que abundou em referências mitológicas e metáforas bélicas, foi incapaz de esconder a apreensão diante do próximo desafio. Este espetáculo de stand-up a solo leva-o às maiores salas do país: a Super Bock Arena — Pavilhão Rosa Mota e a MEO Arena, no Porto (o primeiro na noite desta sexta-feira, dia 24) e em Lisboa, respetivamente, com passagem pelos Açores e pela Madeira — e mais locais em Portugal e no estrangeiro, com datas ainda por anunciar. “Tinha de acontecer algum dia”, admite, sem recusar a antecipação dolorosa. Assoberbado pelos trabalhos habituais, enfrenta um desafio particularmente difícil — mas já desembainhou a espada, porque, na comédia ao vivo, quem não mata, morre.
Estreia o espetáculo de stand-up a solo na sexta-feira. Vai interromper os outros projetos em que participa?
Não tive o discernimento da Joana Marques, de concluir que é impossível ir em tournée enquanto estou a fazer 50 outras coisas. Por isso, na sexta-feira vou fazer o Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer e sigo para o Porto, onde tenho dois espetáculos, para na manhã de domingo voltar a Lisboa e gravar o Isto É Gozar Com Quem Trabalha. É uma estupidez, uma coisa tão estúpida. Ao mesmo tempo, estou a escrever na Folha de São Paulo. Ao menos, meti três semanas de férias no Expresso, foi a única coisa que fiz.
Anunciou o espetáculo um mês depois de a Joana Marques revelar que iria fazer o Em Sede Própria. Foi coincidência? Sentiu-se ameaçado?
Foi exatamente isso! A Joana anunciou o dela e eu pensei: “O quê?!” Não, na verdade ter decidido avançar com o espetáculo tem a ver com a minha personalidade, que funciona da seguinte maneira: sempre achei que era giro fazer uma coisa destas um dia [stand-up comedy] e andava com essa disposição. Então, percebi que, sendo como sou, ou marcava uma data ou nunca ia acontecer.
Ou seja, não havia nada planeado de avanço?
Havia, mas só foi anunciado nessa altura. Acho que foi no verão que combinei com… tenho pudor de dizer agente, prefiro identificá-la como a minha amiga que me trata de tudo e que faz a produção do programa e desta coisa da tournée. Tínhamos decidido fazer isto, porque algum dia tinha de ser… Mas não me lembrava de que tinha sido anunciado um mês depois de a Joana anunciar o dela.
Sensivelmente um mês, um pouco mais.
Podia ter acontecido, mudar a data por causa da comunicação da Joana. Mas não, e lembro-me disso porque as primeiras datas a abrir foram na MEO Arena e estava na expectativa de saber se, de facto, as pessoas iriam encher um pavilhão daquele tamanho para me ouvir dizer coisas — e se era possível que quisessem fazê-lo mais do que uma vez.
Planeia fazer mais espetáculos, além daqueles que já estão agendados?
Para já, há dois espetáculos previstos para o Porto, outros dois em Lisboa e, em junho, vou andar pelas ilhas. O plano agora é fazer isto durante muito tempo, tenho bastantes datas marcadas. Acho que vou fazer ali uma pausa entre julho e agosto, mas depois é prolongar isso. Vou ao estrangeiro também.
Tendo em conta que tem razoável exposição mediática e que o público acaba por conhecer a sua posição a respeito de vários assuntos, o que é que, com vários espetáculos de stand-up à porta, ainda tem para dizer?
É uma boa pergunta. Sabe que, apesar de tudo, isto é outra coisa…
É um formato diferente.
Sim. No Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer, falamos sobre o que aconteceu durante a semana num determinado tom. O stand-up é mais sobre o facto de eu não ser muito bom a viver, basicamente. É mais sobre o mundo ser um sítio um bocado desconfortável para mim — e não costumo ter tempo para fazer considerações deste tipo no Programa.
Nesse caso, não pretende discutir a atualidade propriamente dita, é uma coisa mais pessoal e introspetiva?
Hesitaria em dizer “introspetivo”, porque não estou interessado em fazer revelações acerca de mim próprio. Digamos que não é uma coisa emocional. Tenho bastante horror ao sentimentalismo e, às vezes, quando as pessoas dizem que uma coisa é introspetiva, referem-se ao facto de ter um tom mais sentimental — que não é de todo aquilo em que estou interessado. Mas, em todo o caso, é diferente do Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer e do Isto É Gozar Com Quem Trabalha.
O espetáculo chama-se Verificando Se Você É Humano, que é um título sugestivo de um ambiente digital que todos conhecemos.
Sempre achei graça a essa frase que às vezes aparece nos sites. É uma coisa divertida, que realmente faz com que uma pessoa pense no que é que “ser humano” significa, como é que se faz essa verificação e quem é que está habilitado a fazê-lo. Acho isso engraçado, sobretudo vindo da internet, que é um sítio onde já presenciei algumas das coisas mais desumanas. É interessante ser esse o meio que está a fazer força para verificar se sou humano. E, pessoalmente, tenho dificuldade em fazê-lo.
A única descrição disponível do espetáculo diz apenas que se trata do “Espetáculo de stand-up de Ricardo Araújo Pereira”. Portanto, à parte o título e o cartaz do evento, não existe muita informação sobre aquilo de que trata. Mas, segundo entendo, não é, de todo, uma reflexão sobre a tecnologia — o título não remete apenas para o ambiente digital mas também para uma reflexão mais vasta sobre a existência?
Se quiser, é um espetáculo sobre o que é estar vivo agora. É a melhor definição. É isso que me inquieta, que inquieta toda a gente. Todos nós, a certa altura, falamos e pensamos sobre isso e, nos tempos que correm, a tecnologia assume um papel muito importante, mesmo para uma pessoa bastante analógica, como eu. Sou ostensivo nesse esforço, coisas como apreciar máquinas de escrever, caneta, papel e tal. Mas, mesmo não tendo redes sociais, as novas tecnologias existem, no sentido em que existem para as pessoas que estão ao meu lado. Condicionam a vida dos outros e a minha também.
E o programa que faz na televisão, com público ao vivo, o Isto É Gozar Com Quem Trabalha, é uma ajuda para subir ao palco? Ou não existe nenhuma situação que lhe permite preparar-se para estas salas?
É uma ótima pergunta, porque, de facto, aquilo é incomparável. Não apenas a MEO Arena, mas qualquer arena. E, portanto, a questão é a seguinte: como é que se chega lá? Como é que se chega lá com determinado tipo de material? Se eu for a um comedy club numa quinta-feira à noite, vou atuar à frente de umas dezenas de pessoas, ou menos — isso condiciona muito a minha experiência. A experiência de atuar num comedy club e de atuar numa arena é drasticamente diferente. Há um tipo de estrutura que resulta num lado e que não resulta no outro, e vice-versa. E, portanto, deparei-me com um problema, que resolvi da maneira que pude: com a plateia de 100 pessoas que tenho à minha frente todos os domingos. Não é muito grande, mas é uma plateia. E, aí, eu pude pôr o pé na água. Do mesmo modo — e faz parte da vida de uma pessoa que tem a minha profissão —, às vezes, sou contratado para atuar em festas de empresas. E essas festas de empresas normalmente decorrem em arenas, porque são os 150 anos de um banco ou outra coisa qualquer… Aí, é possível encontrar um ambiente que, não sendo igual — como dizíamos no início, é incomparável — é, apesar de tudo, mais parecido. Falar no Campo Pequeno para cinco mil funcionários de uma seguradora aproxima-se mais da MEO Arena do que um comedy club com 15 pessoas. Foi assim que fui apalpando terreno.

Não costuma ir a comedy clubs? Testar material quando se tem a sua exposição mediática é uma dificuldade?
Sim, por isso é que fui recorrendo ao público do programa, com uma exceção: quando o meu amigo Guilherme Fonseca me deixou abrir a primeira parte de um espetáculo dele numa terra chamada Cem Soldos [ao pé de Tomar, no distrito de Santarém]. Acho que foi na sexta-feira [17 de abril]. Foi divertido, mas, no fim, mandei-lhe uma mensagem a dizer: “Obrigado, Guilherme, foi horrível e muito giro”. Acho que quando se faz stand-up é sempre isso que acontece, é horrível e muito giro.
O público do Cem Soldos deve ser bastante diferente daquele que se encontra, por exemplo, em Lisboa.
Aquilo que disse há pouco sobre um espaço ser incomparável a outro tem mais a ver com o recinto e com o ambiente do que com o público. Tenho duas regras: primeiro, não fazer distinção entre públicos. Segundo, não pensar que o público é menos inteligente do que eu — não tenho muitas razões para acreditar nisso. Há muito aquela tentação de, quando um espetáculo corre mal, dizer que o público não era bom. Não, não — o público é uma sorte. Ter público à minha frente é excelente, portanto a culpa é minha. Se corre bem também é minha. O público de Cem Soldos, acho, é igual a qualquer outro. Pode haver plateias que são mais calorosas, mais expansivas, não há dúvida, mas isso faz parte do nosso trabalho. É por isso que, quando vou apresentar o programa [na SIC], não me sento e digo “Olá, boa noite. Bem-vindos”. Vou uns quantos minutos antes, porque quero falar com aquelas pessoas que ali estão e fazer com que a sala fique um bocadinho mais quente do que ficaria se chegasse à hora e dissesse: “Olá, obrigado por terem vindo, podemos começar — três, dois, um”.
É fã de stand-up comedy, costuma assistir a espetáculos?
Gosto de stand-up, vejo o máximo que posso. Às vezes ouço dizer, de humoristas: “Eu não vejo”. Imagine-se um músico que diz “eu não ouço música” ou um escritor que diz que não lê — acho que estamos perante um imbecil. Mas, às vezes, as pessoas afirmam “não, não vejo comédia, até para não me influenciar”. É a mesma coisa do que um escritor dizer que é melhor não ler o Dom Quixote ou Os Irmãos Karamazov. “Aquilo ainda me vai influenciar, por isso vou partir para a escrita sem saber o que é que os outros fizeram antes de mim.” É uma coisa absurda. Por isso, sim, tenho todo o interesse e vejo o máximo que posso. E devo dizer que há várias maneiras de fazer stand-up comedy.
Tem referências?
Por exemplo, a gente olha para o Robin Williams, que tem uma determinada energia no palco, e olha para o Steven Wright, que tem outra, e não pode dizer que um é melhor do que o outro. São duas maneiras de fazer uma coisa — e ambas eficazes, essa é a única coisa que conta. E, dito isso, tenho a impressão de que as pessoas de quem gosto mais não se distinguem tanto pelo estilo, mas talvez pela substância. Às vezes há pessoas que têm muita graça, mas estão a falar sobre temas nos quais não tenho interesse nenhum. Prefiro quando me lembro do que vi, ou seja, quando saio de um espetáculo e penso: “Este tipo fez-me rir porque olhou para uma coisa pela qual eu passo todos os dias, ou na qual eu já pensei muitas vezes, e mostrou-me que ela não é exatamente o que estava à espera, ou exibiu sobre ela uma perspetiva que nunca me tinha ocorrido”.
Isso significa que, no fim do dia, dá mais valor, ou tem tendência a recordar mais, o conteúdo abordado por um humorista, em detrimento da sua forma ou estilo?
Sim, mas mesmo em relação a isso há duas coisas importantes a considerar. Primeiro, que a forma também é conteúdo. Ou seja, é diferente se disser uma coisa num tom ou noutro, aquilo a que se chama a “entrega”. Outra coisa é a “pose”, e a pose não me interessa nada. Interessa-me para criticar, no sentido em que a pose é uma coisa falsa. Há pessoas que dizem “bom, mas a ausência de pose também é uma pose”. Não, isso não é verdade, da mesma maneira que “tomar café sem açúcar também é um açúcar” é uma afirmação errada. Podemos dizer que uma estética minimalista é uma estética, sem dúvida. A pose é outra coisa bastante diferente. E não, eu não tenho pose. Isso costuma contaminar o discurso, que, no meu caso, faço como se fosse um trabalho. Gosto dessa perspetiva, de ser um trabalho. Não sei se me faço entender, mas não me refiro a mim próprio como um artista — e não tenho nada contra artistas. O que acontece é que, na qualidade do humorista, rejeito a pompa e a solenidade, a tal pose. Acho que essa conversa do artista resvala sempre para a noção de artista incompreendido e atormentado, que foi tocado por uma graça divina… A mim nenhuma graça me tocou, isto sou só eu: sozinho, desesperado, a tentar escrever coisas a que os outros achem graça. Sempre foi assim e acho que é assim que vai continuar a ser.
Ou seja, só vai fazer este espetáculo porque é trabalho? Fazer stand-up é uma obrigação laboral?
Está a usar a palavra trabalho como se não contivesse nada de prazeroso ou daquilo em que se está investido e se gosta de fazer. Mas há várias razões pelas quais vou chegar à MEO Arena e falar para não sei quantas pessoas que cabem lá dentro, 14 mil, parece. Algumas razões não são muito bonitas. Mas uma das mais honrosas é o facto de ser o meu trabalho: estar em casa — que é a parte que prefiro, aliás — a armadilhar uma bomba linguística e depois perceber com que potência explode. Congeminar um brinquedo linguístico que produz um barulho no fim. Isso é o trabalho que eu adoro e não o sinto como uma obrigação. Mas há outras razões, se calhar a vaidade é uma delas. Isto até é material interessante para um psicanalista: o facto de eu precisar da solidão de um palco e de um grupo bastante alargado de desconhecidos que produzem barulhos que aos meus ouvidos se confundem muito com o amor. É possível que isso diga qualquer coisa sobre mim e sobre toda a gente que tem isto, não é? Outro aspeto sedutor do stand-up é o frisson que causa compor um texto e apresentá-lo perante uma plateia de pessoas que me mostram instantaneamente o que acharam daquilo que escrevi e lhes disse. E é um desafio, que durante muito tempo não fiz ou não fiz com tanta frequência e visibilidade. Queria ver se tornava isto num hábito mais frequente. Acho que já está na altura, não é? Qualquer dia morro.
A morte está sempre ao virar da esquina, dizem.
Quero dizer, já tive mais cabelo. Como sabe, os sinais de degradação do meu corpo já são bastante evidentes.
Está nervoso? O texto está ao seu gosto ou está a pensar que só faltam três dias e ainda não está como quer?
“Não faças isto”, “Não está como eu queria”… penso sempre nisso antes de um espetáculo e depois de acontecer, para todo o sempre. Se estou nervoso? Sim, e acho que nem sequer tinha graça se estivesse calmíssimo. Se não tivesse pânico, era como entrar numa montanha russa muito calmo. Não sei se é a mesma experiência, não é? O nervosismo faz parte e é uma espécie de espora cravada no lombo que faz com que o cavalo ande. Enfim, também não nego que depois de aquilo começar, quando estamos lá, de repente acontece qualquer coisa, fica-se — e não quero parecer místico — num estado de alerta que é interessante. O espetáculo é uma luta entre mim e um bicho que tem 14 mil cabeças, um bicho assustador. Isso nota-se no vocabulário que os americanos usam para descrever a comédia: se a noite corre bem, dizem “I killed”, ou seja, “Matei”. Se correu mal, “I bombed” [“explodi”]. No stand-up, a gente morre ou a gente mata. Mas a gente também dança. Há ali uma respiração difícil de definir, uma respiração da plateia enquanto organismo único que é preciso respeitar, uma cadência na qual é preciso entrar. Nem sempre é fácil fazer isso e não vale a pena pensar em todos estes aspetos ao mesmo tempo, se não não se consegue fazer nada.
Como os desportistas de alta competição, talvez.
Sim, é isso, acho que tem a ver com a adrenalina. Pratico kickboxing e quando vejo vídeos penso que estou a apanhar de uma maneira impressionante. É a parte de que gosto mais no desporto: apanhar. Noutras circunstâncias, ia custar-me muito, mas a adrenalina de estar ali não me permite sentir que está um homem adulto a tentar matar-me.
É uma sensação de poder, também?
Isso não diria, nunca aconteceu, mas acho que a adrenalina é uma substância realmente excelente e ajuda. Quando acaba, nem me lembro bem daquilo que aconteceu.
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
