[este artigo foi originalmente publicado em setembro de 2017 e atualizado a 22 de abril de 2026, a propósito do anúncio da estreia de Jerry Seinfeld nos palcos portugueses]
Passaram 28 anos desde aquele último episódio que, a 14 de maio de 1998, colou 76,3 milhões de norte-americanos à televisão — um recorde ultrapassado por muito poucas séries. E enquanto houver quem se lembre de Kramer quando o chuveiro perde a pressão e o cabelo fica lambido; quem encomende sempre o almoço com jeitinho, não vá o empregado armar-se em “nazi das sopas” e dizer que não há comida; e quem diga àquela amiga com uns moves estranhos na pista que está a dançar à Elaine (“Sweet fancy moses!“); é como se Seinfeld tivesse acabado há apenas 28 minutos. Ou 28 dias, vá.
Apesar de já andar no circuito da comédia desde os anos 70, podemos situar uma data concreta em que Jerry Seinfeld começou a construir a sua lenda: 5 de julho de 1989, quando o episódio piloto da série com o seu nome foi emitido pela NBC, prolongando-se ao longo de nove temporadas e 180 episódios, revolucionando a televisão e o humor em todo o mundo pelo caminho.
É, portanto, ao fim de 37 anos desde a estreia de Seinfeld que o seu protagonista aterra em Portugal para a sua primeira atuação de sempre no nosso país, no festival Meo Commedia a la Carte, a 1 de novembro. Recordamos então o seu percurso feito de mais sucessos que tropeções, sem esquecer algumas das polémicas recentes que protagonizou.
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O miúdo que nem queria ser humorista, apenas ter “uma vida mais interessante”
Quando saiu de casa dos pais e se mudou para a Universidade de Queens, em Nova Iorque, para seguir teatro e comunicação, achava que talvez pudesse vir a ser colunista de uma revista de carros. Em vez disso, acabou a colecioná-los, com uma propensão especial para os Porsches — chegou a ter 46, mas entretanto leiloou alguns (ao todo desfez-se de 17, sobretudo Porsche e Volkswagen, por pouco mais de 22 milhões de dólares) e as contas tornaram-se mais difíceis de fazer.
Claro que não foi logo que chegou ao topo. Aliás, de um ponto ao outro ainda demorou um bom bocado. Demasiado, na sua opinião de pós-adolescente, que começou a atuar em clubes de comédia em 1976, depois de sair da universidade, e “só” chegou à televisão em 1981, aos 29 anos: “Na altura pensava, ‘Ando a fazer isto há anos! Por que raio não estou ainda na televisão?!’ Era tão estúpido, quando és novo és tão burro… Quatro anos em comédia são o mesmo do que a primeira semana num trabalho novo. No final da semana já sabes fazer o trabalho, mas ainda não és bom nele”, admitiria em 2016 ao Hollywood Reporter.
Empregado de mesa e humorista
Na universidade, Jerry Seinfeld enturmou-se com um grupo de nova-iorquinos fanáticos por stand-up comedy (como qualquer nova-iorquino que se preze, garante o próprio) e começou, com eles, a fazer o percurso dos clubes. Até assentarem no Catch a Rising Star, aberto desde dezembro de 1972 no Upper East Side, correram todos os clubes de comédia de Manhattan e arredores. A ver, sempre só a ver: “Tinha o sonho secreto de fazer aquilo, mas nunca iria assumi-lo. Depois um dia um dos meus amigos disse-me, ‘Sabes, acho que, de todos nós, provavelmente tu serias o único que era capaz de conseguir se tentasse’. Acho que estava à espera de ouvir aquilo desde sempre, passei a infância inteira a querer ouvir aquilo. Assim que soube que alguém achava que eu realmente seria capaz, todas as peças se juntaram”, contou na mesma entrevista.
Daí até estar a atuar no The Tonight Show, de Johnny Carson — “a única coisa que poderia legitimar alguém como verdadeiro comediante naquela altura” — passaria meia dúzia de anos, com uma tese de licenciatura sobre stand-up comedy (a valer 12 créditos) e muitos empregos horríveis pelo meio. A sua experiência inaugural no talkshow em maio de 1981 impressionou tanto Carson quanto o público, o que levou a novos convites: para voltar ao programa da NBC e para outros projetos, como o primeiro especial que gravou a solo, Stand-Up Confidential, para a HBO, em 1987. A preparação para essa primeira experiência incluiu treinar o set de cinco minutos 200 vezes e correr em Manhattan a ouvir o tema do Superhomem para motivar-se.
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“Foi consciente. Teres um precipício atrás das costas é a melhor maneira que há para se conseguir alcançar alguma coisa. Nunca se deve ter um sítio para o qual cair”, explicou em 1991 à Entertainment Weekly. De dia, Jerry Seinfeld vendia joias contrafeitas nos passeios de Nova Iorque, impingia lâmpadas pelo telefone ou servia às mesas — e tudo isso lhe dava mais força para, durante a noite, fazer rir nos clubes de comédia da cidade.
Quando começou a fazer stand-up, primeiro no Catch a Rising Star, depois no Comic Strip, mais ou menos na mesma zona, umas ruas mais acima, tinha apenas 22 anos mas já era um tipo conservador. Não subia ao palco de fato Armani como agora, mas vestia-se com sobriedade e, sobretudo, atuava com sobriedade: nada de asneiras, nada de sexo, nada de política. Porquê, perguntou-lhe o jornalista do Hollywood Reporter durante a entrevista supracitada. “É assim que sou. É a mesma coisa que perguntares a alguém porque é que a sua personalidade é como é”, respondeu Seinfeld, internacionalmente conhecido e aclamado pelo seu “humor observacional sobre pequenas coisas”. Não confundir, por favor, com a definição chapa 5 habitualmente usada para descrever a série homónima.
[A primeira vez de Seinfeld na televisão nacional americana:]
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Garante o próprio, Seinfeld nunca foi suposto ser uma “série sobre nada”: “Isso é um disparate. Foi inventado pela imprensa. O programa era um instantâneo do que era ser um humorista em Nova Iorque antes da viragem do século”. “Jerry”, o programa de comédia que o Jerry Seinfeld ficcional fazia dentro da série Seinfeld, explicou o humorista em entrevista, é que foi descrito assim.
O programa que afinal nunca foi “sobre nada”
Foi já nos tempos em que fazia aparições regulares no programa de Johnny Carson mas ainda antes de se mudar para Los Angeles, para ver se arranjava mais trabalho televisionável, que Jerry Seinfeld conheceu Larry David. Ambos faziam o mesmo circuito dos clubes de comédia, ambos tinham o mesmo tipo de humor peculiar e eram capazes de estar durante horas a fazer piadas sobre aquilo que os rodeava. Ficaram amigos. Quando, anos mais tarde, o agente de Seinfeld tomou a liberdade de enviar uma carta ao presidente da NBC, pedindo uma reunião para apresentar a ideia que o humorista tinha para uma série em nome próprio, foi a David que Jerry recorreu — porque, na verdade, não existia ainda qualquer ideia.
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Encontraram-se em frente ao Catch a Rising Star, num deli coreano, encomendaram comida e fizeram o mesmo de sempre: piadas sobre tudo e todos. O momento eureka terá partido de Larry David: “De repente ele disse-me, ‘Devias fazer um programa tipo isto’. E eu disse-lhe, ‘Olha, isso era giro. Vamos fazer um programa estilo isto. Dois comediantes. Nada para fazer. Entrar e sair de sítios em Nova Iorque. Falar sobre cenas.’ E foi isso”, contaria Jerry Seinfeld, anos mais tarde.
Antes de Seinfeld, o humorista já tinha tido uma experiência na televisão, mas não na NBC. Apesar de ter colaborado com o The Tonight Show durante nove anos, nunca recebeu qualquer convite da estação para participar noutro tipo de projetos, garantiu várias vezes em entrevistas — “Nunca tiveram interesse nenhum em fazer nada comigo. Nunca me ligaram. Nunca!”.
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Foi na ABC que conseguiu um papel, na série Benson, protagonizada por Robert Guillaume entre 1979 e 1986. Correu tão bem que foi despedido ao fim de apenas três episódios: “Ninguém se preocupou sequer em avisar-me de que tinha sido despedido. Um dia apareci, sentei-me à mesa e perguntei pelo meu guião, como de costume. Chamaram-me à parte: ‘Já não estás na série’. Tive uma reação psicológica muito violenta ao facto de o meu destino ser controlado por outra pessoa qualquer, isso incomodou-me profundamente, pessoas a decidir o meu futuro. Resolvi que nunca iria voltar a passar pelo mesmo”, revelou anos mais tarde.
Não voltou a passar. Jerry Seinfeld tratou então de fazer a sua própria série, com o seu próprio nome, e de ter sucesso com ela — não com dois personagens, como inicialmente pensara com Larry David, mas com quatro. Ao lado de Julia Louis-Dreyfus, Jason Alexander e Michael Richards — os eternos Elaine, George e Kramer — escreveu, produziu e protagonizou um dos programas mais vistos de sempre em todo o mundo e que arrecadou 10 Emmy e três Globos de Ouro, como série e para alguns dos seus intérpretes.
Ao longo dos nove anos de Seinfeld (ou dos últimos cinco, vá), Jerry e companhia tocaram no céu. Só na Rolling Stone foram por três vezes capa, o grupo todo em duas ocasiões — uma mascarados à la Feiticeiro de Oz, outra numa perturbadora produção cheia de cabedal preto e camisolas de rede –; o “Rei da Comédia em Horário Nobre” sozinho e vestido à Elvis noutra, de setembro de 1994.
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Paradoxalmente, foi graças a esse mesmo sucesso que Jerry Seinfeld, já a solo (Larry David abandonou a produção do programa após a sétima temporada, para apenas voltar no controverso último episódio da nona), resolveu, em 1998, que estava na hora de acabar. “Era muita pressão. Provavelmente, se o programa não se tivesse tornado tão popular, teria feito mais umas quantas temporadas. Não o fiz porque senti a responsabilidade de não defraudar o público no final”, revelou.
Desde aí têm-se sucedido constantes rumores quanto a um eventual regresso de Seinfeld — alguns deles alimentados pelo próprio humorista — mas o mais próximo a que o público teve direito foi uma espécie de reunião do elenco num exercício meta-ficcional na sétima temporada de Curb Your Enthusiasm, a série que Larry David viria a conceber e protagonizar depois do projeto com Jerry. Num episódio apropriadamente intitulado “Seinfeld”, os atores da série original são convidados a gravar um reencontro encarnando versões ficcionalizadas deles próprios — uma espécie de reunião que não o foi, mas foi.
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Talvez nunca venha a haver um regresso de Seinfeld, mas o interesse do público permanece o mesmo. Depois da plataforma de streaming Hulu ter pago 160 milhões de dólares para manter os direitos de exibir os seus 180 episódios entre 2015 e 2021, a Netflix subiu a parada e desembolsou 500 milhões de dólares para ter o exclusivo mundial da série até, pelo menos, o final deste ano. A maquia é elevada, mas parece estar a compensar: por exemplo, a empresa de estudos de mercado YouGov coloca consistentemente Seinfeld no top 10 de séries mais vistas no streaming nos EUA em 2026.
Como resultado da popularidade duradoura da série, a Bloomberg noticiou em 2024 que Jerry Seinfeld tornara-se oficialmente um bilionário, com uma larga fatia da sua riqueza a provir dos acordos de distribuição da série que produziu e protagonizou. Realisticamente, podia ter feito entrado numa reforma se quisesse apenas viver dos dividendos que Seinfeld lhe tem vindo a render desde 1998. No entanto, como o próprio diria à Harvard Business Review, apesar do sucesso televisivo, encarou a série como “um grande desvio”, já que nunca se viu “como nada mais do que um comediante de stand-up profissional”. “Eu sabia que essa iria ser a minha vida”, garante.
Solidão e precisão
“Jerry Seinfeld Intends to Die Standing Up”. Foi com este título inspirado que o The New York Times batizou um perfil sobre o comediante em 2012, que à letra se traduz como “Jerry Seinfeld pretende morrer de pé”, mas que é um trocadilho sobre fazer stand-up comedy. “Planeio fazê-lo até para lá dos meus 80 anos”, revelou. Estreando-se em Portugal com 71, não assim tão longe de cumprir essa promessa.
Após o final da série, Seinfeld ainda passou algum tempo a gozar a fama e a fortuna, mas dizendo-se inspirado por Chris Rock, resolveu regressar ao stand-up. Decidiu assim trocar uma eventual carreira em Hollywood, pelos clubes de comédia de Nova Iorque, retomando o circuito onde começou, além de iniciar também digressões nacionais. Nesta fase, no final dos anos 90, conheceu Jessica Sklar, 17 anos mais nova, com quem casou e teve três filhos — Sascha, 25 anos, Julian, 23, e Shepherd, 20.
Nessa conversa com o jornal nova-iorquino, o humorista explica que o que o impele a fazer stand-up não é o seu cariz (muito) lucrativo, mas “uma quase monomania — uma inquietação criativa que não consegue saciar”. Comparando-o à arte da caligrafia ou de construir minuciosas jaulas para grilos, Seinfeld explica que as suas piadas, parecendo meras observações instantâneas, resultam de muito tempo, às vezes anos, e trabalho de depuração. “Para mim é isso: solidão e precisão, aperfeiçoar uma pequena coisa pelo simples prazer de o fazer”, adiantou. De resto, isso está bem plasmado no livro Isto Tem Piada?, editado em Portugal em 2020, onde descreve esse processo e reúne as suas notas ao longo de 45 anos.
https://observador.pt/2020/10/07/seinfeld-escreveu-um-manual-de-humor-mas-isto-tem-piada/
No entanto, apesar de privilegiar a comédia ao vivo, não é que Seinfeld não tenha ocasionalmente entrado em projetos novos: em 2002 lançou um documentário, Comedian, a dar conta do seu regresso ao stand-up, sucedendo-se o filme de animação Bee Movie — A História de uma Abelha, em 2007. Entre 2010 e 2011 esteve a fazer The Marriage Ref, um estrondoso fracasso que, garante, o inspirou para logo a seguir, em julho de 2012, se lançar no Comedians in Cars Getting Coffee.
Este formato de talk-show — possivelmente o seu projeto mais bem sucedido no pós-Seinfeld — recuperou parte do espírito da série que o catapultou, limitando-se a seguir à letra o título: ter conversas e trocar piadas com convidados famosos — e não apenas comediantes, já que Barack Obama também participou enquanto ainda era presidente dos EUA — enquanto conduzia um dos seus carros vintage e bebericava café. O sucesso foi tal que o programa atingiu 11 temporadas, as últimas duas encomendadas pela Netflix a troco de 60 milhões de dólares. E tal como Seinfeld, só terminou porque foi o próprio a querer pôr-lhe um fim antes que estagnasse.
Além disso, a aproximação ao gigante do streaming saldou-se em mais conteúdos: dois especiais de stand-up — Jerry antes de Seinfeld, de 2017, e 23 hours to kill, de 2020 — e A Batalha das Pop-Tarts, comédia de 2024 por si escrita, realizada, produzida e protagonizada, adaptando livremente a história da guerra das marcas de cereais de pequeno-almoço nos anos 60. Para que se entenda como o destino funciona, Seinfeld revelou que uma piada sobre Pop-Tarts que figuraria no segundo especial acima mencionado levou 10 anos a lapidar. Involuntariamente, isso serviu de inspiração para o filme que lhe seguiu — ainda que a ideia tenha partido de um amigo e, num primeiro momento, a tenha considerado “ridícula”.
https://observador.pt/2024/05/04/a-batalha-das-pop-tarts-a-comedia-lunatica-de-jerry-seinfeld-sobre-a-guerra-dos-pequenos-almocos-nos-anos-60/
A Batalha das Pop-Tarts não foi particularmente bem recebido — o famoso crítico Richard Roeper chegou mesmo a prever que vá ser “um dos piores filmes desta década” — algo que, alguns comentadores apontaram, pode não estar apenas relacionado com os préstimos (ou falta deles) do filme, mas com a própria perceção pública que Seinfeld passou a ter nesta fase tardia da sua carreira.
O politicamente correto, o apoio a Israel e uma relação antiga
Esta postura de fazer o humor pelo humor, de procurar a graça sem outro propósito senão o de fazer rir e de deixar os problemas do mundo fora da sala de espetáculos escudou-o ao longo dos anos de escrutínio mais apertado feito aos seus pares. Pode-se supor que este estado de graça acabaria sempre por cessar, quer porque ninguém é perfeito, quer porque os tempos mudaram — e foi precisamente isso o que aconteceu.
https://observador.pt/2020/05/09/ate-o-mediano-seinfeld-e-sempre-o-incomparavel-seinfeld/
Além das reavaliações contemporâneas de Seinfeld que acusaram a série de ter humor que envelheceu mal e conter piadas ofensivas, o seu próprio trabalho recente começou a merecer reparos de que provinha de um comediante demasiado rico e desligado da realidade, como atestam várias críticas ao especial 23 hours to kill.
Essa ideia do “humorista aburguesado” foi também alimentada por um faux-pas que protagonizou em 2017, quando a cantora Kesha, que Seinfeld não conhecia nem reconheceu, lhe interrompeu uma entrevista num evento para pedir-lhe um abraço, que ele recusou várias vezes e com visível desconforto. “Tenho 63 anos, não conheço todas as estrelas da pop! Não conheço toda a gente!”, justificou mais tarde.
https://www.youtube.com/shorts/0F_8DOj-N1c
Além disso, Seinfeld começou também a posicionar-se criticamente quanto ao policiamento da linguagem. Face às críticas quanto à escolha de convidados em Comedians in Cars Getting Coffee — a queixa era por serem maioritariamente homens brancos — Seinfeld chutou para canto numa entrevista dada à ESPN Radio em 2015. “Não tenho qualquer interesse nas questões de género nem de raça, nem nada do género”, afirmou, adiantando que “O politicamente correto está a destruir o humor”.
Por isso mesmo, garantia à época, revelou não fazer espetáculos de stand-up em universidades nem para públicos demasiado jovens: “A minha filha tem 14 anos. A minha mulher diz-lhe, ‘Daqui a uns anos acho que vais passar a querer andar mais pela cidade nos fins de semana, por causa dos rapazes’. Sabes o que é que a minha filha lhe responde? ‘Isso é sexista.’ Eles só querem usar este tipo de palavras. ‘Isso é racismo. Isso é sexismo. Isso é preconceito.’ Não sabem de que piiiiiiiii [é a rádio norte-americana, palavrões estão interditos] estão a falar”.
Quase 10 anos depois, numa entrevista à revista New Yorker, voltaria a fazer o mesmo aviso e de forma ainda mais severa, explicando que o policiamento do discurso era uma das causas para o definhar das sitcoms clássicas com que crescera.
Estavas à espera de ver alguma coisa engraçada na televisão esta noite. Pois bem, adivinha? Onde é que está? Isto é o resultado da extrema-esquerda, das tretas do politicamente correto e das pessoas que se preocupam tanto em ofender os outros. Quando escreves um guião e ele passa por quatro ou cinco pessoas diferentes, comissões, grupos — “Eis o que pensamos sobre esta piada” — bem, isso é o fim da comédia.
O desabafo caiu como uma bomba no seio das guerras culturais norte-americanas, granjeando apoio de figuras da direita mais radical do país, vendo num dos mais famosos comediantes do país um paladino contra o movimento woke. Meses depois, Seinfeld, todavia, voltou atrás. Numa conversa no podcast do comediante Tom Papa, lamentou os seus comentários, admitindo que o que dissera não era verdade. “Não acho que, como disse, ‘a extrema-esquerda’ tenha feito alguma coisa para inibir a arte da comédia. Retiro oficialmente o que disse”, afirmou, acrescentando que, perante uma cultura em constante mudança, o trabalho de um comediante é adaptar-se a isso.
Estas pequenas polémicas, não seriam, no entanto, o que mais fez mudar as atitudes de parte do público — principalmente o mais jovem — face à sua figura. Essa responsabilidade recairia nas suas posições públicas face a Israel e ao atual conflito na Faixa de Gaza. “O comediante, há muito apreciado pelas suas piadas apolíticas, tem vindo a debater-se com o que significa ser judeu no contexto da guerra entre Israel e o Hamas e nem todos estão satisfeitos”, comentou o The New York Times em 2024, no rescaldo do extremar de posições que o ressurgimento do conflito no Médio Oriente motivou.
Crescido no seio de uma família judia, Seinfeld frequentou uma escola hebraica e celebrou o seu bar mitzvah quando fez 13 anos. Esse mesmo ano, 1967, foi palco da guerra dos Seis Dias disputada entre Israel e uma coligação de estados árabes, o que provocou uma mudança de consciência da comunidade judaica norte-americana para uma maior militância pró-israelita.
O comediante, todavia, não fez da sua identidade judaica uma imagem de marca do seu humor — aliás, são poucos os exemplos que figuram em Seinfeld. Numa entrevista à GQ em 2024, explicou a sua posição. “Eu não faço sermões quanto ao tema. Tenho as minhas opiniões sobre o assunto e que abordo em privado. Não faz parte do que faço em termos de comédia, mas os meus sentimentos são muito fortes”, revelou.
Esses sentimentos, porém, foram postos a nu no rescaldo do 7 de outubro. Além de partilhar publicações de solidariedade com Israel nas redes sociais, assinar cartas abertas e participar em campanhas — atos de natureza pública a que normalmente não se associava —, Seinfeld e a família foram a a um kibbutz israelita em dezembro de 2023 visitar as famílias dos israelitas feitos reféns pelo Hamas. Mais tarde, foi tornado público que Jessica Seinfeld contribuiu para uma campanha de contra-protesto na Universidade da Califórnia face às manifestações estudantis pró-Palestina que decorreram ao longo de 2024 em vários campus do país.

Este posicionamento saldar-se-ia em várias ações públicas de repúdio ao casal, com Seinfeld a ser alvo em mais do que uma ocasião de protestos de ativistas a interromper os seus espetáculos — não só nos EUA, mas também na Austrália. O incidente mais mediático, no entanto, decorreu em maio de 2024, quando o comediante foi condecorado e convidado a fazer um discurso durante a cerimónia de graduação da Universidade de Duke, onde dois dos seus filhos estudam.
Quando se preparava para falar, cerca de 40 alunos levantaram-se e abandonaram o recinto, entre assobios, gritos de “Palestina livre” e desdobramento da bandeiras. Seinfeld optou por reagir com humor. “Muitos de vocês estão a pensar: ‘não acredito que convidaram este tipo’. Tarde demais”, atirou. No rescaldo deste incidente, em conversa ao podcast de Bari Weiss, o comediante admitiu sentir-se arrastado para uma politização do tema, tentando ainda assim mostrar simpatia pelos ativistas. “Quando temos manifestantes como estes, de vez em quando, adoro dizer ao público ‘Sabem, adoro que estes jovens estejam a tentar envolver-se na política, só temos de corrigir um pouco o seu alvo, eles parecem não compreender que nós, como comediantes, realmente não controlamos nada'”, declarou.
Duke invited a Jewish speaker to graduation and Pro-H@mas graduates walked out. The speaker? Jerry Seinfeld.
pic.twitter.com/5p3YWl1b2V— @amuse (@amuse) May 12, 2024
Em 2025, no entanto, voltaria a ser alvo de mais críticas; primeiro por afirmar “eu não quero saber da Palestina” quando foi levado ao engano por um ativista que fingiu pedir uma selfie quando na verdade estava a gravá-lo; depois por, num regresso à Universidade de Duke para apoiar um dos reféns do 7 de outubro entretanto libertado, denunciar o movimento pró-Palestina como sendo antissemita, comparando a sua retórica à do Ku Klux Klan.
Perante a sua postura combativa pró-Israel, vários internautas procuraram formas de apontar falhas de caráter a Seinfeld, encontrando num relacionamento antigo uma oportunidade privilegiada de fazê-lo. Em causa está uma relação amorosa que teve entre 1993 e 1997 com a designer de moda Shoshanna Lonstein Gruss, iniciada quando ela, aluna do último ano de uma escola privada, tinha 17 anos e ele 38, o que tem valido ao comediante acusações de aliciamento sexual de menores.
When Jerry Seinfeld was 38 he met a 17 year old girl in the park and they dated for 4 years. ???? Starting when she was still in high school. There was a cover story about it in People in 1994 so the show is being very accurate lol pic.twitter.com/679wSZfvAV
— ???????????????????? ???????????????????????????? (@EmmaTolkin) March 31, 2026
Longe de ser um segredo, a disparidade de idades no casal foi pouco contestada à época; a revista People deu até honras de capa ao namoro em março de 1994, revelando que a família de Lonstein Gruss aprovava a relação. Já o comediante afirmou nessa mesma peça que “Shoshanna é uma pessoa, não uma idade”. Face ao subsequente desconforto, Seinfeld começou por negar saber a idade real da jovem quando questionado sobre a relação durante uma entrevista com Howard Stern no ano seguinte, acabando por admitir: “não me apercebi que ela era tão jovem”.
Já depois do relacionamento acabar — e antes de conhecer a atual mulher —, o humorista admitiria num perfil da Vanity Fair por ocasião do final de Seinfeld que quase se casou com Lonstein Gruss. “Sei que toda a gente via aquele relacionamento como sendo um tipo rico da televisão com uma rapariga jovem e atraente, mas não era nada disso. Estávamos muito apaixonados, mas o momento não era o ideal”, revelou.