O ex-presidente do Benfica Luís Filipe Vieira estará ligado ao negócio da venda da antiga sede da FPF, na Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, que está sob investigação no processo ‘Operação Mais-Valia‘. De acordo com a revista Sábado, algumas escutas registadas no processo Cartão Vermelho, no âmbito do qual Vieira chegou a ser detido no verão de 2021, apontam para a sua ligação a Carlos Marques, um dos arguidos no caso da antiga sede da FPF. Esta ligação estará também sustentada em documentos já recolhidos nas duas investigações.
A Operação Mais-Valia, que investiga crimes de corrupção, recebimento indevido de vantagem, participação económica em negócio e fraude fiscal qualificada, tornou-se pública com a realização de buscas em 25 de março de 2025 e resultou então na detenção do empresário José Alves Inácio (por posse de arma proibida) e na constituição como arguidos do ex-secretário-geral da FPF Paulo Lourenço, do ex-deputado António Gameiro e do empresário Carlos Marques.
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O negócio da venda do antigo edifício da FPF remonta a 11 de abril de 2018, numa transação que, segundo reportou então a Polícia Judiciária, ascendeu a 11,25 milhões de euros e contou com o apoio dos bancos Carregosa e BAI Europa. A FPF formalizou a venda à sociedade Excellent Dimension, Lda, controlada por José Alves Inácio (que também gere a empresa Calbrita). Paulo Lourenço figurou no contrato como o representante do promitente-vendedor, enquanto António Gameiro e a sua empresa unipessoal SoftButterfly trataram da intermediação do negócio e Carlos Marques entrou para os órgãos sociais da Excellent Dimension na véspera do negócio.
Porém, Carlos Marques era também sócio da empresa Stone Value, uma sociedade que foi criada originalmente em dezembro de 2007 por Luís Filipe Vieira e que em janeiro de 2011 passou para as mãos do empresário arguido no processo Mais-Valia.
As informações avançadas esta quarta-feira sublinham que Vieira foi intercetado em escutas do processo Cartão Vermelho a falar com Carlos Marques, expressando a sua atenção e o acompanhamento total do negócio da antiga sede da FPF junto ao Largo do Rato. O empresário é, inclusivamente, descrito nesses autos como um suposto ‘testa de ferro’ do antigo líder do Benfica, tendo assumido também a gerência de outra sociedade anteriormente detida por Vieira: a Houselink.
Vieira não integrava a administração da sociedade Excellent Dimension, que comprou o imóvel, mas Carlos Marques transmitiu-lhe sempre todos os passos em torno do negócio. Contudo, revela a revista que estas informações do processo Cartão Vermelho, sob investigação no DCIAP, nunca chegaram aos autos do inquérito Mais-Valia, a correr no DIAP Regional de Lisboa.
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A defesa de Vieira negou à revista qualquer ligação do ex-presidente do Benfica ao negócio da antiga sede da FPF. No processo Cartão Vermelho o ex-presidente do Benfica é suspeito de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e branqueamento.
Negócio marcado por um complexo esquema de transferências bancárias
Conforme o Observador adiantou em março de 2025, uma vez formalizada a venda da antiga sede da FPF, foi depositado no dia 23 de maio de 2018 um cheque do organismo federativo de cerca de 249 mil euros na conta da Softbutterfly, de António Gameiro, correspondente aos gastos de intermediação da transação.
Normalmente, em negócios desta natureza, o pagamento de uma comissão de intermediação cabe ao vendedor, o que, neste caso concreto, é a FPF. Contudo, no dia 14 de junho desse ano, é depositado um novo cheque na conta da Softbutterfly, de António Gameiro, no valor de 492 mil euros, desta feita emitido pela Excellent Dimension, de José Alves Inácio.
Nesse mesmo dia, a Softbutterfly efetuou uma transferência bancária de 30 mil euros para a sociedade de advogados QRLC, o escritório de Luís Queiró (antigo deputado e antigo eurodeputado pelo CDS-PP), Joaquim Teixeira Rocha, Paulo Lourenço — o secretário-geral da FPF constituído arguido — e Gonçalves Crespo. Onze dias volvidos, a 25, nova transferência no mesmo sentido, desta feita de cerca de 35 mil euros. Total? 65 mil euros.
Segundo as perícias feitas pela investigação da PJ às contas das diversas entidades envolvidas, a Softbutterfly transferiu nesse mesmo dia 25 de junho perto de 74 mil euros para a empresa Stone Value. Quatro dias depois, a empresa controlada por Carlos Marques (e que tinha sido de Vieira) recebeu por transferência bancária mais 172 mil euros por parte da Softbutterfly.
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Fazendo as contas das duas transferências bancárias da Softbutterfly, de António Gameiro, para a Stone Value, de Carlos Marques, obtém-se o valor de 246 mil euros, um somatório que é exatamente metade dos 492 mil euros que tinham sido pagos pela Excellent Dimension, de José Alves Inácio, à empresa do ex-deputado do PS.
No entanto, o percurso do edifício ainda não estava terminado, pois em janeiro de 2022 — seis meses depois de ser desencadeada a Operação Cartão Vermelho que levou à detenção de Vieira e ao seu afastamento da presidência do Benfica —, houve um novo negócio. A sociedade Exemplary Sparrow, criada pelos bancos Carregosa e BAI Europa e representada pelos gerentes João Luz Cabrita e Bruno Minoya Perez — que tinham estado em 2018 a representar os bancos que financiaram a anterior compra —, adquiriu a antiga sede por 11,708 milhões de euros à Excellent Dimension.
Da “notinha para pôr em cima” do negócio a outras escutas
Entre 2018 e 2021 há ainda registo de vários contactos entre Vieira, Carlos Marques e outros intervenientes, como o filho do ex-presidente do Benfica. Em dezembro de 2018, Vieira começou por indicar sobre um negócio não identificado que teria custado “seis milhões”, mas foi logo corrigido pelo empresário, que apontou para 11,25 milhões de euros, o valor da venda do antigo edifício da sede da FPF. “E falta a minha notinha para pôr em cima disso”, afirmou Luís Filipe Vieira, com Carlos Marques a completar: “Exatamente”.
A ligação de Vieira ao negócio da antiga sede seria, face a outras escutas obtidas, do conhecimento de mais pessoas. Numa chamada em setembro de 2019 entre o empresário de futebol Bruno Macedo, arguido no caso Cartão Vermelho, e Miguel Dantas Ferreira, este último pede um favor “fácil de saber” e revela que tem um investidor francês interessado na antiga sede da FPF, que pertenceria a Carlos Marques e a Vieira (ou ao seu filho) e poderia ser colocado no mercado por cerca de 14,5 milhões de euros.
Numa outra conversa intercetada pela PJ e pelo Ministério Público, o ex-presidente do Benfica teria ainda pedido a ajuda de Humberto Pedrosa, dono da empresa Barraqueiro e antigo dono da TAP, para falar com Alves Inácio por causa de uma dívida e que esta seria liquidada com o resultado da venda da antiga sede da FPF.
Já em abril de 2021, três meses antes da sua detenção no âmbito do processo Cartão Vermelho, Vieira recebeu no centro de estágio do Benfica, no Seixal, os empresários Carlos Marques e Alves Inácio, com o MP a descrever o encontro no processo Cartão Vermelho como “visita por causa do negócio da venda do antigo imóvel da FPF”.
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