Portugal encontra-se numa encruzilhada que exige mais do que respostas conjunturais. Exige visão estratégica, coragem política e a capacidade de reconhecer que o modelo que nos trouxe até aqui pode não bastar para nos levar adiante.
Vivemos tempos de pressões externas crescentes — geopolíticas, climáticas, tecnológicas — e de vulnerabilidades internas por resolver. A resposta tem um nome: resiliência económica.
Uma economia resiliente é uma economia com fundações. Não treme ao primeiro sinal de tempestade porque assenta em pilares diversificados e enraizados no território. A dependência excessiva de sectores voláteis expõe-nos a riscos que nenhuma política nacional controla. O turismo é um activo extraordinário, mas não pode ser a galinha dos ovos de ouro que nos dispensa de pensar em tudo o resto. Uma economia madura não vive de uma única vocação.
As tempestades Kristin deixaram uma factura pesada sobre comunidades, empresas e territórios. Famílias que viram o trabalho de anos destruído em horas, empresas que perderam colheitas, autarquias a reconstruir infraestruturas. Estes episódios são a nova normalidade climática. Perante ela, construir resiliência é mitigar risco e garantir crescimento sustentado.
No Baixo Alentejo sabemos o que isso significa. A agricultura que alimenta o país e dá vida ao interior. O vinho, embaixador de Portugal no mundo. A cortiça, onde somos líderes. A pecuária extensiva e o agroalimentar e tantas outras fileiras que, longe de arcaicas, são espaços de inovação e valor acrescentado, com o são para o pais o calçado, os têxteis, o processamento de tabaco, ou a pasta de papel, alguns dos maiores exportadores nacionais e pilares silenciosos da nossa balança comercial. Sectores com raízes, território e gente — onde se joga a coesão do país.
Mas resiliência é também apostar no digital, na inteligência artificial, nas energias limpas, na biotecnologia. A verdadeira modernidade não opõe o novo ao antigo: articula-os. É dessa fertilização cruzada que nascem os modelos mais robustos.
Precisamos ainda de uma Europa parceira, não de uma Europa obstáculo. Políticas europeias ao serviço de quem produz e investe, não reféns de barreiras ideológicas ou labirintos burocráticos. Queremos mais Europa, sim: mais próxima, mais simples, mais útil.
Uma economia resiliente não se decreta. Constrói-se com visão, diálogo social e a certeza de que o futuro pertence aos países que se preparam para ele. Portugal tem tudo para ser um deles. Falta a decisão política. E essa começa agora.