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Dia da Terra - o poder da ciência na resposta às crises ambientais

O nosso poder está na capacidade de ligar ciência e ação, inovação e responsabilidade, ambição climática e justiça social.

Francisco Ferreira
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O tema do Dia da Terra 2026, “O Nosso Poder, O Nosso Planeta”, recorda-nos uma ideia essencial: a resposta às crises ambientais, e em particular à crise climática, não depende apenas de grandes decisões internacionais, mas também da capacidade de mobilizar conhecimento, inovação e ação coletiva a partir dos territórios, das instituições e das comunidades. A ciência tem, neste contexto, um papel decisivo para diagnosticar problemas, apoiar soluções e orientar políticas públicas.

Uma primeira dimensão dessa resposta está na energia e no clima. A descarbonização das economias exige reduzir emissões, aumentar a eficiência no uso dos recursos e acelerar soluções assentes em fontes renováveis, mas também compreender os impactos sociais da transição. A investigação tem mostrado que não basta substituir tecnologias, sendo necessário redesenhar sistemas de produção e consumo, considerar riscos climáticos, reforçar a resiliência e garantir equidade no acesso à energia. O estudo de sistemas energéticos locais em conjunto com infraestruturas centralizadas, de comunidades de energia, de modelos circulares e de estratégias para viver com menos recursos e menos emissões aponta para uma transformação profunda do metabolismo económico, em que a neutralidade carbónica deixa de ser apenas uma meta ambiental para passar a ser também uma condição de segurança, saúde e coesão social.

Uma segunda dimensão fundamental é a economia circular e a gestão sustentável dos recursos naturais. A crise climática está intimamente ligada ao modo como produzimos, consumimos e descartamos materiais. Por isso, a investigação em sustentabilidade tem reforçado a importância de fechar ciclos, promovendo reciclagem, reutilização, recuperação de recursos e novos modelos económicos assentes em eco-inovação, compras públicas sustentáveis e cadeias de valor mais eficientes. Ao mesmo tempo, a água e os resíduos devem ser vistos cada vez mais como recursos estratégicos, exigindo novas soluções de tratamento, remoção de contaminantes emergentes, monitorização e valorização. Esta abordagem torna-se ainda mais relevante num contexto de escassez hídrica crescente, alternada com episódios extremos de precipitação e forte pressão sobre os ecossistemas.

Transformar as crises ambientais em oportunidades implica também olhar para a biodiversidade, o solo, a água e o território como infraestruturas de futuro. A preservação e regeneração dos recursos naturais, a valorização dos serviços dos ecossistemas, a sustentabilidade dos sistemas alimentares e a coesão territorial são hoje dimensões inseparáveis da ação climática. Neste domínio, assume particular relevância a investigação transdisciplinar e participativa, capaz de juntar ciência, administração pública, setor privado e sociedade civil para construir respostas integradas. Experiências recentes mostram que a adaptação às alterações climáticas depende não só de melhor conhecimento, mas também de melhores processos de decisão, monitorização e envolvimento dos atores locais.

Esta é a mensagem mais importante do Dia da Terra 2026. O nosso poder está na capacidade de ligar ciência e ação, inovação e responsabilidade, ambição climática e justiça social. O nosso planeta dependerá cada vez mais da forma como conseguimos transformar conhecimento em escolhas bem informadas e a ciência não resolve sozinha as crises ambientais, mas sem ela não haverá transição credível nem futuro sustentável.