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"Não terão mais nada": rabino conhecido por destruir casas de civis em Gaza acenderá tocha no dia nacional de Israel

Em janeiro de 2025, Avraham Zarbiv gabou-se de demolir “50 casas por semana” em Gaza. Ativistas de direitos humanos afirmam que homenagear o rabino apoia limpeza étnica e crimes de guerra de Israel.

Margarida Vieira dos Santos
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Avraham Zarbiv, rabino conhecido por destruir casas de civis em Gaza, vai acender uma tocha em Jerusalém no dia de celebração da Independência de Israel. Zarbiv é uma das 14 personalidades escolhidas pela sua “contribuição extraordinária para a sociedade e para o Estado”, que inclui ainda membros das forças de segurança, empresários, um cientista, um médico de renome e um chef com estrela Michelin, escreve o The Guardian.

“O rabino Avraham Zarbiv é um exemplo de profundo compromisso com a nação de Israel, a Torá de Israel e a Terra de Israel”, disse Mirim Regev, ministra dos Transportes e organizadora de longa data da cerimónia, ao anunciar a escolha de Zarbiv, citada pelo The Times of Israel. “Através dele, homenageamos os homens e mulheres da comunidade religiosa nacional que conciliam uma vida dedicada à Torá com o serviço e a contribuição para o Estado, e que continuam a guiar a sociedade israelita para o futuro, movidos por um profundo sentido de missão”, acrescentou ainda.

Zarbiv, também militar e condutor de um trator blindado, ganhou notoriedade através de vídeos publicados na redes sociais em que registava a sua própria destruição em Gaza. De acordo com o jornal israelita, defendeu em várias entrevistas o “arraso de Gaza”, o estabelecimento de colonatos na região, a expulsão dos palestinianos do norte da Faixa e a “destruição” de quem lá permanece. “Não terão mais nada“, ouve-se numa das filmagens do rabino, enquanto a câmara percorre uma paisagem de edifícios destruídos. “Vamos arrasar e destruir-vos”.

https://twitter.com/avihaihaddad/status/1879553021585326168

Em janeiro de 2025, Avraham Zarbiv gabou-se de demolir “50 casas por semana” em Gaza numa entrevista a um canal de televisão israelita. “Não têm para onde voltar em Rafah e Jabalya… dezenas de milhares de famílias não têm documentos, fotografias da infância, cartões de identidade, nem casas. Não têm nada”, afirmou, citado pelo The Guardian. A sua própria casa, segundo a organização Kerem Navot, foi construída em terrenos palestinianos privados num colonato ilegal e está sob ordem de demolição por construção ilegal desde 2000.

“Israel perdeu o rumo, a bússola moral e a consciência”

A escolha de Avraham Zarbiv para acender uma tocha no Dia da Independência de Israel desencadeou uma onda de contestação, tanto por parte de organizações e ativistas de direitos humanos como de vários meios de comunicação social.

“Um país que opta por honrar e estimar alguém que se tornou um símbolo da destruição de Gaza está a dizer ao mundo que o considera, a ele e aos seus valores, digno de respeito e representante do Estado”, escreveu o jornal israelita Haaretz num editorial. “Zarbiv merece de facto acender um archote no Dia da Independência: não porque seja digno da honra, mas porque Israel perdeu o rumo, a bússola moral e a consciência”, pode ainda ler-se.

Já a organização de defesa dos direitos humanos B’Tselem acredita que a escolha de Zarbiv para a cerimónia representa uma luz verde do governo à desumanização dos palestinianos e à destruição das suas vidas. “Esta escolha envia uma mensagem clara aos cidadãos de Israel e ao mundo inteiro: em Israel, o genocídio, a limpeza étnica e os crimes de guerra são o ‘espírito da nação”, afirmou o grupo israelita.

Os próprios chefes militares israelitas, segundo o The Guardian, têm procurado distanciar-se do rabino, que no início do ano foi censurado pelo órgão de supervisão judicial de Israel por declarações extremistas. “Não foi selecionado em coordenação com as Forças de Defesa de Israel – não é um representante das Forças de Defesa de Israel na cerimónia de acendimento da tocha”, declarou o Brigadeiro-General Effie Defrin numa conferência de imprensa da semana passada, citado pelo jornal britânico.

Os vídeos e imagens captados por Avraham Zarbiv espalharam-se amplamente nas redes sociais e, de acordo com o The Times of Israel, o seu nome entrou para o léxico da gíria hebraica. “To Zarbiv” significa agora destruir.

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