Quando há uns dias Ana Sá Lopes encontrou, bem apertado por um cinto mais prosaico, um Churchill dentro de Pedro Sánchez, ninguém levou a mal: às vezes uma pessoa entusiasma-se, arredonda uns casos bicudos, lança uma cortina de fumo sobre outros e a certa altura até já acha que o fumo sai do famoso charuto. Acontece.
O que não esperávamos é que o cognome sinalizasse a avareza de Sá Lopes. Faltava um elemento essencial. Se já tivéssemos assistido à Global Progressive Mobilisation, saberíamos que Churchill é pouco.
Isto porque, nos últimos dias, a esquerda mundial – ou os Progressistas, como preferem ser chamados, e olhem que eles dão muita importância ao direito a escolher o que os outros dizem – esteve reunida em Barcelona. Foi um acontecimento de grande aparato. Um pavilhão com cinco mil pessoas, luzes, música triunfante. Presidentes. Ex-presidentes. António Costa, José Luís Carneiro, Pedro Silva Pereira. Figurões do ártico ao antártico, todos juntos, e unidos num propósito que cumpriram com enorme competência: mostrar que Ana Sá Lopes podia ter sido bem mais enfática.
Uma oradora chamou-lhe “incrível voz moral” da Europa; Lula gabou-lhe a coragem, Rebeca Torró, funcionária do PSOE, a “valentia”; o apresentador disse – literalmente – que Sánchez salvou “literalmente” a alma da Europa, coisa que, a menos que tenha forrado a Grand Place de Bruxelas com indulgências plenárias, não sabemos como se fará; ao pé disto, o que é um Churchill, da parte de uma jornalista que, se tivesse assistido às mesmas cinco horas de conferência a que eu assisti, teria agora um repertório encomiástico muito mais alargado?
Vale a pena assistir a este magno encontro. Ninguém sai mais esclarecido, engolir a papa de banalidades que escorre de umas bocas para as outras exige um estoicismo assinalável e toda aquela feirinha é de um grotesco que envergonha qualquer um. No entanto, há algumas coisas significativas que se tiram deste encontro.
Em primeiro lugar, devia haver alguém disposto a fazer com este tipo de reuniões o mesmo que David Graeber fez com os – como ele lhes chamou no seu livro sobre o assunto – Trabalhos de Merda. Ou seja, a mais gritante perda de tempo deste convívio não vem do facto de ser um encontro de progressistas ou socialistas; a sensação é a mesma que se tem ao assistir à WebSummit, ou que se teria num grande simpósio conservador. Estas são conferências de prestígio, em que são convidados não os grandes pensadores de esquerda nem os melhores oradores, mas as figuras que, por uma razão ou por outra, o organizador julga mais importantes. Isto significa que a conferência, em si, é um embaraço dispensável. O que a Organização queria não era um simpósio – era só uma lista. Como, infelizmente, não se pode entregar uma simples convocatória, depois é preciso sujeitar toda a gente ao incómodo de ouvir António Costa ou Tim Waltz falar, sem que eles tenham alguma coisa para dizer.
O resultado é, então, uma filigrana de banalidades impressionante: horas de variações sobre as mesmas palavras. Futuro, esperança, igualdade, igualdade, esperança, futuro, o futuro não se faz sem esperança, a esperança não se consegue sem futuro, e é isto que se pode tirar de todos os discursos. O caso mais cómico, nisto, foi o de Stefan Lofven, antigo presidente dos Socialistas Europeus. Lofven fez o que nunca se faz numa cimeira destas: lembrar uma cimeira anterior, porque isso obriga a reparar nos nulos resultados de iniciativas semelhantes. “Há um ano”, diz Lofven, “fizemos o compromisso de transformar a esperança em acção”. O público aprova. São precisas acções concretas. Vem aí o relatório dos feitos destes Action Men? Nada disso, apenas o anúncio triunfante: “e hoje a acção começa”. Um ano para começar a acção? Acção essa que, na verdade, passa por repetir aquilo a que, no ano anterior, não se chamou acção, mas sim prenúncio de acção? Acção significa dizer que é preciso agir?
Às banalidades, junta-se um espírito de claque que não é propriamente esclarecido. Sánchez, o PSOE, a esquerda europeia, a internacional socialista (sei as organizações todas, porque todos os discursos começavam por elencá-las, para parecer que tinham mais qualquer coisa para dizer), preocupados com os populistas, decidiram estacionar todos os barões do progresso em Barcelona. Contudo, para combater o populismo, anunciam os oradores ao som de música motivadora, elogiam a bonita cidade de Barcelona, tal como aprenderam com os congéneres rockeiros, e ensaiam uns refrões que o público repete em coro. Uma audiência silenciosa, a pensar? Nada disso. Lofven lembra-se do hit espanhol, grita que os reaccionários no pasarán, e o público rejubila, em eco musical: No pasarán! No pasarán! No pasarán!, como quem mostra que aos desafios do futuro se responde com frases nonagenárias, em que aquele ponto de exclamação já não dá ênfase, apenas o apoio geriátrico de uma bengala.
Aliás, quando a americana Neera Tanden chama “gangster próximo do seu presidente” a Orbán, dá-se uma situação inusitada. Ela espera o aplauso ao seu insulto. O aplauso não vem logo. Franze o sobrolho, o aplauso chega finalmente e ela, aliviada, grita um “sim” como quem diz “finalmente”, e aplaude-se também a si própria, tal como já se tinha aplaudido quando chama “incrível voz moral” a Sánchez. (Não estranhe o leitor o aplauso em causa própria. Antes, já Rebeca Torró tinha dito “farol de esperança. Somos isso, os progressistas. Milhões de pontos de luz”, pelo que um aplauso parece tão comedido como se só chamássemos Churchill a Sánchez).
É claro que tudo isto é meio tonto quando se está a imprecar contra o populismo e o obscurantismo, mas faz parte do pacote de todas as alcabelas com mais dinheiro do que precisam; não precisávamos da Global Progressive Mobilisation para isto, porque é o que acontece em todas as conferências do mundo: isso sim é verdadeiramente Global, e não precisamos de Mobilisation nenhuma para o ver.
Há alguns pontos, contudo, que por mais que possamos encontrar em todo o lado, são mais divertidos quando vemos a esquerda emaranhada neles.
Já se sabe que na política de hoje, embaraçada pelos consultores de imagem, os políticos ao nada que já diziam ainda tiram o nada que não podem dizer, com medo de perder votos. Ainda assim, naquela forma cobarde em que ninguém diz verdadeiramente o que quer dizer, é cómico ver o desplante de todo aquele ajuntamento a fingir que tem uma causa comum. O Presidente da Catalunha fala de sonho, igualdade, aperta a mesma açorda, mas fá-lo em Catalão, e é o único que não começa o discurso com um elogio a Sánchez; Lula traz o Sul Global, Ramaphosa o apartheid, e o palco da unidade da esquerda transforma-se de repente numa feirinha de pregoeiros, com cada um a mercadejar o seu interesse próprio, mascarado de interesse comum.
É igualmente curioso ver como o discurso de todos os grandes chefes da esquerda parece o cerimonial de um rei barroco: já nem falamos do facto de a esquerda alcandorar a sua elite, como quem acredita na hierarquia; é impressionante o tempo que se perde com todos os oficiantes a lembrarem as mulheres, as raças, os desfavorecidos, os países do Sul, os países em guerra, os LGBT – só não acabam com o trinchante do rei a subir ao palco porque isso provavelmente ofenderia um vegan com precedência protocolar. Como o próprio Lula admitiu (no discurso mais interessante da cerimónia, diga-se) a esquerda tornou-se o sistema, e escolheu um sistema de Rei Absoluto, bem patente naquela festa de cortesãos bem treinados.
O mais interessante, porém, e mais sintomático daquilo que a esquerda pensa de si própria, não são os elogios declarados ou o pirilâmpico auto-retrato; são ovações quando os oradores expressam desejos ou, simplesmente, enunciam problemas, com o ar de quem afronta os poderes instituídos (por eles, mas que interessa isso?). Fala-se em acabar com a fome, o público aplaude. Casas para os jovens, aplausos. Boas escolas, oportunidades: palmas, mais palmas. Ora, é extraordinário – e sei que a pulsão gregária facilita estas coisas, mas ainda assim… – que a esquerda ainda ache que as boas intenções são um monopólio ideológico. Não há uma palavra sobre o modo como se procura resolver isto ou aquilo, que marcaria a verdadeira diferença entre uns e outros. Não, é a preocupação em si que pertence à esquerda. Como se acreditassem mesmo que àquelas palavras que proclamam – esperança, justiça – houvesse um resmungão, enfiado numa cave, a responder: “não! Queremos desespero! Queremos injustiça!” a imaginar escoroupins perversos em que pudesse enfiar a humanidade.
Por fim, há uma característica importante, que podemos orgulhar-nos de ter sido o nosso José Luís Carneiro a revelar melhor que ninguém. Carneiro seguiu o rebanho dos elogios e disse de Sánchez que era “um exemplo”. É certo que estava em casa dele, e que há coisas que se dizem por cerimónia. Mas mesmo aí, convém escolher bem as palavras. O escândalo em que a mulher de Pedro Sánchez enclavinhou o marido, a Universidade, o Partido, a assessora, é de tal maneira vergonhoso que, mesmo que saibamos que José Luís Carneiro está a falar de outra coisa, convém guardar algum pudor. É certo que entre a mulher de Pedro Sánchez e o filho do também presente Yamandú Orsi se percebe que a esquerda tenha reservas em relação à família tradicional e que Lula, ao lado do vice presidente do Botswana, Ndaba Gaolathe, que ainda não explicou como lhe foi parar às mãos o dinheiro da CBM, se sinta em casa e fale tantas vezes da família progressista; mas nem estas concepções alargadas de família e uma certa permissividade moral própria da esquerda justificam que José Luís Carneiro olhe para Sánchez como um exemplo. Sobretudo porque, se o exemplo está na “oposição” de Sánchez a Trump, a verdade é que nunca o secretário-geral do PS se mostrou tão adepto do confronto declarado com os Estados Unidos em matéria de política externa. Mais, quase que podemos apostar que, confrontado com a realidade de um pedido de apoio ou de uma exigência norte-americana, não agiria como um Sánchez. José Luís Carneiro não se parece em nada com Sánchez, e não há mal nenhum nisso. Exemplo porquê, então? Por causa daquilo que a realidade eleitoral faz a todos os partidos: porque ganha, e é nisso, acima de tudo, que estes partidos acreditam. No poder.