Oriundas das Brigadas Revolucionárias do PRP/BR, partido que se dissolveu em 1980, as Forças Populares 25 de Abril (FP-25) eram um movimento terrorista de extrema-esquerda que esteve ativo em Portugal entre 1980 e 1987, e que pretendia, através da luta armada, instaurar no país o “socialismo popular” e a ditadura do proletariado. Otelo Saraiva de Carvalho era um dos seus mentores. Enquanto estiveram ativas, as FP-25 fizeram atentados a tiro e à bomba, roubaram bancos, empresas e carrinhas de transporte de valores, e mataram 19 pessoas, incluindo um bebé de quatro meses (“um erro técnico”, justificaram-se na altura).
O filme Projecto Global, de Ivo M. Ferreira (o título refere-se à superestrutura articuladora das FP-25 e da Força de Unidade Popular, o braço político das mesmas, que candidatou Otelo à Presidência da República em 1980) pretende recriar, com acrescentos e figuras ficcionais, esses tempos conturbados do pós-25 de Abril e retratar por dentro o grupo terrorista (vai haver também uma série de televisão, e exibir na RTP), mas deixa muito a desejar. Embora não endosse as ações do movimento, a fita é condescendente para com as FP-25 no geral e minimiza a sua organização e objetivos políticos, e o medo e a dor que espalhou na sociedade portuguesa.
[Veja o “trailer” de “Projecto Global”: ]
https://www.youtube.com/watch?v=IsJvsS6KtSc
Numa das entrevistas que deu sobre Projecto Global, o realizador fala em “ambivalência moral” e de “um thriller sem bons e maus”. Ora sendo as FP-25, um movimento ultra-minoritário e ideologicamente fanático, que execrava o Estado de Direito e a democracia; queria recriar a fase mais negra do PREC; destruir o novo regime e impor em Portugal uma utopia sangrenta, não hesitando em assassinar pessoas inocentes, não se podem admitir paninhos quentes de relativismo moral, ambiguidades piedosas ou retóricas de “zonas cinzentas”.
Projecto Global abre com uma sequência em que uma das personagens principais, a terrorista Rosa (Jani Zhao), atravessa uma rua em que decorre um comício com o que aparenta ser um militar a discursar, e logo a seguir rebenta um petardo, instalando a confusão. O filme é assim situado em 1980, ano das eleições presidenciais que opuseram Ramalho Eanes, Soares Carneiro e Otelo Saraiva de Carvalho, das quais decorreu o início da luta armada pelas FP-25 e a divulgação do seu Manifesto ao Povo Trabalhador. O dito militar aparenta estar a usar a farda nº1, de gala, o que só por si é absurdo, dado o facto de nenhum daqueles três ter feito campanha uniformizado, mas obviamente, à civil. Passamos depois para uma empresa onde a GNR está a enfrentar os trabalhadores revoltados, culminando num momento dramático.
Estas sequências concentram alguns dos problemas do filme. Apesar de um bom trabalho com o detalhe e a verosimilhança na reconstituição de época, dos carros às roupas e ao próprio aspecto físico das personagens, bem como aos cartazes partidários e aos murais, Projecto Global não consegue expor com clareza suficiente a cronologia da ação. Tal sucede com a própria passagem do tempo dentro da narrativa (por vezes, a informação surge de notícias na rádio e na televisão), na qual os acontecimentos (vigias, encontros, assaltos, atentados, conversas) se sucedem de forma desarrumada, com pouca coesão, nexo e legibilidade.
[Veja uma sequência do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=mkfg1qN9RZI
O filme acompanha um punhado de operacionais, tem um subenredo sentimental pouco credível e está também longe de dar uma ideia clara da organização interna e do funcionamento do grupo terrorista (classificado pela Direção Central de Combate ao Banditismo como “um exército revolucionário”), da sua estrutura, pressupostos político-ideológicos e daqueles que a lideram (não há uma menção sequer a Otelo Saraiva de Carvalho…). Andamos sempre atrás de Rosa, Marlow (José Pimentão), Balela (João Catarré), do Amanuense (Gonçalo Waddington) e outros, qual tropa fandanga da revolução armada. Uma cena com uma reunião alargada de militantes para pesar e discutir os acontecimentos e decidir ações é, também ela, confusa.
As sequências de suspense e ação incluem o assassinato de um empresário “fascista”, uma perseguição num cemitério, um tiroteio noturno, o assalto falhado a um banco na província (que culminou, na realidade, e como o filme não omite, com os populares a disparar sobre os terroristas e a espancar um deles) ou a eliminação de um dissidente que informou a polícia, o Balela (trata-se do “arrependido” José Barradas, morto pelos antigos camaradas, mas não à porta de casa e com a mulher a ver, como o filme mostra, dado que só morreu dias depois, no hospital). A fuga coletiva é involuntariamente cómica, e com a devida banda sonora, poderia ter saído de um episódio de Benny Hill.
Ivo M. Ferreira e Helder Beja, o seu parceiro de argumento, preocupam-se mais com os estados de alma, os dilemas existenciais, ideológicos e sentimentais, e as angústias íntimas dos operacionais, do que com as vítimas dos seus atos violentos e as consequências que tiveram nas famílias destas. Com a exceção de Rosa e de mais dois ou três camaradas dela, as personagens de Projecto Global são esboços utilitários, com pouca ou nenhuma vida interna e complexidade psicológica. E a figura do Inspector-Chefe da Judiciária, interpretado por Ivo Canelas, que a certa altura diz a um dos seus agentes que estaria com as FP-25 se ainda houvesse guerra e não se vivesse já em democracia, é completamente inverosímil, na pessoa e no discurso.
Projecto Global não é um trabalho definitivo, nem suficientemente fiável, sobre este fenómeno do terrorismo político no Portugal democrático pós-25 de Abril, e seria agora muito interessante se alguém pensasse em fazer um filme ou uma série que integrasse também o drama das vítimas das FP-25.