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(A) :: A Juditealização da análise política

A Juditealização da análise política

Lavar o corpo com champô é um lapso. Crer que o Homo Sapiens é tio-avô do Australopithecus é outra coisa. Tal como ser diretora-adjunta de informação 20 anos antes de dar História no 9.º ano.

Tiago Dores
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“Os japoneses atacaram Pearl Harbor, porque levaram com duas bombas atómicas (…) Eu estou em crer que o Donald Trump não sabe nada de História.”

Judite de Sousa – Canal Now

Decorreu há dia, em Barcelona, o Congresso Mundial Progressista. Um certame promovido pelo presidente do governo de Espanha, Pedro Sánchez, que contou com as presenças de — entre outros — Lula da Silva, Claudia Sheinbaum (presidente do México), Gustavo Petro (presidente da Colômbia) e Cyril Ramaphosa (presidente da África do Sul). Sim, já sei o que estão a pensar e a reposta é não: o Dr. No, o Lex Luthor e o Darth Vader não estiveram presentes. A lotação do evento era limitada e a organização teve de ser muito criteriosa na escolha dos líderes mais danosos para o futuro da humanidade.

A representar Portugal do tempo do PREC, estiveram no evento, António Costa e José Luís Carneiro. Ou seja, marcaram presença na Catalunha, o passado do PS, o presente do PS e a grande causa da falta de futuro do país. O que é pena porque, pelo caminho que leva Espanha, esta era a nossa oportunidade de fazer da península ibérica a nova península coreana: deixávamos Espanha tornar-se a Coreia do Norte à vontade e nós optávamos antes por ser o país da península que é bem visível à noite a partir do espaço.

Mas não vai dar, Bubacar, pelo menos no que depender do actual líder do PS. É que, na sua visita à cidade condal, José Luís Carneiro fez questão de sublinhar que Pedro Sánchez é uma inspiração. E eu suponho que seja inspiração por ainda não lhe ter expirado o mandato apesar da mulher, do irmão, de vários ex-ministros do seu núcleo duro e outros colaboradores próximos serem acusados de quase tantos crimes como os cometidos pelo regime venezuelano. O qual, ainda há tão pouco tempo, o mesmo José Luís Carneiro fez questão de sublinhar ser, também, uma inspiração. Fiquemos atentos, pois, que nos próximos dias José Luís Carneiro deverá sublinhar que o terrorista militante do PS, que atirou o cocktail molotov para cima de mulheres e crianças na Marcha pela Vida, é uma inspiração.

É por estas e por outras — mas mais por estas — que a mítica jangada de pedra ibérica depressa comprovará a péssima ideia que é construir jangadas em pedra. E como se não bastassem questões como a judicialização da política, nos últimos dias fomos ainda apresentados ao problema da Juditealização da análise política. Fenómeno que deve o seu nome à declaração proferida pela comentadora Judite de Sousa de que “os japoneses atacaram Pearl Harbor porque levaram com duas bombas atómicas.”

Em defesa daquela que foi, durante anos, a cara das notícias da RTP, muitos consideraram a declaração um mero lapso. Em defesa do bom nome dos meros lapsos, e até do ponto de vista do utilizador de meros lapsos, eu considero não se ter tratado de um simples deslize. Um lapso, um simples deslize é, por exemplo, lavar o corpo com champô (e se a zona “afectada” for felpuda, nem isso é). Crer que o Homo Sapiens é tio-avô do Australopithecus é outra coisa. Tal como ser diretora-adjunta de informação 20 anos antes de dar História no 9.º ano também é algo diferente.

Estas são, antes, ilusões que invertem nexos de causalidade. São ofensas ao pensamento lógico. São anomalias que rasgam o tecido do universo. São mais coisas gravíssimas que as minhas limitações lexicais não me permitem expressar de forma mais contundente. São, em resumo, sintomas mesmo muito avançados da epidemia de Trump Derangement Syndrome.

Agora, há uma boa notícia: estes casos são extremamente graves, sim, mas são agudos, não são crónicos. O ódio aos Estados Unidos da América presidido por Donald Trump depressa poderá voltar a transformar-se na admiração que as Judites de Sousa tinham por uma administração com a de Jimmy Carter — que, aposto, garantiriam ter uma coluna vertebral e tudo — ou, melhor ainda, pela de Barack Obama, o Prémio Nobel da Paz, filho do Gandhi com a Madre Teresa de Calcutá.

Uma coisa é certa. Se for verdade, como especula Judite de Sousa, que Donald Trump “não sabe nada de História”, não percebo tanta hostilidade. Afinal, ela e o POTUS têm, pelo menos, uma coisa bem evidente em comum.