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(A) :: Prémios Sophia alvo de críticas pela nomeação de filme feito com IA. Academia Portuguesa de Cinema diz que "não é critério de exclusão"

Prémios Sophia alvo de críticas pela nomeação de filme feito com IA. Academia Portuguesa de Cinema diz que "não é critério de exclusão"

Em causa está o filme "Cartas Telepáticas", de Edgar Pêra, que foi criado com recurso a inteligência artificial. Academia rebate que "a apreciação das obras deve centrar-se no seu valor artístico".

Joana Moreira
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A Academia Portuguesa de Cinema, que atribuiu anualmente os Prémios Sophia, que distinguem o cinema português, está a ser alvo de críticas nas redes sociais pela nomeação do filme Cartas Telepáticas, de Edgar Pêra, cujas imagens foram criadas com recurso a inteligência artificial. O filme, uma produção da Bando à Parte, está nomeado para Melhor Documentário em Longa Metragem nos prémios que serão atribuídos no próximo dia 15 de maio.

“A nomeação deste filme, especialmente para esta categoria, é uma afronta ao trabalho e dedicação de todos os artistas”, lê-se numa publicação partilhada no Instagram da Mais um Casting, página dedicada ao setor artístico. Na nota apela-se à “desqualificação” da obra dos prémios.

Cartas Telepáticas, realizado por Edgar Pêra, é um filme experimental que cria uma correspondência imaginária entre os escritores Fernando Pessoa e H.P. Lovecraft, explorando afinidades invisíveis entre os dois autores e utilizando inteligência artificial para gerar as imagens. Só as vozes são reais, com narração de Keith Esher Davis, Iris Cayatte, Bárbara Lagido e Victoria Guerra. O filme estreou-se no Festival de Locarno, em 2024, fora de competição e chegou aos cinemas portugueses em março de 2025.

Contactado, o realizador reage: “agradeço a publicidade”. Sobre a utilização de inteligência artificial no cinema descreve o que considera ser uma “revolução industrial neste campo”. “A IA não é arte como uma câmara também não é arte”, mas a ferramenta é hoje uma “arma da produção independente”. Esclarece também que, ao contrário do que é dito na publicação em questão, não recorreu ao ChatGPT, mas a outros programas de inteligência artificial generativa.

Rejeita, também, a imputação de qualquer “roubo” a artistas. “Falei com atores para fazer as vozes. Em termos de política laboral, respeitei tudo o que é não privar os outros de trabalho. Trabalhei com o mesmo número de pessoas, não houve nenhum downsizing”, garante. “Há uma frase [nesta acusação] que carece de prova. Que imagens é que usei de outras pessoas? O que fiz foi uma recombinação de imagens de arquivos”, diz. “Não há aqui engano nenhum, a manipulação [das imagens] esta à mostra no filme”. “O que fiz foi inventar”, remata.

Academia Portuguesa de Cinema considera que “a apreciação das obras deve centrar-se no seu valor artístico” e que utilização de IA “não constitui, por si só, critério de exclusão”

O Observador questionou a Academia Portuguesa de Cinema, que, por e-mail, “reconhece que o uso de inteligência artificial no contexto artístico levanta questões pertinentes e atuais, que estão a ser amplamente debatidas a nível internacional”. No mesmo e-mail, partilham, “a título de curiosidade”, um artigo publicado precisamente esta manhã no jornal The Guardian sobre a crescente utilização de IA por parte de realizadores reputados.

As nomeações para os Prémios Sophia, esclarecem, “resultam de um processo definido em regulamento, baseado na avaliação artística, técnica e cinematográfica das obras por parte dos seus membros”. Questionados sobre se existem atualmente critérios específicos para obras geradas (total ou parcialmente) por inteligência artificial, respondem dizendo apenas que “a utilização de ferramentas tecnológicas, incluindo inteligência artificial, não constitui, por si só, critério de exclusão ou de validação de uma obra, em conformidade, aliás, com aquilo que é prática mais comum nos grandes festivais de cinema”. “A Academia considera que a apreciação das obras deve centrar-se no seu valor artístico e no cumprimento dos critérios estabelecidos”.

Não esclarecendo se está nos planos rever regulamentos, criar diretrizes sobre a utilização de IA ou sequer se espera um aumento de filmes feitos com recurso a IA nos próximos anos, a Academia de Cinema admite que “continuará atenta à evolução destas práticas e empenhada em promover o debate informado e plural sobre o seu impacto no setor audiovisual”.

Já no ano passado, as nomeações aos mais importantes prémios de cinema em Portugal causaram celeuma pela não-nomeação do ator Edgar Morais, que veio a público criticar o facto de apenas o irmão gémeo, o ator Rafael Morais, ter sido nomeado num filme em que ambos participavam e no qual estariam, a seu ver, “indistinguíveis”.