O anúncio de Donald Trump chegou pouco antes do fim do prazo que o próprio tinha estabelecido. “Concordei em suspender os bombardeamentos e os ataques ao Irão por um período de duas semanas”, escreveu o Presidente dos Estados Unidos na noite do dia 7 de abril. Horas mais tarde, Israel deixava claro que a trégua anunciada não se aplicava à frente de guerra no Líbano, ao lançar uma centena de ataques contra “alvos terroristas”, que disse terem matado 250 combatentes do Hezbollah. Israel chamou à operação “Escuridão Eterna”, mas as 357 vítimas mortais contabilizadas pelo lado das autoridades libanesas valeu-lhe outro nome: “Quarta-feira Negra”.
Os ataques do dia 8 de abril foram um “ponto de viragem” na posição da União Europeia (UE) face a Israel, ponderou um responsável europeu ao Politico. “Isto custou alguns amigos a Israel“, acrescentou ao jornal. Desde 2023 que Bruxelas se tem distanciado progressivamente de Telavive, à medida que entre os 27 a ofensiva na Faixa de Gaza passou a ser vista como cada vez mais difícil de justificar com o direito de Israel à legítima defesa. Em 2026, apesar do cessar-fogo assinado no enclave palestiniano, a relação sofreu novo golpe com a guerra no Irão — particularmente com a frente no Líbano — e as ações na Cisjordânia..
Em causa está a proximidade de Benjamin Netanyahu a Donald Trump que, ao longo do último ano, multiplicou as críticas e ataques aos aliados europeus, e a existência de um alegado “duplo padrão” na abordagem europeia a outros conflitos, como, por exemplo, a Rússia, argumentou Pasquale Ferrara, antigo diplomata italiano, ao The Guardian, apontando a falta de “medidas significativas contra Israel”. Foi neste contexto que Espanha, Irlanda e Eslovénia lideraram um esforço para concretizar uma ação concreta: a suspensão do Acordo de Associação UE-Israel.

A proposta conta com o apoio da opinião pública. Na semana passada, mais de 350 antigos responsáveis (entre ministros, diplomatas e embaixadores) da UE assinaram uma carta aberta a apoiar esta medida e mais de um milhão de cidadãos europeus assinou uma petição com a mesma exigência. Foi a iniciativa de cidadãos que mais rapidamente alcançou este número de signatários — fronteira que obriga a Comissão Europeia a olhar para o assunto. “O clima está a mudar. Basta olhar para os comentários do [chanceler alemão Friedrich] Merz e o que está a acontecer em Itália”, resumiu um outro responsável europeu ao Politico.
A mudança de posição da Alemanha e de Itália, dois dos aliados mais próximos do Executivo de Telavive, não foi, porém, suficiente para que apoiassem a suspensão do acordo, que foi discutida esta terça-feira na reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, no Luxemburgo. Ainda assim, o passo atrás de Berlim e Roma é significativo, pois permite outro tipo de ações contra Israel. Aliás, essa tentativa já tinha sido feita em fevereiro, mas, à data, enfrentou o bloqueio de Viktor Orbán, outro aliado de Netanyahu. A queda de Orbán na Hungria representa, portanto, a queda de mais um amigo de Israel, mas também uma porta de oportunidade para uma ação coordenada da UE.
Espanha, Irlanda e Eslovénia: a tentativa de suspensão do acordo de associação
“Expressamos a mais profunda preocupação com as medidas do Governo israelita […] que infringem os Direitos Humanos e violam o Direito Internacional e o Direito Internacional Humanitário”. É assim que começa a carta a Kaja Kallas, chefe da diplomacia da UE, assinada pelos ministros dos Negócios Estrangeiros de Espanha, Irlanda e Eslovénia no passado dia 18 de abril. O trio de países consolidou-se, ao longo dos últimos anos, como a voz mais crítica de Israel no bloco europeu.
Estes três países foram os primeiros Estados europeus a reconhecer o Estado da Palestina depois do 7 de Outubro, ainda em 2024. Organizaram conferências para promover a implementação da solução de dois Estados e lideraram boicotes culturais a Israel. Agora, são eles que lideram o esforço para suspender o acordo de associação. Assinado em 2000, o acordo tem um pendor político e diplomático, mas principalmente económico, ao definir Israel como parceiro preferencial do bloco europeu.
A suspensão total do acordo exige uma decisão unânime dos 27, mas Espanha, Irlanda e Eslovénia estão focados em suspender a parte comercial e económica, o que exige apenas uma maioria qualificada, ou seja, 15 dos 27 países que representem 65% da população europeia. Ora, só Alemanha, Itália e Áustria (outro dos países que se opõe à suspensão) representam mais de 36% da população europeia, o que bloqueia a decisão.
A justificação apresentada por Madrid, Dublin e Liubliana para a suspensão do acordo baseia-se no artigo 2.º. “As relações entre as duas partes, assim como as provisões do acordo, serão baseadas no respeito pelos Direitos Humanos e princípios democráticos, que guiam a sua política interna e internacional e constituem uma parte essencial deste Acordo”, lê-se nessa alínea.

Os três países argumentam, portanto, que as violações de Direitos Humanos de que acusam Israel são motivo suficiente para suspender o acordo. E, na carta a Kaja Kallas, elencam essas violações: a aprovação da pena de morte para palestinianos condenados por terrorismo, as violações de cessar-fogo na Faixa de Gaza, a violência dos colonos na Cisjordânia contra os palestinianos, que conta com a conivência do Executivo, a violação do direito à liberdade religiosa e ainda os ataques no Líbano, que destruíram infraestruturas civis.
França: bloqueado o diálogo, a preferência pela pressão económica
Espanha protagoniza aquela que é a abordagem mais crítica de Israel em toda a Europa. Mas, não sendo a diplomacia feita a preto e branco, a maior parte países coloca-se entre a dureza espanhola e a reticência alemã. Entre eles está França, cuja abordagem se distingue pela preferência pelo diálogo. Foi em linha com esta posição que Macron procurou mediar negociações entre Israel e Líbano, país com que partilha uma longa história colonial. A participação foi recusada por Israel.
“Vamos manter os franceses o mais longe possível de praticamente tudo, mas principalmente no que toca a negociações”, criticou, no passado dia 14, o embaixador israelita nos Estados Unidos, onde decorreram os diálogos. As duras declarações israelitas traduzem o retrocesso numa relação que até aqui era classificada como de “amizade”. Com a opção de diálogo bloqueada por Telavive, França procura pressionar Israel pela via económica. Esta terça-feira, França, em conjunto com a Suécia, apresentou um documento, a que o Politico teve acesso, para bloquear a importação de produtos dos colonatos na Cisjordânia e impor tarifas e sanções a essas produções.
“Todos os israelitas sabem que somos dependentes dos EUA para questões de segurança, mas não percebem que somos dependentes da União Europeia para questões económicas“, alertou Maya Sion-Tzidkiyahu ao The Guardian. “Fomos capazes de diversificar o comércio, mas a UE ainda é o bloco maior para onde exportamos e de onde importamos”, destacou a diretora do programa de relações Europa-Israel no think tank israelita Mitvim.
A relação comercial entre as duas partes representa mais de 45 mil milhões de dólares por ano, mas a economia conjunta inclui ainda a promoção do turismo e de projetos científicos conjuntos. E se é verdade que 60% das exportações israelitas para a UE já são feitas sem taxas alfandegárias ao abrigo das regras da Organização Mundial de Comércio, a restante percentagem ainda pode ser taxada, colocando um custo acrescido para Telavive, que já sustenta uma economia em tempo de guerra.
“Só se e quando Israel começar a sentir o peso das suas ações é que pode ser forçada a mudar de curso”, escrevia, em maio de 2025, Nathalie Tocci, diretora do Istituto Affari Internazionali, numa publicação de análise. À data, a revisão dos acordos comerciais com Israel e a aplicação de pressão económica já se impunha como uma das ferramentas mais úteis na caixa de Bruxelas.

Itália: a formalização de políticas de facto depois de ouvir a opinião pública
Dias depois daquilo a que o Líbano chama “Quarta-feira Negra”, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália visitou o país, onde condenou os “ataques inaceitáveis contra a população civil”. As declarações de Antonio Tajani levaram Telavive a convocar o embaixador italiano em Israel, uma ferramenta diplomática que revela o descontentamento do país anfitrião com as ações ou palavras do país representado.
No dia seguinte, a primeira-ministra Giorgia Meloni anunciou que Itália iria suspender o pacto de defesa com Israel, que deveria renovar automaticamente nessa semana. A medida é principalmente simbólica: Roma já parara de vender armas a Israel na sequência da ofensiva israelita na Faixa de Gaza e tratava-se apenas a formalização de uma política de facto, relatou uma fonte da diplomacia italiana ao jornal Haaretz. Mas a mera formalidade é relevante, dada a proximidade ideológica de Meloni quer a Netanyahu, quer a Trump — o anúncio foi, aliás, alvo de críticas do Presidente norte-americano, uma amiga com quem ficou “chocado”
Nos últimos meses, Itália recusou acompanhar os aliados europeus em condenações inequívocas de Israel, contrariando os sentimentos da opinião pública, mas especialistas em política externa italiana argumentam que, recentemente, o contexto se alterou. Arturo Varvelli, analista do think tank European Council on Foreign Relations, destacou ao Haaretz a dependência italiana do gás natural do Qatar, cuja produção e exportação foi afetada pela guerra no Irão e o facto de ser o país que mais contribui para a força da ONU no Líbano, a UNIFIL, que tem sido alvo de ataques repetidos e que já sofreu baixas — incluindo dois soldados franceses.

Mas a principal mudança é o facto de Meloni se ter tornado mais sensível à opinião pública, depois de, no mês passado, ter sofrido a sua primeira derrota política, depois do chumbo ao referendo. “Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, a política externa tornou-se um foco de preocupação para a opinião pública italiana. A razão é simples: este é um conflito com consequências geopolíticas e económicas diretas para Itália e a Europa”, sintetiza Lorenzo Castellani, historiador da Universidade Luiss, em Roma, ao The Guardian.
Alemanha: o passo tímido das sanções, limitado pela “staatsräson“
“Staatsräson” ou “razão de Estado”. O termo foi cunhado em 2008, pela chanceler Angela Merkel, para explicar a prioridade dada por Berlim à segurança e ao apoio ao Estado de Israel, ao longo dos últimos quase 80 anos, muitas vezes em detrimento de alguns interesses europeus. Se a proximidade italiana a Israel é ideológica, a proximidade alemã é histórica e atravessa espectros políticos.
Este princípio impede a Alemanha de apoiar medidas que visem diretamente o Executivo de Israel, mas não de ignorar totalmente a opinião pública. As críticas de Berlim a Telavive focam-se, por isso, na vertente humanitária e, em grande parte, nas ações de colonos israelitas na Cisjordânia. Mas até os apelos de Friedrich Merz ao respeito pelo Direito Internacional e contra a anexação da Cisjordânia por parte de Israel valeram a condenação do Executivo de Netanyahu.
“Não vamos aceitar instruções de líderes hipócritas na Europa, um continente que uma vez mais está a perder a sua consciência e capacidade de distinguir entre bem e mal”, escreveu um dos ministros de extrema-direita, Bezalel Smotrich, que fez questão de recorrer à História para atacar Berlim. “Os dias em que os alemães ditaram aos judeus onde podiam ou não viver acabaram e não vão regressar. Não nos vão forçar a viver em guetos, muito menos na nossa própria terra”, acrescentou, em resposta a Merz, que expressou “profunda preocupação” com a situação no maior território da Palestina.

Apesar da resistência às críticas israelitas, o Executivo alemão considerou “inapropriada” a suspensão do Acordo UE-Israel, que disse exigir um “diálogo crítico e construtivo” com Telavive. Pela lente de Pedro Sanchéz e dos seus aliados, a aplicação de sanções a colonos israelitas pode parecer insuficiente, mas é relevante por dois motivos. Por um lado, ilustra a distância entre posição de Merkel e Merz e revela a possibilidade de a Alemanha continuar a afastar-se de Israel e estar cada vez mais em sintonia como os parceiros europeus. Por outro lado, abre a porta a uma ação coordenada da Europa contra Israel. Se o primeiro passo for bem sucedido, será mais fácil de justificar os seguintes e contar com o apoio da Alemanha.
Hungria: o fim do veto de Orbán e a incerteza sobre a “amizade”
O “sim” de Itália e da Alemanha à aplicação de novas sanções aos colonos israelitas não é nova. Ciente desta posição concertada, a UE já tinha tentado, em fevereiro, aprovar um pacote de sanções. A sua aprovação foi bloqueada por apenas um dos 27 Estados membros: a Hungria. Dois meses depois, a Hungria sofreu o maior terramoto político entre os países mencionados, com a queda de Viktor Orbán, no poder há 16 anos.
Com a tomada de posse de Péter Magyar a aproximar-se (terá de acontecer antes do dia 12 de maio), cinco responsáveis europeus ouvidos pelo Politico dizem acreditar que as negociações serão retomadas e as sanções aprovadas sob a sua liderança. Em sentido contrário, um responsável israelita, apesar de ter reconhecido que que a queda de Orbán representa uma mudança, afirmou ao mesmo jornal que Telavive espera que Budapeste continue a ser um “amigo“. Porém, as declarações de Magyar sobre o tema apontam noutra direção.
Esta segunda-feira, o primeiro-ministro húngaro eleito admitiu que, no âmbito do processo para manter a Hungria no Tribunal Penal Internacional (TPI), Budapeste iria respeitar o mandado de captura em nome de Benjamin Netanyahu — o primeiro-ministro israelita já aceitou o convite para visitar a Hungria em outubro por ocasião dos 70 anos da revolução húngara. “Deixei isto claro com ao primeiro-ministro israelita”, declarou Péter Magyar.
Tal como as decisões dos seus pares da direita conservadores em Itália e na Alemanha, a posição de Magyar pode ser explicada com a opinião pública e não tanto com a sua ideologia. “Deve ser fácil para Magyar dizer que sim [ao pacote de sanções vetado por Orbán]”, argumentou a professora israelita Maya Sion-Tzidkiyahu. “Netanyahu está do lado errado da História na perspetiva de muitos europeus e ele é um símbolo de Orbán”, continua. Ou seja, mesmo que focado na política interna, o afastamento de Israel representa um afastamento do antigo Executivo que é benéfico para o Tisza de Magyar.
Caso a tendência na opinião pública se mantenha, é expectável que a UE continue a aumentar a pressão sobre Israel, apontam os especialistas. Contudo, tal como tem acontecido até aqui, a ação europeia deverá continuar a ser lenta, privilegiando a articulação entre os 27 e os seus aliados. Neste momento, em particular, a ação mais dura contra Israel não deverá avançar devido às negociações frágeis que decorrem quer entre Israel e o Líbano, quer entre Irão e Estados Unidos, ressalvaram oficiais europeus à imprensa internacional.
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