Oleksiy, oficial de infantaria com 37 anos, somou 343 dias consecutivos em combate numa zona florestal do leste da região de Zaporíjia. Uma missão que deveria durar apenas alguns meses tornou-se num caso que expõe as dificuldades crescentes de Kiev em manter tropas na linha da frente ao fim de mais de quatro anos de guerra contra Moscovo.
A decisão de se manter durante quase um ano na linha da frente foi voluntária. “A minha companhia está subdimensionada, tal como todas as outras, e dos que cá estão cerca de metade tem mais de 50 anos”, explicou Oleksiy à CNN Internacional.
O cenário de guerra ucraniano tornou, assim, impraticável o modelo de rotação previsto de um mês em combate seguido de outro em descanso numa aldeia da linha da frente. “Isto é completamente irrealista devido à falta de homens”, afirmou, sublinhando que na sua unidade o habitual são períodos de três a quatro meses em missão.
O prolongamento destas missões também depende da função de cada um. A infantaria, que é exposta diretamente ao combate, permanece mais tempo do que quem realiza funções ligadas a tecnologia. Os operadores de drones de reconhecimento podem ficar apenas três a quatro dias em posição, enquanto pilotos de drones que operam mais próximos da linha da frente estão na missão durante cerca de uma semana.
“Quanto mais longe da linha da frente, mais curta é a missão de combate“, afirmou o major Yaroslav Halas, oficial do 3.º Batalhão de Assalto de Montanha da 128.ª Brigada de Assalto de Montanha, à CNN.
A escassez de militares tem sido apontada por vários responsáveis militares como um dos principais desafios do exército ucraniano, que enfrenta as forças russas numericamente superiores. Para compensar, Kiev tem reforçado o uso de tecnologia no campo de batalha, com destaque para drones e robôs terrestres operados à distância.
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Prioridade é reduzir baixas e manter contacto com família
No terreno, Oleksiy descreveu um cenário de pressão constante, com ataques frequentes e limitações operacionais agravadas pelo mau tempo, que pode impedir a utilização de meios tecnológicos ucranianos. Como comandante, disse que a prioridade é reduzir baixas, ainda que admita que, na prática, isso nem sempre seja possível.
“Vejo o meu principal papel como comandante em minimizar as perdas de pessoal. Idealmente, não deveria haver nenhuma, mas na guerra e na infantaria isso é infelizmente impossível”, afirmou, garantindo que a sua motivação é a família. “Quanto à minha motivação pessoal, não quero que a minha família, a minha filha, veja o que eu vejo: explosões, mísseis a cair, aldeias destruídas, morte. É por isso que estou aqui”, explicou.
Conhecido pelo nome de guerra “Botanik”, uma referência ao seu ar intelectual e ao uso de óculos, Oleksiy licenciou-se em biologia pela Universidade Nacional Karazin de Kharkiv antes de integrar as forças armadas após a invasão russa em 2022. Tal como ele, a maioria dos elementos da sua unidade são antigos civis ou reservistas mobilizados já durante a guerra.
Ao longo destes meses, tentou apoiar a sua equipa ao máximo, garantido que todos tivessem contacto regular com as famílias. “Certifiquei-me de que todos tinham oportunidade de contactar com as suas famílias todos os dias. Isso ajuda muito”, contou à CNN.
“Quando houve a falha do Starlink na linha da frente em fevereiro, os nossos terminais também não estavam a funcionar, por isso contactávamos os soldados via rádio e transmitíamos a mensagem às famílias por telefone. Sei por experiência própria o quão importante isso é. Tento falar com a minha filha todos os dias“, explicou.
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O oficial, que teve agora cerca de um mês de descanso, disse ao mesmo jornal que celebrou o 10.º aniversário da filha e ensinou-a a andar de bicicleta. Depois, regressou à sua unidade e à linha da frente ucraniana.
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