Victoria Bonya, celebridade com grande influência na Rússia, tornou-se a cara da mais recente polémica a afetar Vladimir Putin e a sua governação após partilhar um vídeo onde se queixa das políticas que tem tomado e do rumo que o país tem seguido. O ato já valeu uma reação oficial do Kremlin e levou um conhecido apresentador de televisão a atacá-la em direto, classificando-a como uma “meretriz” e uma “agente estrangeira”.
O caso teve início a 14 de abril, quando Bonya — uma conhecida modelo e influencer de 46 anos que se tornou afamada por ter feito parte do reality show russo Dom-2 em 2006 —, a viver no Mónaco, partilhou um vídeo de 18 minutos intitulado “Apelo a Vladimir Vladimirovich Putin. Em nome de todos os russos que se preocupam com o seu país” na sua conta de Instagram, que tem mais de 13 milhões de seguidores.
???? | The Kremlin has commented on a video statement directed at Vladimir Putin by popular blogger and TV host Victoria Bonya, in which she calls on him to address a series of problems she says Russian authorities are failing to respond to.
???? | https://t.co/T8TfVIk5Qt pic.twitter.com/eUZnF3Ax4C
— Novaya Gazeta Europe (@novayagazeta_en) April 16, 2026
Nessa mensagem, a modelo dirige-se diretamente ao presidente russo pelo primeiro nome, alertando-o para a forma como é visto pelos seus cidadãos. “Vladimir Vladimirovich, o povo tem medo de si, os bloggers têm medo de si, os artistas têm medo de si, os governadores têm medo de si. E o senhor é o Presidente do nosso país”, afirmou, ressalvando não ter medo de Putin e querer quebrar “uma parede grossa” edificada entre si e os russos.
Bonya tem o cuidado neste vídeo de não opor-se diretamente a Putin — aliás, realça que o apoia a ele e “aos rapazes” na linha da frente na Ucrânia —, mas aproveita para elencar uma série de problemas a afetar o país, desde a alegada resposta lenta do Estado às inundações na região do Daguestão às restrições cada vez mais severas ao uso da internet e ao acesso às redes sociais. “Há uma sensação de que já não vivemos num país livre”, avisou. “Sabe qual é o risco? Que as pessoas deixem de ter medo, que estejam a ser comprimidas como uma mola e que, um dia, essa mola dispare”, continuou.
Ainda que a influencer deixe claro que considera que o problema está nas pessoas que rodeiam Putin e não no próprio — chegando mesmo a insinuar que o Presidente russo vive isolado e sem acesso à internet —, o vídeo foi encarado como uma crítica de rara coragem à governação em Moscovo nos mais de 84 mil comentários que recebeu. De acordo com a Reuters, conta também com mais de 30 milhões de visualizações, e foi publicado numa fase em que os índices de aprovação de Putin e do governo têm estado em queda, quando se avizinham eleições legislativas em setembro.
Ao contrário do que é habitual, o Kremlin não só reagiu com relativa rapidez, como optou por reconhecer publicamente as críticas feitas por Bonya. “Claro que já vimos o vídeo, é bastante popular”, respondeu o porta-voz do governo, Dmitry Peskov, quando confrontado com o tema num briefing a 16 de abril. Peskov, todavia, tentou minimizar a contestação, considerando que “está a ser feito um grande trabalho” quanto aos “muitos temas” abordados pelo vídeo, escreve a Reuters.
No entanto, se Peskov tentou ser diplomático quanto ao assunto quando confrontado com o mesmo, nos bastidores o Kremlin “solicitou veementemente” aos meios de comunicação leais do governo que “não aprofundassem o tema do apelo de Bonya”, escreve o jornal independente russo Meduza. Nessa mesma notícia é referido que a única exceção a esta tentativa de bloqueio tinha sido justamente a resposta de Peskov quando instado a comentar o vídeo.
Da parte de Bonya, a influencer pareceu contentar-se com a resposta do Kremlin, revelando em vídeos subsequentes que tinha rejeitado dar entrevistas a meios de comunicação independentes — e, por isso, opositores a Putin. “Amo o meu país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou nenhuma figura da oposição”, avisou.
Num dos vídeos, de lágrimas nos olhos, agradeceu a Peskov e a Putin por terem em conta as suas críticas, voltando a pedir aos meios da oposição para não instrumentalizarem os seus vídeos. “Por favor, não me arrastem para isso — não estou do vosso lado, estou do lado do povo, estou no seio do povo”, afirmou. Mais inquietante, porém, foi quando assumiu que não será qual vai ser o seu futuro depois destas declarações, mas que “valeram a pena”.
O segundo round: Bonya vs. Solovyov
Após o primeiro vídeo de Bonya, outras figuras de influência na sociedade russa — mas também a morar fora do país — alinharam pelo mesmo discurso, como a cantora e influencer Aiza. No entanto, tal como a modelo de 46 anos, estes vídeos têm-se focado em não atacar Putin diretamente nem em demonstrar oposição à guerra na Ucrânia, visando antes supostos funcionários corruptos e com agendas próprias que têm estado a enganar o presidente.
Como sinaliza o The Guardian, a situação faz recordar a estratégia “bom czar, maus boiardos”, já empregue anteriormente pela governação de Putin e que teve origem no Império Russo, sendo também utilizada pela União Soviética: “apresentar Putin como o ‘bom czar’ mantido na ignorância por funcionários desonestos”. Desta forma, o Presidente consegue desviar a culpa pelos problemas do país para os seus subordinados e preservar capital político.
Essa foi a tese também explicada num artigo de opinião publicado pelo The Moscow Times, sugerindo a hipótese de uma série de críticas coordenadas por Moscovo para sinalizar que as queixas da população estão a ser ouvidas antes das eleições legislativas.
“Especialistas, jornalistas e o público em geral atropelam-se para explicar o que está a acontecer. Alguns falam de um jogo nos bastidores entre as elites do Kremlin, que se cansaram de Putin. Outros afirmam que se trata de uma tentativa da administração de Putin de canalizar a ira popular, jogando a conhecida carta dos ‘boiardos maus’ e do ‘czar bom’. Um terceiro grupo acredita que foi uma iniciativa da própria Bonya. Um quarto grupo culpa o Ocidente por tudo, acusando-o de agitar as águas, e chama a Bonya de «nova Navalny», acusando-a de tentar encenar uma Revolução de Maidan na Rússia“, lê-se, com o artigo logo de seguida ressalvando que “todas estas hipóteses são más para Putin, pois indicam uma irritação crescente não apenas em grupos sociais específicos, mas em todo o país”.
Ouvidos pelo The Guardian, alguns analistas políticos consideram improvável a tese da coordenação, apontando antes que reflete o “descontentamento latente em todo o país”. “O cansaço da guerra está realmente a começar a instalar-se. As pessoas estão a começar a perceber que tudo o que está a acontecer é uma consequência da guerra”, afirmou o cientista político Andrei Kolesnikov ao jornal britânico.
Outro exemplo que enfraquece a tese de uma eventual ação planeada prende-se com o ataque virulento que o apresentador Vladimir Solovyov fez a Bonya em direto no seu programa emitido na televisão estatal russa, noticia a Reuters. Conhecido por ser um propagandista do Kremlin, Solovyov questionou-se porque é que Bonya ainda não foi designada uma “agente estrangeira”, termo que vêm da era soviética usado para conotar alguém negativamente como sendo um espião ao serviço do Ocidente.
Além de pedir às autoridades russas para verificarem se o vídeo de Bonya tinha infringido alguma lei, o apresentador passou os seus ataques à esfera pessoal, afirmando que “não cabe a esta meretriz desgastada abrir a sua boca suja e entupir o espaço informativo”.
Bonya, entretanto, ripostou, prometendo recorrer à justiça, equacionando uma ação judicial para que Solovyov e outros propagandistas que a atacaram, como Artemy Lebedev e Vitaly Milonov, sejam retirados do ar. Além disso, recorrendo do mesmo arsenal do apresentador, pediu que às autoridades para verificarem se a linguagem que Solovyov utiliza nas suas transmissões também é passível de violar a lei.
I didn’t expect that the new “Prigozhin” would turn out to be a Russian Instagram blogger like Victoria Bonya…
But in any case, it’s a rather amusing situation. And actually, it’s more serious than Prigozhin’s prisoners. Haha.
Victoria Bonya called Russian propagandists… https://t.co/xVQF1DdlSY pic.twitter.com/Til9nK2dfR
— Anton Gerashchenko (@Gerashchenko_en) April 19, 2026
Rejeitando ter ligações ocidentais, a modelo não só classificou Solovyov como um “inimigo do povo”, como visou o tipo de linguagem que o apresentador usou para insultá-la. “Quero fazer uma pergunta a todas nós, mulheres: quando é que passámos a aceitar que sejamos insultadas nos canais de televisão federais?”, questionou. “Há muitas mães que criam os filhos sozinhas. Ao insultar-me, insulta-as a todas”, declarou, dizendo-se cansada de que mães como ela — a criar a filha de 14 anos sozinha após divorciar-se do empresário irlandês Alex Smurfit — sejam encaradas como prostitutas ou acompanhantes.
“Acredito que nós, mulheres — especialmente as mulheres ‘mais velhas’, aquelas com 46 anos ou mais, como eu — temos de defender os nossos direitos. Temos de ensinar estes palhaços — na verdade, ‘palhaços’ é uma boa palavra, não é ofensiva, mas diz tudo — a comportarem-se com dignidade. E se querem um diálogo, sejam quem forem, então participem num diálogo adequado. Se não sabem como dialogar, então não têm lugar num canal federal, na Duma, nem em mais lado nenhum”, concluiu.
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
