Praticamente todos os portugueses (95%) têm uma noção do que é Inteligência Artificial (IA) e dois em cada três (67%) já a usaram, revela um estudo da consultora McKinsey que inquiriu mais de três mil pessoas no país. O estudo concluiu, também, que entre os portugueses que utilizam ferramentas de IA, cerca de 60% já as usam para gerir as suas finanças pessoais, para comparar diferentes produtos oferecidos pelos bancos ou para obter conselhos sobre onde devem investir – o que comporta “riscos”, alerta a consultora.
Este é um estudo global feito pela McKinsey & Company que, a pedido do Observador, partilhou conclusões relativas ao mercado português que mostram que a IA generativa já está a influenciar decisões bancárias e financeiras relevantes no país. Os portugueses, aliás, “destacam-se” entre os diferentes países analisados pelo “elevado nível de conhecimento, experimentação e utilização efetiva” destas tecnologias, de acordo com a consultora.
A percentagem de portugueses que utilizam a IA, como seria de esperar, é maior nas gerações mais jovens. Cerca de 75% dos millennials (habitualmente definidos como aqueles nascidos entre 1981 e 1996) e 80% na chamada geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) usam-na pelo menos algumas vezes por semana.
E o estudo revela que os serviços financeiros já são um dos principais casos de uso das ferramentas de IA, onde se incluem, entre os mais usados, o ChatGPT (da norte-americana OpenAI) e o Gemini (da Google/Alphabet). Cerca de 60% dos utilizadores de IA costumam recorrer a essas soluções para que estas os ajudem em tarefas ou decisões financeiras – e 27% fazem-no, pelo menos, uma ou duas vezes por mês.
Isto demonstra, diz a McKinsey, que “a IA generativa está a passar de uma ferramenta pontual para um apoio recorrente na gestão das finanças pessoais dos portugueses”. Ao Observador, Benjamim Vieira, sócio sénior da consultora, considera que “os dados disponíveis para Portugal sugerem, de forma consistente, que a IA já está a influenciar o comportamento dos consumidores em fases muito relevantes do processo de decisão, nomeadamente na pesquisa, comparação e escolha de produtos financeiros“.
“Oportunidade” para os bancos. “Ferramentas externas” trazem “riscos”
Onde devo investir (ou como devo poupar)? Qual é a diferença entre o produto financeiro x e y? Qual destas propostas de crédito é mais vantajosa para mim? É este o tipo de perguntas que os portugueses mais fazem às plataformas de IA, sendo que entre aqueles utilizadores de IA que abriram uma nova conta bancária nos últimos dois anos, um em cada cinco perguntou ao ChatGPT ou outra ferramenta em que banco deveria abrir essa conta.
“O que estamos a observar não é apenas um aumento da adoção, mas uma mudança no comportamento, com os consumidores a recorrerem à IA para se informarem melhor, compararem alternativas e apoiarem decisões financeiras cada vez mais relevantes”, afirma Benjamim Vieira. Porém, o estudo comprova que as pessoas tendem a preferir aconselhar-se junto de “ferramentas externas”, como as tais apps de IA (ChatGPT, Gemini e outras) – é o caso de 80% dos inquiridos no estudo.
“Apenas 22% dos utilizadores usam soluções de IA dos próprios bancos, o que evidencia uma oportunidade clara para os bancos reforçarem a sua proposta de valor nesta área”, afirma o especialista da McKinsey, que participou no estudo global que se intitula Global Banking Annual Review 2025: Why precision, not heft, defines the future of banking. Quase todos (88%) os inquiridos afirmaram que as funcionalidades de IA irão pesar na escolha dos bancos com quem vão trabalhar no futuro.
No entanto, o facto de, nesta fase, a maior parte da utilização ser feita através dessas apps externas traz algumas preocupações, salienta Benjamim Vieira. “No caso de ferramentas externas, é importante reconhecer que, apesar de a tecnologia ter um potencial muito relevante para melhorar a experiência (aumentando a velocidade, a conveniência e, quando bem aplicada, a qualidade das interações), existem também alguns riscos“.
“Em particular, nas soluções multipropósito que não foram desenhadas especificamente para serviços financeiros, podem surgir riscos adicionais quando são utilizadas para apoiar decisões mais sensíveis”, salienta o sócio da McKinsey, contrapondo que, “no caso de soluções de IA desenvolvidas pelos próprios bancos, como estas representam as próprias instituições, existe uma responsabilidade implícita em garantir elevados padrões de qualidade, fiabilidade e controlo”, o que “implica treinar e monitorizar os modelos de forma contínua para reduzir ao mínimo fenómenos como erros ou respostas inadequadas”.
Benjamim Vieira afirma que “para os bancos, isto representa uma mudança estrutural nas expectativas e necessidades dos seus clientes”. “Já não basta disponibilizar apenas canais digitais com interfaces modernas e disponíveis 24 horas/7 dias – é necessário integrar a IA nos momentos críticos das interações entre o cliente e o banco, garantindo experiências mais personalizadas, produtivas e fiáveis”, afirma o especialista, acrescentando que “ao mesmo tempo, a confiança, a proteção de dados e a qualidade das recomendações tornam‑se fatores diferenciadores” entre os diferentes bancos.
Os bancos que mais se destacam em Portugal na adoção da IA
O estudo da McKinsey revela que “algumas instituições começam a destacar‑se positivamente na adoção e utilização de IA generativa pelos seus clientes”, acrescentando-se que “os bancos com uma proposta digital mais avançada e focada na experiência do utilizador registam níveis particularmente elevados de familiaridade e uso regular de IA, refletindo uma maior predisposição dos seus clientes para integrar estas ferramentas na gestão financeira do dia a dia”.
“Entre estes, destacam-se o ActivoBank, o Santander, a Caixa Geral de Depósitos, o NovoBanco e o Millennium BCP, todos com 67% ou mais dos seus clientes a utilizar IA Generativa regularmente”.
A consultora nota, também, que “no ecossistema fintech, plataformas com forte componente tecnológica evidenciam níveis elevados de utilização recorrente, confirmando que a combinação entre simplicidade, conveniência e inovação é determinante para acelerar a adoção”.
“Estes exemplos ilustram como a aposta consistente em capacidades digitais pode traduzir‑se numa relação mais próxima e relevante com os clientes, sem prejuízo do papel central da banca tradicional“, afirma a consultora.
A realidade atual, porém, é que a maior parte das pessoas prefere usar soluções externas cujos vieses nem sempre são transparentes – e nem sempre os utilizadores têm plena capacidade de os usar corretamente e saber que eles podem cometer erros. “O que é importante é que os clientes entendam que as proteções típicas existentes no setor financeiro não se aplicam diretamente a ferramentas externas“, afirma Benjamim Vieira.
Apesar do crescimento rápido da utilização destas ferramentas entre os portugueses, o sócio sénior da McKinsey não considera urgente lançar-se uma regulação mais apertada deste espaço. “Regular ou não regular depende de cada país ou jurisdição”, afirma, acrescentando que “não existe um modelo perfeito: alguns adotam abordagens ex ante e definem princípios orientadores, enquanto outros seguem uma lógica ex post e regulam à medida que vão surgindo desafios, facilitando o lançamento de novas soluções”.
“Estamos numa fase muito inicial desta disrupção, pelo que é difícil saber qual a melhor estratégia” ao nível da regulação, considera o sócio sénior da consultora que é uma das maiores e mais influentes consultoras de gestão do mundo.
O que parece certo, aos olhos de Benjamim Vieira, é que “a próxima curva de crescimento da banca não será liderada por escala ou volume, mas por precisão na atuação” em áreas como a adoção destas tecnologias. “Com a IA, mesmo bancos de menor dimensão poderão capturar valor significativo se conseguirem aplicar esta lógica de forma consistente”, diz o especialista.
Já os bancos de maior dimensão, os atuais incumbentes, terão de apostar nestas áreas porque a utilização generalizada de ferramentas de IA leva a uma “maior transparência, maior facilidade de comparação e menor inércia na escolha de produtos financeiros“. Por outras palavras, porque a IA dá aos clientes um acesso mais facilitado à comparação entre propostas diferentes, seja em investimentos ou poupanças seja em créditos, isso pode gerar uma maior propensão para os clientes mudarem de banco.
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
