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Francisco: a ternura que o mundo perdeu

O facto de há um ano termos perdido o seu gesto concreto no meio de nós, fez com que tenhamos ganho uma consciência mais clara da sua necessidade no mundo.

João Pedro Palma
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Há datas que simplesmente não passam. E não porque o mundo pare, mas simplesmente porque alguma coisa dentro de nós, do nosso interior, decide não seguir em frente, com a mesma leveza, como se o próprio coração se ajustasse para dar espaço ao que vivemos enquanto companheiros e filhos de um mesmo Deus.

Francisco não foi apenas um Papa. Foi uma espécie de interrupção. Fez com que nós, meros mortais, conseguíssemos, durante o seu pontificado, sair do nosso tempo para entrar no tempo de Deus. Num mundo acostumado ao ruído e à pressa, bem como às certezas absolutas gritadas, apareceu do fim do mundo, alguém de gestos e trato simples, palavras desarmadas e uma insistência teimosa na ternura. Foi essa a sua revolução.

Recordemos como falava: não como quem olha e ensina a partir de cima, mas como quem caminha ao lado. Parece estranho, mas agia com um algo de qualquer coisa profundamente humana, sobrenaturalmente humana. Olhava para todos, para os outros, os migrantes, os pobres, os esquecidos, e todos nós, os feridos. A todos tratava não como temas, mas como pessoas.

Paradoxalmente, o facto de há um ano termos perdido o seu gesto concreto no meio de nós, fez com que tenhamos ganho uma consciência mais clara da sua necessidade no mundo. Passado este tempo, o mundo continua irrequieto e estranho. As guerras continuam, as divisões políticas aparentam ser mais extremas e a pressa de resolver tudo com base na lei do mais forte continua a parecer vingar. No entanto é exatamente por isso que a memória de Francisco resiste: porque nunca ofereceu uma solução rápida e simples, mas oferecia sim um modo de olhar.

Se é possível que se considere Francisco um simples homem, e se o seu tempo puder ser mensurável pelo que deixou e fez no mundo, então a medida será a da humildade e a da coragem de ser manso num mundo agressivo.

Que hoje não seja apenas o aniversário da sua morte, mas mais uma lembrança e um exame àquilo que fazemos, hoje, com todo o legado que nos deixou. É certo, que a sua ausência não empobrece, mas une-nos, e convoca-nos enquanto humanidade. Não há lugar a um espaço vazio, mas a um desafio constante: o de não nos limitarmos àquilo que Francisco foi, mas sim àquilo que nos continua a pedir, pela sua memória, que discretamente sejamos.

Francisco, o seu legado, e a sua vida, agora eterna, deixou de ser um rosto, para se transformar na nossa possibilidade de todos os dias, reinventarmos o mundo, com a noção de que o seu desaparecimento é hoje para nós não só ausência, mas acima de tudo responsabilidade.