Num período em que assiste a uma regressão da liberdade de expressão em inúmeros países e a um controlo apertado dos fluxos de informação por atores políticos e agentes corporativos, trabalhar nos media, e no jornalismo em particular, é cada vez mais uma expressão de coragem.
De acordo com o relatório recente da organização Repórteres sem Fronteiras, nos últimos dozes meses foram assassinados 67 jornalistas, 20 foram feitos reféns de grupos terroristas, pelo menos 135 encontravam-se desaparecidos, e mais de 500 estavam presos. Paralelamente, tem-se assistido a um aumento exponencial das ameaças contra profissionais da informação mesmo fora de cenários de guerra, verificando-se igualmente um aumento dos ataques contra jornalistas e outros profissionais dos media no contexto da cobertura de protestos públicos, nomeadamente em vários países europeus e nos Estados Unidos.
Este cenário de risco crescente para quem procura relatar acontecimentos existe a par, mas não desligado, de um ecossistema informacional marcado pela circulação de informação falsa que contribui, de forma muito efetiva, para a polarização da opinião pública. A desinformação, além de propiciar a violência contra os profissionais da informação, está também a alterar os próprios fundamentos do jornalismo. Tradicionalmente responsável por relatar acontecimentos de interesse público e pelo escrutínio daqueles que exercem funções com impacto na sociedade e na economia, hoje o jornalismo tem uma nova função: verificar a veracidade da informação que circula online e que visa persuadir os cidadãos a tomar decisões que beneficiem grupos de interesse que nem sempre são declarados.
Numa época em que uma percentagem crescente dos conteúdos que circulam nos media sociais são falsos, muitos partilhados por bots que simulam o comportamento humano, uma das questões que merece ser discutida é se e como o jornalismo pode ajudar as sociedades contemporâneas a navegar um ecossistema informacional em que a mentira circula mais depressa do que a informação baseada em factos. Tendo em conta os avultados investimentos que Estados, grupos terroristas e grupos económicos realizam na desinformação, como poderão os meios de comunicação ajudar os cidadãos a distinguir acontecimentos factuais de histórias falsas que visam manipular? Esta é uma das questões que foi discutida na edição deste ano da Lisbon Winter School for the Study of Communication que juntou cerca de uma centena de investigadores para debater o tema “Media e Coragem”.
Tradicionalmente considerada uma qualidade essencial para quem trabalha nos media em regimes ditatoriais, a coragem está hoje a emergir como essencial na prática jornalística em países democráticos em que o combate à desinformação acarreta cada vez mais riscos. Igual coragem é necessária para repensar alguns dos padrões internos do próprio jornalismo que o descredibilizam junto dos cidadãos, a começar pelo foco excessivo na informação fornecida por fontes institucionais e pela menor atenção às questões que mais preocupam as comunidades. A superação dos desafios exógenos e endógenos que se colocam ao jornalismo é essencial à sua própria sobrevivência, mas também à sobrevivência da democracia.