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De Madonna a Ronaldo, o blusão glam rock que marcou meados dos anos 2000

Testemunha do estilo "indie sleaze", o blusão que Frida Giannini desenhou para a Gucci marcou uma era, foi preferido de Ronaldo, e resgatado (e agora perdido) por Madonna.

Maria Ramos Silva
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Foi a 31 de janeiro de 2006 que o nome da responsável pelos acessórios e pronto a vestir feminino se projetava em definitivo no seio da Gucci. Frida Giannini assumia as rédeas da direção criativa completa da casa de moda italiana, liderando também o departamento masculino, concentrando as funções outrora desempenhadas por John Ray e Alessandra Facchinetti, que não sobrevivera às reviews pouco auspiciosas. É um facto que o seu consulado, que se estendeu até 2014, não conseguiria ombrear com a anterior liderança de Tom Ford, mas Giannini traçou uma fronteira que hoje adquire gosto de nostalgia vintage. Uma das suas criações mais populares volta a ser assunto numa semana que assinala também o regresso de Madonna. No passado fim de semana, no palco do Coachella, vinte anos depois da última atuação no mesmo festival, a rainha do Pop resgatou o biker Gucci roxo outrora lançado no âmbito da coleção Resort que antecipava 2007.

Depois desse momento ao lado de Sabrina Carpenter, o look usado terá sido visto pela última vez num carrinho de golfe — e desaparecido em combate. Justamente rebatizado “blusão Madonna” (que oferece agora uma recompensa pelo resgate do estimado visual), marcaria as suas atuações nessa era, nos primeiros anos do novo milénio, e seria adotado por outros cultores do estilo, como um então jovem Cristiano Ronaldo. Fã confesso da marca Gucci, o futebolista tem acompanhado os lançamentos e tendências, e se hoje abraça versões contemporâneas do célebre monograma, os anos 2010’s foram pródigos no uso do cinto com as iniciais e, claro, do bomber — o capitão português surgiu em público por várias vezes com diferentes tons do mesmo blusão. Aliás, a obsessão de Giannini em gravar o logotipo “GG” em couro definiu boa parte das suas linhas de acessórios.

Giannini projetou este modelo de blusão para Madonna usar na digressão e promoção de 2006, na sequência do lançamento no ano anterior de “Confessions on the Dancefloor”. A vibração militar, os cós de malha, os fechos verticais, e a multiplicidade de cores, foram-se intrometendo em diferentes apresentações nessa fase, mas na verdade o espírito do cabedal já se manifestara na coleção Fall 2006, quando Raquel Zimmermann desfilou na passerelle com um blusão croco roxo. A manequim iluminava essa estética ao mesmo tempo romântica e boémia, que haveria de posicionar a marca como uma das mais solicitadas nos 2000’s. O modelo popularizou-se num contexto que ficou conhecido como indie sleaze: um nicho na moda, pouco polido, que marcou o intervalo de 2006 a 2012, numa espécie de caos reativo ao hedonismo da cultura McBling, com uma energia indie rock por trás. A peça ganhou inúmeras versões entre as grandes cadeias de consumo rápido, e atualmente pode ser um bom motivo de busca para garimpeiros de raridades vintage. Às ominipresentes cores preto e castanho, somam-se alternativas mais vibrantes, como o encarnado tijolo, amarelo, ou o cor de rosa.

Além da presença no Coachella, Madonna foi ao baú buscar ainda outra peça para compor o guarda-roupa de 2026, desta vez uma versão em prateado do mesmo modelo, que a cantora usou em 2005 numa aparição na TV alemã. Para uma estética tão descontraída como futurista, manifesta-se agora no álbum que há-de chegar ao mercado no próximo dia 3 de julho. “Sempre cool, obrigada”, saudou a designer da peça, que destacou este momento de puro revivalismo nas suas redes sociais.

Fã do glam rock dos anos 70, e de imagens marcantes como a de David Bowie e do seu Ziggy Stardust, Frida (escolhida a dedo por Tom Ford em 2002 e que continuou a sua carreira na casa com 24 anos) cortou a direito com o grande arco minimalista desenhado pelo antecessor entre 1995 e 2004. Explorou os arquivos Gucci ao ritmo do maximalismo daquela década, um chão perfeito para o álbum Confessions on a Dance Floor, de Madonna, mas também para um mercado mais jovem, ávido de propostas comerciais. Vinda da Fendi, e inicialmente ao leme dos acessórios em pele da casa, Giannini operou uma transformação visível no famoso padrão floral da marca, criado para Grace Kelly em 1966, projetando uma visão de futuro. Que a pele se revele em toda a força nos blusões que haveriam de fazer escola não é por acaso. De resto, a designer modernizou outros staples como a carteira associada a Jacky Kennedy. Em 2009 surgia a The New Jacky, com borlas mais compridas e texturas variadas e luxuosas, tornando-o um item obrigatório desta época. Um ano mais tarde, a The New Bamboo revitalizava o clássico de 1947, frequentemente apresentado em cores inesperadas e vibrantes.

Ao longo da sua direção, estrelas do cinema como James Franco e Claire Danes ficaram associados a campanhas publicitárias, com Frida a lançar talento emergente como Rihanna e Marc Ronson, e rostos da música como Florence Welch, do grupo Florence and The Machine, personificaram a mulher Gucci daquele tempo.

Mas da mesma forma que Ford resgatou a etiqueta desse prenúncio de bancarrota no começo dos anos 90, também a Gucci haveria de enfrentar a ascensão da tendência “normcore”, apostada em roupas despretensiosas, que enfatizavam o conforto sobre etiquetas de luxo (ao mesmo tempo, por outro lado, que a estética Kardashian somava e seguia). Em 2014, os números destapavam a inevitável queda de Frida, com as vendas da Gucci a acusarem menos 3,5 por cento face a anos anteriores e baixos desempenhos desde 2009, pelo que François-Henri Pinault, do grupo Kering, mostraria a porta de saída a Giannini e ao seu marido, o CEO Patrizio di Marco, que com ela formava um dos power couples do setor daquele tempo.