É uma entrevista diferente, que tem um propósito diferente e onde até o título é diferente. A conversa de Lando Norris com o jornal The Guardian, onde o piloto britânico fala sobre a alegria da conquista do Campeonato do Mundo de Fórmula 1 e os desafios da nova temporada, acabou como uma crítica do jornalista ao entorno do atleta — ou à forma como este é controlado por esse mesmo entorno.
Começando pelo título, o experiente jornalista Donald McRae escolheu uma frase de Lando Norris que não é uma resposta a uma pergunta. “I’m not the boss”, algo como não sou eu que mando, a frase que Lando Norris disparou quando foi impedido pelo assessor de comunicação de responder a uma pergunta sobre as polémicas mudanças nos regulamentos da Fórmula 1 na atual temporada. De acordo com o jornalista, Lando insistiu, disse que podia responder, até questionou o porquê de não o poder fazer, mas sem sucesso. “I’m not the boss”, não sou eu que mando, repetiu.
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“No fim da entrevista apertei a mão do Lando e agradeci-lhe pelo tempo. Quando ele saiu, dirigi-me ao assessor. Apontei para o meu cabelo branco, como um sinal de que faço entrevistas a atletas famosos há muito tempo. Vale o que vale, disse-lhe, mas acho que ele e a restante equipa estão a fazer um mau serviço ao Norris. Apertei-lhe a mão e saí. A angústia que senti está menos relacionada com a minha entrevista curta do que o com o preocupante facto de um admirável campeão do mundo estar a ser policiado desta maneira”, escreveu Donald McRae.
Antes do diferendo que encurtou a entrevista, contudo, ainda houve tempo para algumas respostas — incluindo sobre o facto de o piloto britânico ter sido distinguido com o Laureus World Breakthrough of the Year, o troféu que premeia jovens atletas em ascensão e que anteriormente já foi entregue a Lewis Hamilton, Rafael Nadal ou Jude Bellingham. “Qualquer oportunidade de estar com outros campeões de outras modalidades é incrível”, começou por referir Lando Norris, antes de elaborar sobre a insegurança que já tantas vezes abordou.
“Eu nunca sonhei com nada disto quando era miúdo. Algumas pessoas sabem logo que vão ser grandes campeões quando ainda são crianças, mas o meu ‘mindset’ nunca foi esse. Nunca pensei ‘vou fazer isto’, sempre pensei ‘será que consigo, será que posso?’. Portanto, isto não é apenas um troféu. É a realização de que o meu nome está ao lado de pessoas incríveis. É como se pudesse estar no mundo deles e isso é uma coisa muito bonita”, explicou.
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Aos 26 anos, Lando Norris já falou abertamente sobre a depressão que já teve e o síndrome de impostor que continua a ter e as “dúvidas” que o assolaram no início da carreira. “Pensava muito sobre se merecia estar aqui, sobre o porquê de não ser tão bom como os outros, sentia que estava a desperdiçar o tempo das pessoas… Sofri muito”, reconheceu, congratulando-se por ter agora uma plataforma que lhe permite falar sobre saúde mental, algo que “a longo prazo significa mais do que ganhar um Campeonato do Mundo”.
Na temporada passada, em que acabou por sagrar-se campeão do mundo de Fórmula 1, o piloto britânico chegou mesmo a falar com outros atletas sobre todas as incertezas. “Com atletas de topo, alguns dos melhores do mundo. Falei com eles sobre as minhas dificuldades e perguntei o que é que eles faziam nessas alturas. Como é que bloqueiam o ruído e são eles próprios no ‘court’ de ténis ou no campo de golfe ou seja o que for”, explica, recusando-se a identificar as “pessoas incríveis que alcançaram muito em várias modalidades”.
“Precisei de ajuda principalmente no início, naquela parte inicial da temporada em que as coisas não estavam a resultar e não estava muito confortável com o carro. Era rápido e bom o suficiente para ganhar corridas, mas não estava a conseguir compreendê-lo para mim. E eu sou assim, preciso de ajuda de pessoas diferentes. Mas a dada altura tens de sair e ser tu a fazer o trabalho. E o ano passado tornou-se muito especial porque só existem 35 campeões mundiais de Fórmula 1 e é muito incrível ter sido adicionado a essa lista”, acrescentou.
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Antes de a conversa ser travada pela equipa do britânico, Lando Norris ainda teve tempo para reconhecer que o início da temporada está a ser difícil — está no quinto lugar do Mundial, ficou precisamente em quinto tanto na Austrália como no Japão e nem sequer terminou a corrida na China. “Tem sido um início difícil. É o preço a pagar por ser campeão do mundo e colocar todos os ovos no mesmo cesto. Mas agora temos de trabalhar nos desenvolvimentos e nas melhorias do carro, já que não há corridas”, atirou, referindo-se ao facto de a Fórmula 1 estar parada depois do cancelamento das etapas no Bahrain e na Arábia Saudita devido à guerra no Médio Oriente.
“Não sei se vamos melhorar já ou se vai demorar meses. É muito difícil dizer porque nunca sabemos quando é que os outros também vão melhorar. Já desisti de tentar adivinhar o que vai acontecer na Fórmula 1. Mas estamos confiantes no facto de termos um carro muito mais competitivo no próximo mês”, disse, numa entrevista que decorreu antes de a Fórmula 1 anunciar algumas mudanças na revolução imposta aos regulamentos no início da temporada.