Era noite de Ano Novo e o clima era de festa. O incêndio que assolou o bar “Constelação”, na estância de esqui de Crans-Montana, na Suíça, acabou por matar 41 pessoas e deixar 119 feridas. Tahirys dos Santos estava lá com a namorada, Coline, e ambos conseguiram sobreviver. Agora estão a viver uma segunda oportunidade. Na última segunda-feira, Tahirys assinou um contrato profissional com o Metz, nove dias depois de ter recuperado das queimaduras que sofreu no “Constelação”, na madrugada de dia 1 de janeiro.
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A ligação de Tahirys dos Santos a Cabo Verde é familiar. A ligação ao Metz é de infância. Tahirys chegou aos Les Grenat com oito anos de idade, em 2014. “Desde a sua chegada ao escalão de Sub-9, o franco-cabo-verdiano conseguiu subir todos os degraus dentro da casa do Metz”, lê-se na nota do clube gaulês. Foi a 20 de dezembro do ano passado que acabou por se juntar ao plantel principal para começar uma eventual integração na equipa orientada por Benoît Tavenot. Era a antecâmara de um jogo a contar para a Taça de França e parecia ser o contexto ideal para Tahirys juntar-se aos trabalhos da equipa A. O Metz venceu por 3-0 diante do ASC Biesheim, mas o defesa não chegou a jogar. A chamada ao plantel, ainda assim, poderia indicar que uma utilização estaria próxima.
11 dias depois dessa oportunidade, Tahirys não sabia que ia ter outra, mas fora dos relvados. Ele e a sua namorada, Coline, conseguiram escapar com vida ao incêndio no “Constelação”. Tudo aconteceu “muito depressa”, revelou Tahirys ao L’Equipe cerca de um mês depois do incidente. “Chegámos por volta da 00h30 ou 1h00. Descemos porque a Coline queria ir à casa de banho. Acompanhei-a. Saí primeiro, dirigi-me para o primeiro andar e foi aí que vi o fogo. Aconteceu tudo muito depressa, nem pensei muito. Fui direto ter com a Coline e saímos a correr pelas escadas. Depois, um vazio total”, afirmou.
O “vazio total” de Tahirys não o permitiu perceber que, quando correu pelas escadas, Coline não estava consigo quando saiu do bar. “Conseguiu sair e percebeu que a sua namorada ainda estava lá dentro. Voltou a entrar para a resgatar das chamas. Além de ser uma vítima, Tahirys é um herói”, revelou Christophe Hutteau, o seu agente à BFM TV, poucos dias após a tragédia.
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A namorada não era a única preocupação de Tahirys, naquele momento. Também estavam com amigos e o jovem não sabia deles. “Ouvia muitos gritos, houve uma agitação na multidão. Os meus amigos… não sabia se ainda estavam vivos ou não. Fiquei como que paralisado. Gritava os nomes deles e não havia resposta”, recordou o jogador, acrescentando que naquele momento “não sentia as costas”.
Tahirys ficou com queimaduras em 30% do corpo. As chamas atingiram gravemente as suas costas, rosto, mãos e braços. Coline queimou todo o corpo com exceção de rosto, peito e barriga, noticiou o jornal francês. A namorada do jogador esteve em coma durante cerca de um mês, num hospital em Antuérpia. Só depois de sair do coma é que foi transferida para Metz e começou a “reaprender a andar e a comer”.
Durante a recuperação, ainda em janeiro, Tahirys alertou que o caminho da reabilitação ainda era “longo”, mas garantiu que estava a olhar para o futuro com “confiança e determinação”, sempre com as prioridades bem definidas. “Estou vivo, isso é o mais importante. O aspeto físico vem em segundo lugar. Não estou muito concentrado no futebol. O mais importante é a recuperação”, esclareceu.
O futuro chegou, depois de passado e presente terem dado uma segunda oportunidade a Tahirys e Coline. A “mente de aço”, como o clube descreve o jogador em comunicado, poderá ter sido a chave para o jovem voltar a ter a oportunidade que teve em dezembro, depois de quase cinco meses de espera e recuperação, sem sequer saber em que condições e se voltava ao relvado. “Trabalhador incansável e exemplar dentro e fora do campo”, Tahirys confessa-se “muito feliz e orgulhoso” por assinar o primeiro contrato profissional pelo clube que viu nascer e crescer.
“É o culminar de muitos anos de trabalho, sacrifícios e determinação para realizar o meu sonho de infância. Este momento tem um sabor ainda mais especial depois dos meses difíceis que passei no hospital. Esta situação tornou-me mais forte e ensinou-me a nunca desistir“, disse ao clube. Mas Tahirys não esqueceu algumas das 119 pessoas que ficaram feridas e ainda estão a lutar pela normalidade. “Por fim, quero enviar o meu apoio a todas as pessoas que ainda estão a lutar. Nunca percam a esperança“, acrescentou.
Tahirys dos Santos assinou um contrato válido até junho de 2027 e quer trazer a esperança a um Metz que milita na Ligue 1, mas já não vai evitar a descida na próxima temporada. O conjunto grená está em último lugar (18.º), com 15 pontos, e matematicamente fora da corrida pela manutenção.