Há uma crise na restauração que não entra nas estatísticas. É assim que a principal associação do setor responde ao governador do Banco de Portugal, que esta segunda-feira pôs em causa a “propagada” situação difícil que atravessam os restaurantes.
Segundo a AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal), a “análise agregada e global do setor — frequentemente utilizada em relatórios macroeconómicos — tende a ocultar assimetrias profundas”. Isto porque o setor é composto em grande parte por empresas muito pequenas e familiares, que quando fecham portas não comunicam o encerramento da empresa, são os chamados “encerramentos silenciosos”, explica a AHRESP.
Num comunicado enviado esta terça-feira, um dia depois de Álvaro Santos Pereira ter recorrido às redes sociais para explanar, com recurso a mais de uma dezena de gráficos com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), que a crise na restauração não transparece nos números, a AHRESP começa por constatar que o setor “atravessa um momento paradoxal: mantém-se como um dos pilares da economia nacional, do emprego e da atratividade turística, mas fá-lo num contexto de pressão estrutural crescente, de margens severamente comprimidas e de encerramentos silenciosos, sobretudo entre micro e pequenas empresas familiares”.
https://twitter.com/santospereira_a/status/2046136790860410910
A associação também recorre aos dados do INE para dar conta de que em 2024 o setor contava com 74.524 empresas e 324.130 trabalhadores, “números que, isoladamente, sugerem um setor dinâmico, mas que escondem uma realidade estrutural determinante: 91% são microempresas e 51% são empresários em nome individual (ENI)”.
Uma “natureza fragmentada e de micro dimensão” que, para a AHRESP, “torna a análise agregada e global insuficiente para retratar os problemas reais de quem trabalha no terreno”. A associação ressalva que muitos dos negócios “são de proximidade, de base familiar e desempenham uma função social acrescida — não só pela criação do próprio posto de trabalho, mas também pela presença nos territórios de baixa densidade, onde muitas vezes são o único ponto de referência comercial e social da comunidade”.
E estes pequenos negócios, pela sua natureza, “dispõem de menor capacidade negocial junto de fornecedores, de estruturas financeiras mais expostas e de uma resiliência limitada face a aumentos de custos persistentes. São, por isso, as primeiras a sentir qualquer deterioração das condições de operação — e as últimas a ser visíveis nos indicadores oficiais quando fecham”.
Na sua análise, Álvaro Santos Pereira salientava que nos últimos anos o setor da restauração “cresceu bastante, graças à expansão do turismo e aumento do consumo”. Desde 2019 houve um crescimento de 69% em termos nominais e 25% em termos reais. Em 2025 o volume de negócios aumentou 2,9% em termos nominais face a 2024. Mas como os preços cresceram 6%, houve uma “queda do volume de negócios em termos reais, principalmente no último trimestre de 2025”. Ainda assim, “os gastos (de portugueses e estrangeiros) em restaurantes aumentaram 2,7%, em termos reais”. O governador olhou também para o emprego, que em termos acumulados aumentou 22% desde 2019 (trabalhadores por conta de outrem), e para os salários, que subiram 39% face a 2019. E notava que “as margens no setor da restauração têm permanecido relativamente estáveis nos últimos anos e em valores próximos dos observados no período pré-pandemia”.
Já a AHRESP destaca os “três anos de pressão acumulada sobre os custos”, resultado de uma “acumulação de adversidades”, motivadas “pelos sucessivos conflitos internacionais”. Também com recurso ao INE nota que os custos com a alimentação aumentaram 4,8% no ano passado, “a acelerar para +6,4% em março de 2026”. O preço dos legumes subiu 28%, os ovos 24%, o peixe seco 24% e a carne 8%. Os custos com a energia baixaram -0,2% em 2025 mas aumentaram “5,7% em março de 2026”. Já as remunerações médias subiram 23% “entre 2022 e 2025, de 938€ para 1.152€”.
Ainda em resposta direta a Álvaro Santos Pereira, a AHRESP diz que do lado da procura se notam “menos visitas, menor consumo médio por refeição”. As empresas, diz a associação, “têm vindo a ajustar os preços de venda, mas muito abaixo dos aumentos expressivos a que têm sido sujeitas. O resultado é um esmagamento das margens de negócio e sérias dificuldades em sustentar os negócios e os postos de trabalho“.
A AHRESP conclui que a “análise agregada e global do setor — frequentemente utilizada em relatórios macroeconómicos — tende a ocultar assimetrias profundas”. Porque “enquanto algumas empresas conseguem beneficiar de economias de escala e de maior poder negocial, milhares de micro e pequenos restaurantes operam em condições estruturalmente mais frágeis”.
Nos dados invocados pelo governador do Banco de Portugal constava ainda “a evolução da criação e destruição de empresas no sector do alojamento e restauração. De acordo com dados da Informa D&B, em 2025 foram 4991 empresas e as falências “foram somente 1307”. E os dados do E-fatura mostram que “mesmo assim, houve uma criação líquida de empresas na restauração em 2025”.
Segundo a AHRESP, estes “indicadores oficiais de destruição empresarial captam apenas os encerramentos formais” e escondem os chamados “’encerramentos silenciosos‘, que não são contabilizados, geram uma invisibilidade estatística que subestima sistematicamente a dimensão real das dificuldades no terreno”. Isto acontece normalmente em empresas muito pequenas e familiares, que fecham as portas do negócio mas não comunicam o encerramento da empresa.
A associação termina a lembrar o “papel insubstituível” da restauração “no tecido social, turístico, económico e de coesão do país” e deixa um apelo: “a que as políticas públicas possam ir além dos indicadores médios e respondam à realidade de quem opera no terreno: o microempresário que não tem condições para ajustar o preço de venda à subida efetiva dos seus custos, que vê diminuir os seus clientes e o consumo médio, e que luta diariamente para sustentar o seu negócio e os seus postos de trabalho”. Argumentando que o setor “tem de ser preservado”, a AHRESP defende que são precisas “condições reais para que estas empresas possam manter as suas atividades — e para isso, é indispensável que a análise do setor vá além das médias e reconheça a pressão real sobre as margens das microempresas”.










