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1.100 artistas assinam carta aberta de boicote à Eurovisão e removem as músicas de canais de streaming israelitas

Massive Attack, IDLES, Kneecap e mais de 330 portugueses estão entre os signatários de No Music for Genocide, contra a instrumentalização da arte e da música pelo "apartheid" de Israel na Palestina.

Mariana Carvalho
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Foi divulgada esta terça-feira a lista de músicos que assinaram a carta aberta No Music For Genocide, ativa desde setembro de 2025. A iniciativa pretende fazer frente ao Festival da Eurovisão, com início previsto para o próximo dia 12 de maio em Viena — e que integra entre os países participantes Israel. Dos 1.100 signatários, alguns dos quais com alcance internacional significativo — como os Massive Attack, IDLES, Kneecap, Peter Gabriel ou Black Country New Road —, mais de 300 artistas são originários de Portugal (o país mais representado na lista), como Ana Bacalhau, Jorge Palma ou The Legendary Tigerman e ainda os antigos concorrentes do festival, Carlos Mendes, Cláudia Pascoal ou Iolanda. Para além de se oporem à realização do evento, os signatários removem as suas músicas das plataformas de streaming do país a quem acusam de genocídio.

“Apenas um passo no sentido de honrar as exigências palestinianas para isolar e deslegitimizar o apartheid imposto por Israel”, a No Music For Genocide pretende impor um boicote cultural ao país, à semelhança daquele que culminou na queda do apartheid sul-africano entre 1990 e 1993. O sucesso da iniciativa que juntou Bob Dylan, Stevie Wonder, Bono, Whitney Houston e tantos outros em torno de um objetivo comum, “foi a prova de que o nosso trabalho criativo nos garante agência e poder“. “Quando o utilizamos em conjunto, adicionamos uma pressão unificada a um movimento interdependente em crescimento, de Hollywood aos cais de Marrocos”, continua a descrição da carta aberta.

Na lista divulgada de manhã, associam-se à iniciativa 339 músicos portugueses. Para além dos já mencionados, também assinam a carta aberta Ana Cláudia, Ana Lua Caiano, Beatriz Pessoa, Celina da Piedade, Fado Bicha, Filipe Sambado, Francisca Cortesão (Minta), Janeiro, Joana Barra Vaz, Júlio Resende, Luiz Caracol, Mayra Andrade, Pepperoni Passion, Rita Onofre, Sebastião Varela (Expresso Transatlântico), Selma Uamusse, Tota ou Xico Gaiato e os grupos Linda Martini, Pop Dell’Arte e Sensible Soccers.

Relembrando a exclusão da Rússia da competição internacional após a invasão ilegal da Ucrânia, os contestatários do festival criticam o facto de Israel continuar “a ser celebrado em palco, apesar do genocídio ininterrupto em Gaza”. “Permanecemos solidários face aos apelos palestinianos para que emissoras públicas, artistas, organizadores de festas de exibição do evento, equipas de produção e fãs boicotem a Eurovisão” até que a emissora israelita do festival (KAN) seja considerada cúmplice e banida.

Os signatários aplaudem ainda as emissoras nacionais que escolheram não transmitir a competição, entre as quais a espanhola, a irlandesa, a islandesa, a eslovena e a holandesa, e as muitas equipas finalistas que recusaram participar no festival. Criticam, por outro lado, a hipocrisia da União Europeia de Rádiodifusão (entidade organizadora da Eurovisão), que alega neutralidade política, apesar de ter excluído a Rússia, em 2022, por ameaçar a reputação do evento.

“Mais de 30 meses de genocídio em Gaza — acompanhados por uma limpeza étnica e tomada de terras na Cisjordânia cercada — não são considerados suficientes para aplicar a mesma política a Israel“, reclamam. “Há momentos em que o silêncio passivo não é uma opção.” A proposta dos signatários: “Reconhecer a [sua] agência coletiva — e poder de recusa. Recusamos ser silenciosos. Recusamos ser cúmplices. Chamamos os outros membros da indústria a juntarem-se a nós”, porque “não há palco para o genocídio”.

Na página online da iniciativa, dinamizada por voluntários, estão disponíveis instruções sobre como bloquear o acesso da sua música a determinados territórios, requisitando um geo-block à respetiva distribuidora.

Após vencerem o Festival da Canção, os Bandidos do Cante devem representar Portugal na competição internacional, agendada para Viena entre 12 e 16 de maio. Dos 16 artistas representados na eliminatória nacional, apenas três decidiram não boicotar o evento — entre os quais os vencedores, cuja posição “sempre foi musical e não política”. Desde 2020, que a Eurovisão tem como patrocinadora principal a marca de cosméticos israelita Moroccanoil, parceria que foi renovada este ano.