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(A) :: O que já nos deu a guerra com o Irão?

O que já nos deu a guerra com o Irão?

O conflito com o Irão reúne condições para ser um separador histórico com alterações profundas na geografia política do mundo.

Helena Garrido
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O conflito com o Irão já nos deu menos crescimento e mais inflação, desestabilizou os países do Golfo, agravou as tensões entre os Estados Unidos e os seus aliados europeus e reforçou o poder político e económico da China. O mundo depois do Irão, dependendo criticamente da forma como os EUA saírem do conflito, envolve já o sério risco de decadência do designado “império americano”, com a hipótese de entrarmos num mundo multipolar ou com a polaridade centrada na China. E de a Europa deixar de contar com os Estados Unidos na NATO, numa altura em que ainda não está preparada para se defender. E, claro, teremos um mundo com mais raiva no Médio Oriente, com o pior cenário no caso de nem se conseguir dar ao Irão um novo regime.

As previsões do FMI, no seu exercício da Primavera, já nos vieram dizer que as projecções antes do conflito apontavam para um crescimento da economia global de 3,4%. Agora, no seu cenário central, que pressupõe que a guerra com o Irão será de curta duração, temos uma perspetiva de crescer 3,1%, um abrandamento modesto. Qual a probabilidade deste cenário se verificar? Não sabemos. Economistas como Paul Krugman são mais pessimistas e o FMI tem um “cenário severo” em que aponta para uma recessão global, caso o petróleo se fique em média nos 110 dólares por barril e o gás aumente 200%.

Na realidade, neste momento ninguém consegue antecipar quais os danos que este choque já está a provocar na economia e muito menos os que se podem desenhar se o conflito se prolongar e o estreito de Ormuz se mantiver encerrado. O que podemos já dar como certo é que o mundo vai crescer menos e todos vamos sentir os efeitos dos preços mais elevados, mesmo os que são produtores de petróleo como é o caso dos Estados Unidos.

Mas a curto prazo, além da subida dos preços dos combustíveis, podemos enfrentar problemas de racionamento nomeadamente de jet fuel, o combustível dos aviões. O director executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Berol, afirmou a semana passada que na Europa temos apenas seis semanas de jet fuel. Fazendo as contas isto significa que em finais de Maio deixará de haver jet fuel. A perspetiva de escassez levou já ao cancelamento de voos por parte, nomeadamente, da Lufthansa e da Air France/KLM, duas companhias que estão a concorrer à compra da TAP.

São simples as contas que estão a ser feitas e que incluem basicamente todos os produtos que vêm daquela região, entre eles o petróleo e combustíveis mas também gás e fertilizantes. Os últimos petroleiros que passaram pelo estreito de Ormuz chegaram aos seus destinos asiáticos em meados de Abril e, dependendo da rota, em Maio atingem a Europa. A partir daí é como se existisse um oleoduto ou gasoduto interrompido.

Os países asiáticos começaram cedo a prevenirem-se, com medidas de contenção da procura. Na União Europeia cada um foi adoptando isoladamente as suas medidas, de tal maneira que um país como Portugal enfrenta a pressão da irresponsável generosidade em apoios da vizinha Espanha. A cimeira informal europeia que vai decorrer a 23 e 24 de abril no Chipre pretende, teoricamente, construir uma abordagem comum para enfrentar a crise energética que, obviamente, já devia ter sido adoptada para evitar medidas de concorrência desleal.

Os países do Golfo serão dos mais atingidos pelo conflito, com danos não apenas diretos mas também indirectos e a prazo, por via da confiança num dos seus activos mais importantes enquanto centros financeiros: a estabilidade e segurança. Não sabemos até que ponto vão conseguir recuperar a confiança, que lhes tem garantido a recente prosperidade como plataforma financeira, mas também na afirmação que foram fazendo como placa aeroportuária. Se não se concretizar a queda do regime iraniano, factor de instabilidade na região, terão pago um preço elevado sem que tenha sido atingido um dos objetivos que tiveram em mente quando decidiram apoiar Donald Trump.

Uma das heranças  deste conflito é sem dúvida mais alimento para a raiva milenar que persegue aquela região. O que é em si uma semente para a continuidade dos conflitos, mesmo que venham a ser interrompidos brevemente. Ninguém teve vontade de deixar de alimentar a raiva que foi em crescendo desde o horrendo ataque do Hamas a Israel a 7 de Outubro de 2023.

Finalmente a China, o ausente mais presente neste conflito, que pode ser o grande vencedor do conflito com o Irão. Desde que Donald Trump é presidente, a China tem tido um papel de estabilizador global, defensor do livre comércio, e tem revelado o poder que já tem em diversas frentes, das designadas terras raras até às renováveis, passando pelo peso da sua moeda.  E neste conflito têm sido vários os analistas que referem Pequim como a capital que está a pressionar com sucesso Teerão para aceitar a paz, para não se falar das notícias que dão conta de que está simultaneamente a dar apoio bélico ao Irão.

Na guerra das tarifas, a China mostrou o poder tinha ao obrigar, na prática, ao recuo de Trump, quando se percebeu os danos que podia provocar face ao controlo global que tem das designadas “terras raras”. O choque energético que agora vivemos por causa do conflito no Irão, tendo impactos negativos na China, permite-lhe igualmente retirar vantagens da posição dominante que tem nos equipamentos para as energias renováveis cuja procura será naturalmente induzida por esta crise. E, como disse Ricardo Reis na intervenção que fez na conferência dos 150 anos da CGD, “o papel do dólar dependerá do que a China decidir” nomeadamente em matéria de abertura ao investimento financeiro estrangeiro.

A tendência de des-dolarização já instalada pode reforçar-se. Neste momento já assistimos a uma redução do peso do dólar nas reservas dos bancos centrais e ao aumento do uso do yuan na aquisição de produtos como petróleo, tendência iniciada na sequência das sanções à Rússia por causa da invasão da Ucrânia. O dólar continua atractivo fundamentalmente por causa das empresas norte-americanas e, dentro delas, das que estão ligadas às novas tecnologias como a Inteligência Artificial, conjugando-se isto com a ausência de alternativa e um mercado chinês relativamente fechado.

Em suma, o conflito no Irão pode desencadear um reajustamento muito mais significativo da geografia política do mundo e que será tanto mais acelerado quanto mais fragilizado saírem os norte-americanos deste conflito. Para já podemos dar como adquirido que vamos ter menos crescimento e mais inflação, com um risco sério de uma recessão global, sem que esteja garantida maior estabilidade no Médio Oriente.