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(A) :: "Qual é a pressa?" — Parte II

"Qual é a pressa?" — Parte II

Quando os astros se começam a alinhar, até o lugar de líder de terceiro maior partido parlamentar se torna mais interessante. Carneiro vai ter de dar ao pedal para segurar Cordeiro e Pedro Nuno.

Miguel Santos Carrapatoso
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Francisco Assis, Duarte Cordeiro e Pedro Nuno Santos começaram, por estes dias, a escrever o resto da vida de José Luís Carneiro como secretário-geral do PS. O primeiro afastou-se em pezinhos de lã — mas afastou-se. O segundo fez duas coisas: não só disse de forma cristalina que se afastava para ter total “liberdade para discordar”, como ainda rodou a faca e sugeriu que a direção do PS estava a montar uma operação de cosmética em torno de uma suposta unicidade. Por fim, o terceiro decidiu voltar ao Parlamento e a uma bancada que ajudou a eleger. Ninguém sabe o que quer, o que pensa e que contas terá para ajustar, o que torna tudo mais dramático para o líder socialista.

Os três terão agendas e motivações próprias, mas há uma coisa que os une: não tornarão a missão de José Luís Carneiro mais fácil. No primeiro caso, não consta que Francisco Assis alimente ambições de vir um dia a liderar o PS — mesmo sendo ainda relativamente jovem, o eurodeputado terá outras prioridades que não uma corrida ao cargo de secretário-geral e, consequentemente, de primeiro-ministro. Mas é inevitável dizê-lo: a decisão de deixar a direção do partido, que não deve ser desligada da forma como Carneiro geriu a visita a Caracas, retira dimensão política e mediática à corte do líder socialista.

Com Duarte Cordeiro é diferente. O ex-ministro do Ambiente e antigo vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa é cada vez mais ‘o’ challenger natural de José Luís Carneiro. O modo como, nos últimos meses, e sempre através de intervenções cirúrgicas, se foi construindo como a alternativa ao atual líder socialista foi de alguém que sabe muito bem o que quer e o que tem de fazer para chegar lá. O xeque ao rei chegou com a declaração de que não iria fazer parte da direção do PS e fê-lo sem se refugiar em fórmulas cínicas. Cordeiro disse que saía e explicou exatamente porquê: quer estar em condições de reclamar o partido daqui a dois anos.

O regresso de Pedro Nuno Santos é uma incógnita. Perdeu duas vezes, saiu pela porta pequena, o partido mal se lembra dele (ou finge não se lembrar, como se viu no último congresso socialista) e não se vislumbra, não neste momento pelo menos, como possa vir a reconstruir a sua imagem política a tempo de ser um nome a ter em conta para o futuro do PS e do país. Mas os deputados que compõem a bancada parlamentar do partido foram escolhidos por ele, as câmaras de televisão recairão sobre ele e ele, que aguentou uns longuíssimos seis meses longe da política, terá muito para dizer sobre a forma como Carneiro tem conduzido o PS.

Acrescente-se a isto um dado particularmente interessante: quando pediu a suspensão do mandato, a 9 de outubro, alegando “motivo ponderoso de natureza pessoal e profissional”, fê-lo de modo a que vigorasse a partir de 24 de outubro — a data foi escolhida a dedo para que não fosse ‘obrigado’ a viabilizar o Orçamento do Estado na votação marcada para 27 e 28 de outubro. Não é preciso muito para imaginar o que pensará Pedro Nuno Santos sobre a hipótese de o PS viabilizar o próximo Orçamento do Estado da AD. Carneiro que se prepare para reuniões de bancada muito duras.

E há, no meio de tudo isto, elementos quase shakespearianos. Durante muitos anos, Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro alimentaram o sonho de chegarem juntos à liderança do PS. Eram os dois mais bem preparados dos quatro jovens turcos que fizeram a vida negra a António José Seguro. A liderança caberia ao primeiro e Cordeiro seria o leal e indispensável número dois. Ora, o tempo foi tratando de os afastar e acrescentar algumas camadas de ressentimento. O que antes era impossível — Pedro Nuno e Cordeiro enfrentarem-se pela liderança do PS — hoje já não o será tanto. Pelo menos, terá de haver uma clarificação em algum momento, o que deixará marcas profundas no partido.

Que todas estas movimentações aconteçam no momento em que José Luís Carneiro goza de sondagens bastante animadoras não deixa de ser tremendamente irónico, ainda que perfeitamente explicável: quanto mais o PS acreditar que Luís Montenegro está fragilizado, mais pressa terão os adversários internos em correr com o líder socialista. Que o diga António José Seguro, que, perante os avanços de António Costa, imortalizou a frase “qual é a pressa”. Ninguém quer pegar num volante quando o caso parece perdido, mas quando os astros se começam a conjugar, até o lugar de líder de terceiro maior partido parlamentar se torna mais interessante. Carneiro vai ter de dar muito ao pedal.

P.S.: Na última semana, perante o chumbo de Tiago Antunes como Provedor de Justiça, muitos responsáveis do PS, incluindo Eurico Brilhante Dias e Pedro Delgado Alves, rejeitaram a ideia de que o nome provocasse resistências no partido e chegaram ao ridículo de sugerir que era tudo uma invenção jornalística. Afinal, juraram ambos, sabiam exatamente como é que iam votar secretamente todos os deputados do PS.

Não merece muitos comentários. É o que é e o resultado foi o que foi. Mas convém que não se entre noutro tipo delírios. A ideia de que Tiago Antunes, que objetivamente não é militante do PS, foi mais um independente altamente qualificado a ser sacrificado no altar da pequena política é, no mínimo, fantasiosa. Sendo ou não um blogger ao serviço do socratismo como se alega e como o próprio não negou, Tiago Antunes trabalha há 20 nos corredores e em governos do PS. Até há dois anos era, objetivamente, um dos homens da estrita confiança de António Costa. Não há, na história recente do cargo, qualquer tipo de paralelo entre o perfil político-partidário de Antunes e o dos seus antecessores. O que pode ajudar a explicar um bocadinho — só um bocadinho — o insucesso da votação. Não vale a pena inventar grandes bodes expiatórios. É da vida.