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(A) :: O futuro nostálgico de Herlander

O futuro nostálgico de Herlander

O artista português apresenta-se com "Cárie", disco inventivo, tão pop quanto experimental. Conhecemo-lo melhor na Casa Capitão, em Lisboa, onde apresentou as canções que compôs, produziu e gravou.

Ricardo Farinha
text
Tomás Silva
photography

“Já sabes, vim p’ra inovar/Sou capaz/Vou saltar any bar”, escutamos em vertigens, um dos singles de Cárie, o primeiro longa-duração de Herlander. O tema fala das vertigens no seu quarto, como quem canta do topo das ambições que definiu para si mesmo. Poderia ser um discurso banal e até superficial, presente em boa parte da música urbana contemporânea, se não estivéssemos a falar de canções com uma natureza muito própria e se no mesmo disco não houvesse espaço para dúvidas existenciais, reflexões sobre o amadurecimento, histórias de amor, paixão e desgosto — vindo de quem teve de ultrapassar inúmeras adversidades para atingir este estado de confiança, ainda assim periclitante.

Será pop? R&B? Eletrónica? Música alternativa e exploratória? Provavelmente é tudo isto, sendo certamente algo pós-hip hop, tal como são notórias as nuances do kuduro e da kizomba num par de faixas. Criado na Arrentela, concelho do Seixal, na Margem Sul do Tejo, filho de mãe portuguesa e pai angolano, Herlander Madureira chega aos 29 anos com um disco que distorce convenções, mistura elementos, e que soa realmente distinto num mercado hiper-saturado. Tal como Slow J ou Tristany, outros filhos de mães portuguesas e pais angolanos, é um dos músicos nascidos na década de 90 que estão a empurrar o som para a frente, ressignificando aquilo que é a música nacional, criando obras verdadeiramente originais.

É sábado, 18 de abril, e a Casa Capitão, em Lisboa, enche-se para a apresentação oficial de Cárie, trabalho inteiramente escrito, cantado e produzido por Herlander ao longo dos últimos anos. Uma série de problemas técnicos, que abalam som e luzes, teimam em atrasar aquilo que já não pode ser travado: Herlander chegou para ficar, para ser, para provar que a melhor arte está fora dos padrões.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/4FHEb9I7XxuiXVmGkh4X47?si=2QUv1ivOScWtRVPg54-B6g

Foi, aliás, por isso mesmo, que chamou Cárie ao seu disco. Por um lado, assume que é quase um traço de personalidade andar quase sempre com gomas ou rebuçados no bolso. A estética colorida, quase onírica e nostálgica dos tempos de infância, também casa com o seu projeto artístico. Mas há um significado mais denso: Herlander sempre se sentiu “deslocado”, diferente, numa posição desconfortável, como se fosse um dente com uma cárie numa boca repleta de dentes brancos, saudáveis e uniformizados.

“Ter crescido na Arrentela foi uma aventura, mas definitivamente não seria a pessoa que sou se não tivesse crescido lá”, conta Herlander ao Observador, nos bastidores da Casa Capitão, pouco antes de subir ao palco, coisa que já não faz desde o último NOS Alive. “Era um sítio pequeno, eu estava tão distante de onde queria estar e de onde estava mentalmente, sentia-me tão deslocado de toda a gente que acabou por ser formativo. Tinha a urgência de querer ser compreendido, de me querer expressar, de querer fazer parte. Queria tanto sair dali que, quando saí, percebi: foi muito importante para mim estar lá.”

Parte da primeira geração a crescer com a Internet massificada, o mundo virtual tornou-se um “refúgio”. “A Internet foi uma grande parte da minha vida: como é que vou comunicar com amigos, descobrir sites e todas essas coisas? Foi aquela casinha. Tanto a Internet como a Arrentela foram cruciais para o meu desenvolvimento, sou definitivamente um produto dos dois.”

Quando sobe finalmente ao palco depois de ultrapassadas as adversidades técnicas, Herlander aparece com a atitude de quem, para chegar aqui, teve de superar muitos outros obstáculos e infortúnios. Em cada movimento coreográfico, na maneira como ataca o palco e se dirige ao público, apresenta uma postura assertiva, de quem está hoje confortável na sua pele mas de quem também cresceu com o imaginário hip hop — até categoriza Cárie como uma mixtape, em homenagem à cultura com que também cresceu, na mesma zona da Margem Sul de onde emergiram Xullaji e tantos outros rappers. Em sentido oposto, a sua música e personalidade são dotados de uma sensibilidade e de uma vulnerabilidade que dificilmente encontramos no rap e em subúrbios duros como a Arrentela.

“Falo de mais/Quero de mais/Sinto de mais/Vivo de mais/Como de mais/Grito de mais/Choro de mais/Espero de mais”, ouvimos em d+, num momento em que alguém na plateia lhe oferece uma rosa branca, e em que Herlander se abraça a si próprio, num gesto de quem se aceita a si mesmo, após anos de rejeições e preconceitos, de bullying na escola e de sentimentos de não-pertença, para um jovem queer e racializado. O tempo, porém, revelou-se essencial para o fazer perceber que a sua força estava precisamente naquilo que o distinguia.

“À medida que cresces, aproximas-te mais da tua criança. Começas a aceitar o teu passado, a dissecar mais os teus traumas, a colocares-te no lugar dos teus pais — que, para muitos de nós, também são fontes de trauma… Com a idade que tenho, o meu pai já tinha quatro filhos. Começas a pôr tudo em perspetiva e isso leva-te de volta a casa”, reflete.

24, uma canção que fala sobre crescimento e os dilemas que marcam o início da idade adulta, termina precisamente com uma gravação de voz do pai. “Estás a tentar, a crescer, é um processo de crescimento. Às vezes a gente não sabe fazer certas coisas, porque nunca fizemos, por exemplo… São coisas que nunca te passaram pela cabeça fazer sozinho, ‘tás a ver? Mas estás a aprender, é um processo”, ouvem-se as palavras de reconforto.

https://www.youtube.com/watch?v=Ry9on6r6EQ8

Cárie é um disco dedicado ao pai de Herlander, angolano que se mudou para Portugal para escapar à guerra civil, que serviu no exército, e que também tinha o sonho de ser músico. Acabou por nunca o conseguir concretizar, mas o filho Herlander sublinha que foi precisamente o sacrifício do pai que lhe permite hoje poder alcançar os seus próprios sonhos.

“Ele não teve a oportunidade de viver muitas coisas e eu tive — e tive porque ele não as viveu. Quero honrá-lo e tê-lo nestes projetos, nestes percursos e nestas viagens que posso fazer por causa dele”, explica. “E adoro voice memos, esses micro amores, e pensei: como é que posso incorporar isto no disco?”

Da procura pela “peculiaridade do som” à nostalgia dos 2000

Quando começou a fazer música durante a adolescência, colaborava com amigos que produziam instrumentais. Mas cedo percebeu que tinha a sua própria linguagem e que por isso precisava de ser ele o autor total da sua música, até para corresponder ao seu perfecionismo obsessivo. “Eles já tinham a sua linguagem e não era exatamente a minha. Não é que a deles estivesse errada e a minha estivesse certa, mas temos linguagens diferentes e percebi que tinha de produzir. Era urgente, tinha de fazer a minha cena.”

Começou a lançar música em 2018, quando se estreou com o EP 199, o número da carreira dos Transportes Sul do Tejo que o levava diariamente a casa. Na altura pertencia ao coletivo e editora independente Troublemaker Records, ao lado de Phoebe e nëss.

Numa música maximalista e ainda assim equilibrada, sem géneros nem categorizações simples, Herlander conta que aquilo que o atrai é sempre a “peculiaridade do som”. “Seja pop, seja indie ou mais alternativo, quando há características que não são tão óbvias… Estou dentro.” O próprio processo criativo, que o artista assume como “experimental”, tem de ter por base essa “abertura” para aquilo que possa ser invulgar.

“É uma aventura em que estás a ver onde vais chegar: onde é que estamos a ir? OK, não vamos por aqui, então vamos por ali. Gosto muito dessa progressão, é uma característica da experimentação de que gosto imenso, gosto muito do inesperado. Sempre precisei de um outlet para me expressar e sabia que tudo o que fizesse em termos de música ia ser ‘o que é que está a acontecer aqui?’ Porque sempre tive muita coisa a acontecer ao mesmo tempo: muito caos, muita felicidade, muito trauma, muita tristeza… Então gosto de ser leal a isso.”

Conteúdo e forma também se fundem e se trocam nesta dança de estados de espírito. “Não sei se fico ou saio/Já não olhas-me/Já não vens, não vens até mim/Se nada sobra até aqui (…) They say that I’m the problem/E eu já não sinto nada/Já não vou tanto à terapia/Mas shoutout Dra. Mariana (eu sei, preciso)”, canta Herlander, driblando entre o português e o inglês, alternando entre registos vocais, em dizdizdiZ!, uma música em que versos e sons soam algo dissonantes.

“Adoro fazer uma música triste com o universo de uma música upbeat. É sempre isso que quero fazer”, explica. “As emoções são complexas, há tristeza, mas também há felicidade e existe uma maneira de florir a partir dessa tristeza e ansiedade. Tive experiências que foram muito más para mim, mas consigo ver onde é que flori a partir delas.”

As vivências reais podem alimentar as canções, mas o mundo artístico de Herlander também é o dos sonhos e da fantasia. Basta espreitar os videoclipes, muitos deles com algo de surreal, para começar a decifrar o seu mundo fantástico. A estética visual é, aliás, parte indispensável da sua identidade.

https://www.youtube.com/watch?v=WQPdWM9yKqc

“Quando estou a produzir, se não estou a ver imagens na minha cabeça, é quando percebo: não é uma boa música. Se não estou a imaginar um vídeo, ou cores, se não estou a ver nada disso, então não é uma boa música”, conta. Embora haja muito de futuro na sua música e naquilo que Herlander representa, a nostalgia também é intrínseca a estas canções e a este imaginário criativo que nos leva de volta aos saudosos anos 2000 em que o artista cresceu, na fronteira entre os millennials e a geração Z, dos Nokia Xpress Music e do chat do MSN, dos tamagotchis e das últimas revistas juvenis, referências plasmadas no videoclipe de modo incógnito, realizado pelo inventivo Valdir Furtado, que dirigiu a maior parte dos seus vídeos.

“Sou muito nostálgico, adoro revisitar, pensar no que aconteceu atrás para o futuro. E isso está impresso na minha identidade. Queria fazer algo genuíno, não quero forçar ser uma coisa que não sou e que fosse super distante da minha pessoa. Pensei: como é que posso trazer o meu ser? Eu e os meus amigos fizemos um jogo que é ‘cárie ou não cárie’ e quando penso em Cárie são muito os contextos de MSN, dos Nokia, é muito este universo de nostalgia que a música acaba por ter. Há sempre esse diálogo.”

“Estou pronto para me apresentar”

A importância visual é notória na performance na Casa Capitão. Herlander está sozinho em palco, totalmente dedicado ao microfone enquanto os instrumentais recheados de camadas se vão sucedendo uns aos outros. O figurino que veste — calças, T-shirt e casaco outrora brancos pintados com referências a Cárie — tem entranhado um conjunto de luzes coloridas que vão cintilando.

O tripé que segura o microfone, que ora é usado no centro do palco ou encostado numa lateral, tem peluches e adereços vários de múltiplas cores. Como se uma loja de guloseimas nos tivesse entrado pelos olhos dentro num sonho extravagante digno de Charlie e a Fábrica de Chocolate. Os visuais, projetados atrás, completam o cenário: são excertos dos videoclipes, mas também outras imagens, como as que gravou junto da escola primária onde andou na Arrentela ou outras paisagens suburbanas das redondezas. Mais uma vez, a dualidade entre fantasia e realidade.

Esta é uma música que parte do indivíduo, da expressão de um “eu” muito singular, mas que ao vivo ganha uma importante dimensão coletiva, junto de quem se identifica com as letras que falam de experiências universais: do ato de amor que é deixar alguém partir de vai bem, à rutura de bembang, da proclamação amorosa de amt2000 à euforia auto-afirmativa de egoooo. “Dei uma dentada num pão de Deus/Cuspi de volta para todos os meus”, canta uma vez mais em vertigens, como quem afirma que esta é uma viagem partilhada. E é mesmo, até porque decide concluir o concerto no meio da multidão, entre as muitas caras conhecidas.

“Tenho muita esperança que isto cresça ainda mais, estou pronto para me apresentar, para me habituar às canções, porque são difíceis de fazer ao vivo com tantas sobreposições de melodias. Espero que seja uma abertura para o futuro, um marco”, remata Herlander, ao refletir sobre o impacto mediático em torno do disco e das pessoas que conseguiu conquistar com as suas canções, o que o tem impressionado para quem poucas expetativas tinha. “Pensei que alguns amigos odiassem o disco, mas ouvem aquilo como maníacos, é fascinante. E isto no meu grupo de amigos, quanto mais com as outras pessoas… Parece muito aleatório, é mesmo uma viagem.”