A formação das novas gerações como seres livres, pensantes e solidários exige perspetivas educativas robustas que, entre outros aspetos fundamentais, coloquem a tónica na ligação das aprendizagens para que estas ganhem sentido individual e coletivo. Trata-se de avançar para uma visão unitária, coesa e transformadora das aprendizagens, que permita aos alunos exercer um pensamento livre, autónomo, ético, criativo e orientado para o futuro. Identificamos quatro eixos para aprofundar esta visão.
Um primeiro eixo reside em assumir as aprendizagens a partir das interseções e convergências, evitando abordagens dicotómicas. Estas não são, por si, globais ou locais, mas ganham sentido e sustentabilidade em função dos imaginários de sociedade e de educação na resposta às expectativas e necessidades de uma formação integral do aluno, mediada pelas interseções e convergências entre instituições e atores globais, nacionais e locais.
Do mesmo modo, as aprendizagens não são “hard/técnicas” ou “soft/comportamentais”, “fundamentais” ou “acessórias”, nem ainda disciplinares, interdisciplinares ou transdisciplinares; antes configuram um todo entrelaçado que, com base nas suas sinergias, contribui para aprofundar temas, desafios e problemas ao longo da vida.
Um segundo eixo assenta na ideia de que as aprendizagens se enquadram numa visão de humanidade intergeracional partilhada, sustentada em conhecimentos comuns, com o objetivo de construir o futuro que imaginam ou a que aspiram (knowledge commons, UNESCO, Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação, 2021). A revitalização, a utilização e a disseminação dos conhecimentos nativos são essenciais para responder a desafios globais e locais.
Por outro lado, a diversidade linguística, cultural, social e comunitária constitui um atributo fundamental dos conhecimentos comuns, que deve ser abordado através de múltiplas experiências complementares de aprendizagem, reforçando a ligação entre currículo e pedagogia, entre para quê, o quê, como, onde e quando educar, aprender e avaliar.
Um terceiro eixo refere-se à necessidade de assumir as aprendizagens a partir do pensamento complexo, ou seja, reconhecer que é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer as partes. Esta abordagem é essencial para avançar em interdependências justas e construtivas entre as dimensões globais e locais.
Somos parte da espécie humana e, ao mesmo tempo, cada ser humano é diferente. As implicações de entrelaçar unidade e diversidade permitem sustentar, como refere Edgar Morin, a importância de reforçar a comunicação entre culturas e crenças distintas sob o princípio de que as pessoas são simultaneamente semelhantes e diferentes (Morin, 1995).
Um quarto eixo remete para a necessidade de assumir as aprendizagens a partir de um universalismo glocal, que integra cinco aspetos interrelacionados:
- o universalismo da pessoa, que implica reconhecê-la na sua singularidade e valorizá-la como um todo indivisível;
- o universalismo dos valores, como expressão de uma humanidade partilhada, centrada no respeito e salvaguarda da liberdade e da dignidade humanas;
- o universalismo dos conhecimentos globais e locais;
- o universalismo de realidades e verdades objetiváveis e comprováveis;
- e o universalismo inclusivo, que valoriza diversidades e diferenças como fundamento da convivência, da aprendizagem, da colaboração e da solidariedade entre diferentes.
Em síntese, a formação das novas gerações para futuros melhores e mais sustentáveis – do ponto de vista social, político, cultural, ambiental e climático – exige aprendizagens interligadas e significativas, centradas na compreensão como motor para inspirar, liderar e transformar, com vista à construção de futuros mais promissores.