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AWS instala zona local de cloud soberana em Portugal para clientes "não terem de escolher entre inovação e soberania"

Portugal tem agora uma zona local da AWS, que permitirá manter os dados armazenados no país. Sem revelar investimento, porta-voz afirma que é "reconhecimento do talento e da inovação em Portugal".

Cátia Rocha
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Diogo Ventura
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A Amazon Web Services (AWS) acrescentou à lista de serviços uma zona local de Portugal, uma estratégia para responder às preocupações com a soberania de dados na União Europeia. Lançada esta segunda-feira, é uma infraestrutura mais pequena, mas que assegura que os dados de empresas e startups, particularmente em setores com regras mais apertadas, são armazenados no país.

André Rodrigues, head of technology da AWS para a Europa do Sul e França, explica em entrevista ao Observador que esta zona local estará ligada à peça-chave da estratégia de cloud soberana da empresa. Instalada na Alemanha e disponível desde janeiro deste ano, trata-se de “uma região de cloud soberana [centro de dados de maiores dimensões] que está desligada de todas as outras regiões” comerciais da companhia. A zona local portuguesa junta-se, assim, a outras duas estruturas da empresa, também ligadas à região centrada na Alemanha, mas que estão instaladas nos Países Baixos e na Bélgica.

A tecnológica não revela quanto é que foi investido nesta zona local em Portugal. Muito menos a localização geográfica desta estrutura, por “questões de segurança”, explica André Rodrigues. Mas há algo que o porta-voz para Portugal não se escusa a dizer: será possível “oferecer soberania de dados local, em Portugal, e baixa latência aos utilizadores, às empresas e aos organismos portugueses”. Ou seja, menos tempo de resposta entre um pedido e uma ação.

Para acompanhar o lançamento desta oferta, apresentada num evento em Monsanto, em Lisboa, a AWS encomendou um estudo para aferir o impacto de ter esta estrutura no país. Feito pela Telecom Advisory Services, é estimado um impacto de 3 mil milhões de euros no Produto Interno Bruto (PIB) português, um aumento de cerca de 1% do PIB nacional. O estudo revela ainda uma estimativa de criação de 17 mil postos de trabalho, entre empregos diretos e indiretos.

Um "convite irrecusável" para assumir cargo na AWS

André Rodrigues, de 43 anos, aceitou o desafio de liderar a área de tecnologia da Amazon Web Services (AWS) nos territórios da Europa do Sul e França há quatros anos. “O desafio da AWS surgiu na altura do Covid-19, uma altura complicada para todos, mas que felizmente ultrapassámos”.

Na altura estava há mais de 15 anos na tecnológica Cisco. “Surgiu o convite e achei que era uma oportunidade de ter um impacto ainda maior”, diz ao Observador. “A escala e o impacto da AWS é incomparável. Foi um convite irrecusável.”

Até agora, faz um balanço “positivo” da experiência. “É um das boas decisões da minha vida”, relata sobre o trabalho que envolve um contacto constante com os clientes da AWS.

André Rodrigues vive em Lisboa e formou-se em engenharia eletrónica, no Instituto Superior Técnico. A maior parte do seu percurso profissional está ligado à Cisco, onde ingressou em 2006.

Começou por trabalhar em sistemas de engenharia mas, com o passar dos anos, especializou-se na área dos centros de dados e nas soluções empresariais de cloud.

Trabalhou maioritariamente em Portugal, mas teve uma passagem também pelas operações da Cisco nos Países Baixos. Entre 2018 e 2022, foi diretor tecnológico da Cisco a partir de Portugal.

Ter uma cloud ‘à portuguesa’ é resposta “a procura bastante grande por serviços soberanos digitais”

A AWS tem agora uma local zone [zona local] em Portugal. Para já, qual é a diferença entre ter uma local zone e ter uma região? A nível operacional e para os clientes?
A AWS tem hoje no mundo 39 regiões. Cada uma dessas regiões é constituída, no mínimo, por três availability zones [zonas de disponibilidade], por questões de resiliência, sendo que cada availability zone pode ser um ou múltiplos centros de dados. É assim que a infraestrutura da AWS está espalhada pelo mundo.

A cloud soberana é uma região à parte, é uma destas 39, mas é desligada de todas as outras 38 que chamamos de regiões comerciais. É uma região soberana, daí o nome Cloud Soberana. E está desligada de todas as outras regiões, todos os dados e os metadados ficam residentes dentro da cloud soberana.

A região está centrada na Alemanha, na região de Berlim. Aquilo que foi decidido estrategicamente pela AWS foi abrir três local zones: uma em Portugal, outra nos Países Baixos e outra em Bruxelas, que estão interligadas a essa região soberana europeia. As local zones são, então, uma infraestrutura mais pequena do que a região-mãe, vamos chamar-lhe assim, mas que tem a vantagem de estar mais próximas dos utilizadores, podendo oferecer soberania de dados local, em Portugal, e baixa latência aos utilizadores, às empresas e aos organismos portugueses.

E porquê a escolha da Alemanha para a região-mãe? É uma questão de centralidade, de espaço?
Todos os investimentos e todo o roadmap tecnológico da AWS advêm sempre dos comentários que recebemos dos nossos clientes. Trabalhando com esse feedback, fazia sentido que a região soberana da Europa fosse na Alemanha. Antecipando possivelmente uma pergunta — o porquê da local zone em Portugal — foi também devido ao feedback que recebemos das instituições, dos clientes portugueses. É uma questão de oferta e de procura. Identificámos aqui uma procura bastante grande por serviços soberanos digitais e, nesse sentido, decidimos fazer o investimento de acordo com o feedback que fomos recebendo dos nossos clientes.

E em que ponto do país é que está a local zone de Portugal?
Por questões de segurança não divulgamos o local onde colocamos as local zones.

Não é possível revelar nem a região? Há alguma proximidade de Sines, por exemplo?
Gostava muito de poder partilhar esse dado mas, por questões de segurança, preferimos que os locais dos nossos centros de dados, tendo em conta que têm dados sensíveis para os nossos clientes, continuem no anonimato.

Recuando um pouco no tempo, este projeto da local zone já estava previsto desde 2021.
Certo.

O que é que aconteceu entre 2021 e 2026? Houve algum atraso, alguma mudança nos planos?
Se a memória não me falha, anunciámos [o projeto] em dezembro de 2021. O que aconteceu dessa data para agora foi que, inicialmente, a local zone iria, como expliquei há pouco, ser ligada a uma região que fazia parte dessas que chamamos de regiões comerciais da AWS. Aquilo que aconteceu durante estes últimos anos foi, de facto, uma inflexão e uma inversão para que a local zone fosse ligada à cloud soberana europeia — que nós sabíamos que estava anunciada e que iria acontecer.

Este aguardar foi porque, na realidade, quando fizemos o anúncio, o nosso propósito era ligá-la a uma região comercial, mas depois, ao longo do tempo, percebemos, de facto, uma vez mais, através do feedback que nós recebemos dos nossos clientes, que o que faria mais sentido era ligá-la a uma cloud soberana, que só entrou em funcionamento agora em janeiro de 2026.

O anúncio de 2021 foi feito antes de toda esta vaga de entusiasmo da Europa com a cloud soberana, não é?
Certo. Havia, garantidamente, já nesta altura, uma procura muito grande de serviços digitais em Portugal e por isso, esta local zone. Mas depois, ao longo do tempo, apercebemos-nos de que o que faria, se calhar, mais sentido era estar ligado a uma região soberana da Europa. Tivemos que fazer essa inversão para ligar à cláusula soberana europeia.

E a nível de investimento? Porque o valor deste projeto da local zone está fora do valor de 7,8 mil milhões de euros que foi divulgado para a Alemanha, correto?
O valor que anunciámos diz respeito apenas e só à região soberana na Alemanha. De todas as outras local zones, o valor não é público e está fora destes 7,8 mil milhões. Ainda estamos a quantificar, ainda estamos a fazer os investimentos e, portanto, não tenho um valor exato para poder partilhar.

Já falou sobre o porquê de ter esta local zone, mas o que é que prevê de impacto concreto de ter esta estrutura para os clientes da AWS em Portugal? Quais são as expectativas?
Os impactos são em várias medidas. Com a possibilidade de termos os dados locais, de termos os dados residentes em Portugal, temos a capacidade de ajudar alguns clientes nossos que estavam em áreas ou em setores de atividade extremamente regulados a poderem continuar a inovar e não terem de escolher entre inovação e soberania.

Ao termos uma infraestrutura em Portugal, podemos ajudar os clientes portugueses que estavam nessa situação de um mercado regulado que obrigava a que os dados estivessem em Portugal. Esse é um impacto muito positivo. O segundo, como o ministro da Reforma do Estado referiu na apresentação [do projeto], sem ser um especialista, é que é sempre mais favorável estarmos mais perto do cabo, mais perto do data center do que estar mais longe.

O facto de haver uma infraestrutura local, de termos uma latência mais baixa nos serviços que prestamos às empresas portuguesas, vai permitir desbloquear outros use cases que anteriormente não eram possíveis. Porque por muito rápida que a tecnologia seja, ainda tem que percorrer alguns milhares de quilómetros para ir ao centro da Europa e voltar. Se estiverem aqui os data centers e a local zone da AWS em Portugal, esse percurso será necessariamente menor e irá desbloquear alguns casos de uso. É a diferença de ser muito rápido a passar a ser instantâneo.

Neste momento, considera que esta lógica de tecnologia soberana se tornou um requisito para poder fazer negócio na Europa?
Acho que é mais uma solução, é mais uma opção. Aquilo que trabalhamos na AWS é para dar soluções aos nossos clientes para que depois possam escolher aquilo que lhes faz sentido. Não acreditamos que a cloud soberana europeia vá ser a solução para todos os problemas. Continuamos, como já disse, a ter 38 regiões no mundo inteiro, portanto a cloud soberana é mais uma. É, apenas e só, mais uma. Temos nove regiões ao todo na Europa, espalhadas por outros países, e fomos o primeiro fornecedor de cloud a garantir que os dados são colocados e são mantidos onde o cliente o decide. Portanto, a cloud da AWS, por definição, já é soberana.

Acreditamos é que este é mais um nível nessa soberania e, claramente, era algo que nós tínhamos recebido como feedback por parte dos nossos clientes. E quisemos fazer este investimento para dar mais uma opção aos clientes. Mas, de todo, acho que seja uma solução para todos os problemas. É só mais uma ferramenta que está disponível para as empresas que fazem negócio na Europa.

Desde janeiro, quando foi anunciada a cloud soberana na Alemanha, como é que tem sido a procura por este tipo de solução?
Sim, como foi referido por alguns dos clientes que tivemos [neste anúncio] tem despertado bastante interesse, bastante curiosidade. É um bocadinho a história da galinha e do ovo. Nem sempre a regulação obrigava a que isso existisse, mas havendo mais esta opção, esta possibilidade de ter os dados locais, começamos a ver muitos mais clientes interessados, a pensarem em outros use cases que antes achavam que só podiam fazer on-premise, nos seus data centers. E, de facto, a questionarem-nos como é que podem aplicar e usar a tecnologia da AWS e da local zone em Portugal para poder desbloquear esses casos de uso também através da cloud.

Concretamente em Portugal, o interesse está a partir de empresas de que dimensão: grandes empresas, startups? Já é possível perceber?
Não consigo dar uma resposta definitiva a essa pergunta. Na realidade, aquilo que procuramos ser é um democratizador da tecnologia. Acreditamos que com a local zone poderemos nos próximos cinco anos acelerar a adoção de serviços de cloud e de serviços de inteligência artificial e de serviços de tecnologia avançada na ordem dos 65%.

Isso não pode ser feito só por um dos setores de atividade. Garantidamente estamos a falar de pequenas e médias empresas que irão utilizar a local zone da AWS para serem mais competitivas a um patamar global. Estamos a falar também das startups — e acreditamos que vamos ter um papel muito positivo, como tivemos aqui alguns unicórnios portugueses a apoiar a local zone. Acreditamos que vamos continuar a ter um papel muito importante no ecossistema virtuoso que já temos de startups em Portugal.

E não nos podemos também esquecer do Estado, do Governo, do Governo local e do Governo central porque acreditamos, de acordo com a estratégia de soberania e com a estratégia de digitalização que o Estado tem que a local zone em Portugal será, garantidamente, um suporte muito grande para que isso possa acontecer, mais cedo do que tarde.

AWS tem contacto “regular” com Governo sobre temas digitais

E como é que vê estes planos todos do Governo, como o Plano Nacional do Centro de Dados ou a Estratégia Digital Nacional? A AWS foi consultada, participou em alguma dessas discussões?
Sim, fomos consultados. Sempre que somos chamados pelo Governo para participar, temos todo o gosto em trazer as melhores práticas.

E esse contacto tem sido frequente?
Sim, tem sido regular. Sempre que somos convidados a participar, estamos sempre disponíveis e tem acontecido amiúde nos últimos tempos.

O facto de o presidente da ARTE [Manuel Dias] ter trabalhado na Microsoft [concorrente da AWS] não é uma desvantagem para a AWS?
Não, inclusivamente acho que é uma vantagem e não uma desvantagem. Na realidade, o presidente da ARTE, o CTO do Estado, sempre advogou uma transformação através da cloud. Sempre advogou, durante o seu percurso, uma transformação digital da sociedade privada e do Estado e não é, garantidamente, por ter saído da Microsoft e ter ido para a ARTE, que o seu pensamento e a sua visão se alteraram. Acho que é extremamente positivo e é um catalisador e estaremos sempre disponíveis para ajudar naquilo que for solicitado à AWS.

Falando sobre concorrentes: porquê este modelo de ter a própria estrutura isolada quando há concorrentes, por exemplo a Microsoft, que nesta questão da soberania dos dados prefere funcionar com parceiros europeus? Porquê esta estratégia?
A soberania tem várias definições e é um conceito que continua a evoluir nos dias de hoje. Uma vez mais, o que ouvimos por parte dos nossos clientes foi uma necessidade de ter todo o portfólio da AWS, todos os mais de 250 serviços que temos, a cloud mais abrangente que existe no mundo, disponível na Europa num modelo soberano. E foi isso que construímos.

Portanto, não vimos a necessidade de mudar o modelo, não vimos a necessidade de fazer qualquer cedência ou compromisso. O que oferecemos hoje na Europa e particularmente em Portugal é toda a mais-valia da cloud e dos serviços da AWS em Portugal.

Queria explorar o tema da resiliência, porque já há concorrentes que nos contratos colocam determinadas cláusulas de segurança [para os dados]. A AWS também tem esse cuidado?
Temos mais de uma centena de certificações na nossa cloud e os nossos termos e condições são públicos e facilmente consultáveis. Inclusive, temos também diferentes e diversos auditores que certificam que não é só a AWS que o diz, mas que, na realidade, o que dizemos e as melhores práticas que apregoamos são realmente postas em prática. Até hoje tem sido um descanso para os nossos clientes.

Além destas três local zones que foram criadas para suportar a da Alemanha, há previsão de mais localizações do género? O que é que está nos planos da AWS?
Não há nenhum anúncio ainda público. Como disse, 90% do roadmap tecnológico da AWS advém diretamente daquilo que auscultamos dos nossos clientes. Continuamos nas diferentes geografias a trabalhar diretamente com os nossos clientes e perceber onde é que é necessário fazer o investimento. É uma questão em aberto, mas neste momento não tenho informação que possa partilhar sobre quais é que possam ser ou não as próximas localizações ligadas a esta cloud soberana.

Local zone em Portugal tem impacto previsto de 3 mil milhões de euros

Foi apresentado um estudo de impacto económico para Portugal, em que é mencionado um potencial impacto de 3 mil milhões de euros para o PIB. Mas qual é o horizonte temporal do estudo? Há alguma data concreta para este valor se revelar?
Este estudo incide sobre a fase de construção, vamos dizer assim, e os primeiros cinco anos de atividade. Acreditamos que, nesse espaço temporal, o impacto direto no PIB português será muito próximo dos 3 mil milhões de euros. Normalmente, comunicamos em dólares, mas, neste caso, o estudo é em euros.

E também há dados sobre a previsão de criação de emprego?
Sim, dentro do mesmo horizonte temporal acreditamos que, direta e indiretamente, poderemos trazer 17 mil postos de trabalho, 17 mil empregos que acreditamos que serão altamente especializados, altamente qualificados e que serão pagos acima da média nacional.

Esses 17 mil empregos são uma previsão otimista? Tendo em conta todas estas alterações no mundo do trabalho que estamos a ver com a inteligência artificial?
Acredito que sim, por várias razões. Primeiro, porque acreditamos no estudo que foi feito e, segundo, porque acreditamos que esta local zone em Portugal irá ao encontro desta necessidade que existe agora de mais trabalhos especializados na área da inteligência artificial e de tecnologias avançadas. Acredito que é um enquadramento perfeito e é um casamento perfeito entre as necessidades que temos, não só em Portugal, mas na Europa e também com esta local zone que nós vamos lançar agora, então, em Portugal.

AWS não desvenda dados sobre Portugal, mas mercado nacional “é visto com muita atenção” pela casa-mãe

Falando sobre o negócio da AWS em Portugal. Como está o país a nível de adoção de cloud, qual é a quota de mercado da AWS no país?
Como já disse, temos clientes em Portugal presentes e alguns a operar com uma escala global, mas a partir de Portugal há mais de uma década. Isso foi o que fez com que criássemos um escritório local em Portugal para apoiar as nossas empresas localmente e os nossos parceiros.

Só para ter uma ideia, quantas pessoas trabalham nesse escritório em Portugal?
Só partilhamos números globais.

Mas estamos a falar de um valor na ordem de dezenas, centenas de pessoas…?
Há outras empresas que comunicam esses números locais, só partilhamos números internacionais, portanto, não consigo dizer. Primeiro porque é um número muito dinâmico e segundo porque, na realidade, não consigo partilhar esse número.

E sobre a quota de mercado? Qual é a situação do negócio por cá?
Por sermos uma empresa cotada em bolsa, só partilhamos esses números de uma forma agregada e somos obrigados, do ponto de vista de certificação e de regulação, a fazê-lo dessa forma. Percebo, naturalmente, a curiosidade, mas não consigo partilhar esses dados para Portugal. Até lhe digo mais, nem para Portugal, para a Ibéria ou para a Europa. São números que não consigo partilhar.

Há alguma previsão de um reforço de investimento em Portugal? Quais são os planos para o país?
Sim, no ano passado continuámos a apostar. Acreditamos na nossa responsabilidade social, sabemos que o facto de termos a escala que temos e o impacto que temos a nível global, percebemos que temos também uma responsabilidade social e de sustentabilidade acrescida. E, portanto, ao longo do tempo, temos feito vários investimentos, nomeadamente na área de capacitação de recursos humanos em Portugal e, por isso, trazemos programas internacionais como o AWS Educate, o AWS Academy ou o AWS Restart para Portugal, exatamente para dotar o talento nacional de competências digitais na área da cloud, da inteligência artificial e de cibersegurança. Esse investimento no talento nacional vai continuar garantidamente por parte da AWS.

Do ponto de vista de infraestrutura, em 2019 fizemos o primeiro investimento em Portugal com o Amazon CloudFront Edge, de forma a que as empresas e utilizadores portugueses pudessem ter acesso a serviços digitais mais rápido. No ano passado fizemos o AWS Direct Connect, que permite a qualquer empresa portuguesa ligar-se diretamente à rede mundial da AWS a partir de Portugal, porque anteriormente havia um custo de interligação e não era possível fazer a partir de Portugal, era preciso fazer através de Espanha ou do Reino Unido. Agora anunciamos a local zone em Portugal. Acho que a aposta da AWS e o compromisso da AWS com Portugal e o investimento está aí e garantidamente será para continuar.

Como é que o negócio em Portugal é visto pela casa-mãe?
É visto com muita atenção, porque temos muitos casos de sucesso de pequenas startups que se tornaram scale-ups e hoje são players mundiais que começaram em Portugal. A AWS reconhece de facto o talento e a inovação em Portugal.

Posso dar-lhe o exemplo da OutSystems, da Feedzai e da Talkdesk, que são três unicórnios que começaram a sua jornada connosco há muito tempo. E, por isso, posso dizer que a AWS olha para Portugal com olhos de quem inova, de quem tem talento e de quem tem empresas que podem ser globais. De outra forma, não estaríamos a fazer o investimento que estamos agora a fazer na local zone da AWS em Portugal.

“O nosso CTO diz que ‘tudo falha um dia’. Temos que estar preparados para isso”

Como é que está a ser para a AWS navegar todas as alterações de mercado, que estão a ser cada vez mais rápidas? Primeiro toda a gente falava de cloud
Agora é a inteligência artificial.

Exatamente. Como está a ser?
A mudança é uma constante, já dizia alguém antes de mim. Assistimos, de facto, à mudança e acreditamos, de facto, que a cloud, principalmente a cloud da AWS, será a forma certa de consumir a inteligência artificial, por várias razões. Porque muitos dos modelos não estão disponíveis de outra forma senão através da cloud. Porque estudos que fizemos, inclusivamente em Portugal, indicam que um dos principais entraves à adoção da inteligência artificial em Portugal tem a ver com a perceção dos custos e o facto de podermos utilizar a cloud e consumirmos apenas e só aquilo de que necessitamos, testamos. Se não correr bem não precisamos pagar mais, se correr bem podemos escalar para uma escala global. Acho que permite reduzir o custo de entrada das empresas portuguesas na inteligência artificial. É isso que temos estado a ver, é isso em que temos estado a trabalhar muito de perto com as empresas portuguesas e com um sucesso bastante considerável.

Neste momento há vários casos de tensão geopolítica. Isso é uma preocupação na conceção de projetos deste género? Há constrangimentos?
A local zone e a cloud soberana europeia vêm responder a muitas preocupações, possivelmente esta poderá ser uma delas. Mas o que gostava de reforçar é que, na realidade, é mais uma solução. Nós não vemos todos os clientes, nem sequer a esmagadora maioria dos clientes, preocupados e à procura de uma solução alternativa — o que queremos trazer para o mercado é mais uma opção.

É assim que nos posicionamos no mercado, como a maior operadora de cloud mundial, é a nossa obrigação trazer mais soluções para que os nossos clientes se sintam confortáveis a inovar com a AWS, e é nesse sentido que nós anunciámos a Cloud Soberana Europeia e o investimento da local zone em Portugal.

Nos últimos meses, a AWS teve uma falha na região da Virgínia, nos EUA.
Sim, na região Norte da Virgínia, é uma das 39 regiões.

Uma falha que afetou vários serviços a nível global. Já este ano, no Médio Oriente, houve localizações da AWS atingidas por mísseis, o que resultou em mais constrangimentos. É inevitável falar-se sobre a resiliência da infraestrutura da internet — como é que lidam com este tema? Como é que se comunica com os clientes?
Comunica-se de uma forma muito simples e os nossos clientes percebem-na também de uma forma muito simples. Trabalhamos de perto com os nossos clientes para criar mecanismos e planos de resiliência e de continuação de operação. E por isso,não temos um data center, dois ou três data centers. Temos 39 regiões espalhadas pelo mundo.

Como disse, cada uma das regiões tem, no mínimo, três zonas de disponibilidade. E cada zona de disponibilidade tem, pelo menos um data center, mas tipicamente são múltiplos centros de dados. É perceber que temos ao nosso dispor, no mundo inteiro, espalhado toda esta infraestrutura, toda esta tecnologia e temos que trabalhar. Porque, como diz o CTO da AWS, “tudo falha um dia”. Portanto, temos que estar preparados para isso e temos que criar os mecanismos para que o nosso negócio possa rapidamente reagir a qualquer falha que possa existir em qualquer solução [produto ou serviço].

https://observador.pt/2025/10/20/falha-nos-servidores-da-amazon-compromete-varios-sites-em-todo-o-mundo/

AWS testa modelo de IA Mythos. “Vejo mais como oportunidade do que como ameaça”

A AWS é uma das empresas que está a participar no Project Glasswing [grupo de empresas que está a testar o modelo de IA de deteção de vulnerabilidades da Anthropic, o Mythos]. Há reguladores assustados, há notícias sobre reuniões devido ao Mythos. Como alguém que está ligado a este setor há tanto tempo, como é que vê esta possibilidade do “apocalipse das vulnerabilidades”, como já há alguns especialistas consideram?
Vejo com muito interesse e acompanho-o muito perto. O que acontece não foi que os sistemas passaram a ser vulneráveis — sempre o foram. O que se passa é que agora temos forma de descobrir e de tentar mitigar.

Foi partilhado num dos painéis [do evento de apresentação], pelo CTO da Feedzai, que trabalha com risco e com fraude, que veem-se obrigados a trabalhar com tecnologia de ponta porque, infelizmente, todos os que querem fazer mal também o fazem.

Neste sentido, vejo o Mythos assim: como uma ferramenta que, se bem utilizada, poderá de facto identificar e corrigir vulnerabilidades que existem há cinco, dez, quinze anos, que estão latentes e ninguém conhecia. Vejo mais como oportunidade do que como ameaça, mas sabendo que a IA tem de ser usada de forma correta e há mecanismos de responsabilidade de IA — que chamamos de responsible AI — que têm de ser adotados em todas as situações. Mas acredito que a IA tem um papel de nos ajudar, de tornar a nossa civilização melhor. Vejo [a IA] como algo positivo, havendo obviamente alguns riscos a que temos de estar atentos.

https://observador.pt/2026/04/09/claude-mythos-anthropic-lanca-modelo-de-ia-que-deteta-falhas-de-seguranca-com-decadas-mas-nao-quer-torna-lo-publico/

Já houve da parte da AWS, do lado europeu, oportunidade para discutir internamente o assunto?
Neste momento há uma parceria muito grande. Desde a génese da Anthropic que temos apoiado a empresa, temos uma participação bastante considerável…

AWS só permite teste do Mythos na região da Virgínia do Norte e apenas a clientes com autorização

Quando a Anthropic anunciou que tinha um modelo para caçar vulnerabilidades, também anunciou que não o lançaria ao público.

A AWS faz parte do grupo de empresas que tem acesso a uma versão de teste do modelo. Num anúncio de 7 de abril, a empresa explicou que incluiu o Mythos Preview (versão de pré-visualização) na sua plataforma Bedrock, para usos de IA generativa.

Mas, na mesma nota, explicou que o Mythos só está disponível na região cloud da Virgínia Norte e que “o acesso está limitado a uma lista inicial de organizações autorizadas”. São conhecidas uma dúzia de empresas do Project Glasswing (o nome do projeto de colaboração), mas há ainda 40 outras entidades que têm acesso ao modelo e que não foram detalhadas.

“A Anthropic e a AWS estão a adotar uma abordagem deliberadamente cautelosa em relação ao lançamento, dando prioridade às empresas essenciais para a Internet e a quem mantém software de código aberto cujos programas e serviços digitais afetam centenas de milhões de utilizadores”, foi declarado no anúncio da AWS.

A Amazon foi dos primeiros investidores da Anthropic, certo?
Sim e continua a apoiar regularmente não só no treino dos modelos mas também na infraestrutura necessária para treinar estes modelos em escala. Há uma cooperação muito estreita entre a Amazon e a Anthropic e outros fornecedores de modelos. Neste momento, [o Mythos] foi disponibilizado à AWS para que mais facilmente possa ver junto dos clientes e avaliar quais são os riscos antes de este modelo ser publicado. É a fase em que estamos neste momento. Estamos a trabalhar junto dos nossos principais clientes na área da segurança e cibersegurança para identificar todas as vulnerabilidades, adotar a IA para o bem e corrigir essas vulnerabilidades.

E que reações tem ouvido sobre o Mythos?
Sendo o mais sincero possível: o Mythos é uma questão ainda muito recente, estamos a falar de uma semana. Ainda não tenho feedback na primeira pessoa e não consigo partilhar feedback direto dos nossos clientes com Mythos.