Nem um mês depois da bombástica transferência de Francisco Rodrigues dos Santos da direita para a esquerda – provavelmente, a troca mais escandalosa desde que Figo abandonou o Barcelona e assinou pelo Real Madrid – a direita desforrou-se em grande estilo. Apesar de abalada, não demorou muito a substituir o Chicão, indo recrutar à esquerda uma figura igualmente emblemática: no fim-de-semana soubemos que Joana Mortágua abriu um negócio! A ex-deputada e dirigente do Bloco de Esquerda abraçou o capitalismo, investindo dinheiro e trabalho numa actividade económica no mercado aberto, em concorrência livre com outras similares, tendo como objectivo final o lucro.
Da mesma forma que Chicão foi estudar psicologia, conheceu pessoas diferentes, tornou-se mais empático e, naturalmente, ficou de esquerda, também Joana Mortágua foi influenciada pela mudança das suas circunstâncias de vida. Ao perder o emprego no Parlamento, Mortágua fez contas, percebeu que precisava de ir ganhar dinheiro e que a forma mais prática de o conseguir seria tornando-se proprietária de um estabelecimento comercial. Obviamente, ficou de direita.
Gostava de ter estado na casa da família Mortágua quando Joana contou os seus planos. “Portanto, tenciono adquirir produtos ao preço mais baixo possível e vendê-los com uma margem suficiente para pagar a renda, a luz, a água, os consumíveis, os impostos, os salários, a limpeza, a manutenção, o marketing nas redes sociais e retirar um rendimento para mim e para os meus sócios.
“A mais-valia não fica para o trabalhador?”, há-de ter perguntado uma prima activista.
“Bom, o colaborador já receberá o justo salário – além dos descontos todos que o patrão é que faz, sabias? É imenso! O lucro fica para nós, que tivemos a ideia, investimos nela e corremos o risco de perder tudo”.
Terá sido nessa altura que a irmã Mariana recolheu ao seu escritório no ISCTE e começou a corrigir o currículo da cadeira de História da Economia Política, acrescentando, no capítulo dedicado à perfídia das rendas parasitárias, uma adenda sobre as situações em que estas são justificadas.
Como é evidente, a passagem de uma militante bloquista tão mediática para o mundo dos negócios não pode ser feita à bruta, deve ser suavizada com argumentos admissíveis dentro do partido. Se tivesse dito que queria abrir um café para ganhar dinheiro, seria olhada de soslaio pelos camaradas. Daí que, para moralizar uma actividade suja, Joana Mortágua tenha optado pelo discurso virtuoso anti-gentrificação.
«Na Graça, um dos bairros mais afetados pela transformação urbana de Lisboa, está a nascer um novo projeto que tem um objetivo bem definido: travar a gentrificação que decorre naquela zona. O Café Central abre portas este sábado, 18 de abril, e também quer ser um ponto de encontro acessível, comunitário e sem pretensões.
“A ideia é resistir à gentrificação que vai fechando os pontos de encontro dos bairros para abrir coisas extremamente conceituais”, conta Joana Mortágua, uma das fundadoras, à NiT.»
Percebe-se a repugnância de Mortágua pela gentrificação. A gentrificação está para a esquerda como a invasão de emigrantes está para a direita. Ambas transformam o bairro para quem sempre lá viveu. Quem se queixa de que a taberna foi substituída por um sítio de brunch com menus em inglês é a mesma pessoa que se queixa da drogaria ter sido substituída por um talho halal.
Os populares são contra a chegada de forasteiros a precisarem de casas num mercado já reduzido, encarecendo a habitação. A única diferença é que uns encarecem porque têm mais dinheiro, outros porque, como vivem muitos na mesma casa, podem pagar mais de aluguer. Só visto de fora, por quem não vive no bairro, é que a chegada de tantos estranhos é muito giro.
O Café Central (o nome vem do típico café que há na praça principal das vilas portuguesas, não vem do tipo de economia que Joana Mortágua mais admira) quer ser tradicional, não quer ser moderno. Tem galão em vez de latte. Não tem ovos Benedict, tem torradas.
A gentrificação acontece quando pessoas com mais capacidade económica se começam a mudar para um bairro anteriormente de classes populares, tornando-o progressivamente mais caro para os moradores mais antigos. Ora, isso sucede quando o bairro começa a ser reabilitado, a ficar mais limpo, a ter comércio mais variado. Joana Mortágua diz que não quer gentrificar o bairro com o seu café, mas o seu café só vai subsistir na medida em que o bairro se gentrificar. Porque não é o reformado de uma vila operária da Graça que vai dar 5 euros por falafel de tremoço com molho de iogurte e hortelã ou 10 euros (mais caro que o prato do dia+sopa+bebida+café numa tasca normal, daquelas em que a gentry não põe os pés com medo de escorregar na camada de gordura que lustra todas as superfícies) por uma sandes de pleurotus fritos, maionese de lima e coentros, e picles caseiros. (Fui ver o que é pleurotos: nem sequer é carne, são cogumelos!)
Joana Mortágua quer oferecer um produto de qualidade e diferenciado como a sandes de cachaço, maçã, picles de mostarda e manteiga de cor e, ao mesmo tempo, afastar a gentrificação? É como deixar a capoeira aberta e pincelar as galinhas com molho de barbecue, com o objectivo de afugentar as raposas.
Pode acompanhar cada bolo de arroz que vende com uma palestra sobre as condições laborais dos agricultores nos arrozais do Sado. Pode mudar o nome da “imperial” para “republicana”. E até pode fechar o café à noite a tocar o “FMI” do Zé Mário Branco. Mas, no fim do dia, quando conferir a caixa registadora, não deixará de ser – e peço desculpa por usar o termo – uma empresária.
Espero que, daqui a um ano, possa ler uma reportagem sobre o primeiro aniversário do Café Central, de como é lidar com o aumento das matérias-primas (o abacate está caríssimo!) e da electricidade, com a concorrência de outro café com conceito, com as reivindicações dos funcionários fartos de descascar tremoços para o falafel, com as queixas dos vizinhos por causa do forró, enfim, sobre como é gerir uma empresa.
Daqui a dois anos, espero estar a ouvir Joana Mortágua no podcast o “CEO é o limite”.