A região do Saara Ocidental encontra-se divida por uma estrutura defensiva vasta de 2700 km (o “Muro do Saara”), e que separa as duas entidades que a administram. Marrocos, reclama a soberania do território e propõe um projeto de autonomia regional avançada para a região. A Frente Polisário, organização político-militar, reivindica a independência do Saara Ocidental, apoiando-se no princípio de autodeterminação do Direito Internacional. O cessar fogo, que pausou a Guerra do Saara em 1991, é monitorizado pela missão MINURSO das Nações Unidas. Criada inicialmente com o principal objetivo de organizar o referendo de independência, a MINURSO tem sido um elemento essencial na ação de peacekeeping da região. A questão do referendo terá sido colocada em segundo plano, devido à falta de entendimento mútua no que respeita a lista de recenseamento. O território disputado é rico em recursos naturais, nomeadamente em fosfato. Este minério é essencial à economia de Marrocos, país que administra cerca de 80% do território do Saara Ocidental. A narrativa do Saara Ocidental conhece, nos tempos atuais e em cada uma das frentes, novos atores. Esta influência da política externa, afasta cada vez mais a perspetiva de uma resolução pacífica para o conflito.
Multilateralismos, impulsionadores de um conflito bélico ou de um caminho para a paz? Considerando certos aspetos, numa visão mais alargada, verifica-se uma tendência para a intensificação das hostilidades e para uma estruturação de um conflito armado. De acordo com uma notícia publicada a 10 de novembro de 2023 no jornal Die Welt, o mesmo teria tido acesso a documentos dos Serviços de Informação alemães, a partir dos quais foram relatadas ligações do Polisário com o Irão e o Hezbollah, e o apoio destes (de forma logística e financeira), fornecido à organização independentista. Destaca-se o recebimento, vindo do Irão, de mísseis terra-ar e de drones. Já em 2018, Marrocos havia rompido todos os laços diplomáticos com o Irão, após ter recebido confirmações da relação próxima deste, com a Frente Polisário. A oposição entre o Irão e Marrocos, vem reforçar ainda mais, a antiga querela entre xiitas e sunitas.
Segundo informações publicadas a 13 de novembro de 2020 pela Agence France Presse, juntamente com a Radio-Canada, no decorrer desse mesmo mês, as FAR (Forças Armadas Reais) marroquinas, lançaram uma operação não ofensiva numa “zona-tampão” que liga Marrocos à Mauritânia, operação esta observada pela missão MINURSO da ONU, libertando a zona de Guerguerat, anteriormente ocupada por milícias do Polisário, e consequentemente permitindo a passagem segura de bens e civis. Em resposta a esta operação militar, o Chefe da Diplomacia da República Árabe Saarauí Democrática (organização estatal autoproclamada pelo Polisário), assumiu o quebrar do cessar-fogo, vigente desde 1991.
A soberania de Marrocos sobre o território do Sahara Ocidental foi oficialmente reconhecida por Israel em julho de 2023, após os Estados Unidos da América terem tomado a mesma decisão em dezembro de 2020. Num contexto geopolítico e geoestratégico, e face às ameaças regionais, Marrocos assume um investimento considerável na produção de armamento e no reforço e aquisição de Meios de Defesa. O Orçamento de Estado marroquino adotado para 2026 (Le Projet de Loi de Finances 2026 du Maroc), dedica à Defesa, um valor de 73 mil milhões de dirhams (divisa nacional). Em 2022, Marrocos terá adquirido o sistema modular multicamada de defesa aérea e antimíssil, Barak MX, desenvolvido pela Israel Aerospace Industries (IAI). The Defense Post noticia, a 6 de janeiro de 2026, a ativação deste mesmo sistema em território marroquino. A 9 de julho de 2024, foi anunciada pelo jornal israelita Calcalist, a compra da parte de Marrocos, de satélites de observação de última geração, os Ofek 13, também produzidos pela IAI. O conflito do Saara Ocidental tem evoluído conforme a teoria Steps-to-War, comprovando até ao momento, todos os aspetos que a caracterizam: disputa territorial, rivalidade, alianças e corrida ao armamento.
A esperança diplomática reside na negociação da resolução 2797 da ONU, datada de 31 de outubro de 2025. A mesma, reforça o apoio às negociações do plano de autonomia anteriormente proposto por Marrocos, apela ao respeito do cessar-fogo, e decide prolongar a missão de terreno MINURSO, até 31 de outubro de 2026. O projeto de autonomia regional para o Saara Ocidental tem recebido uma grande aprovação da parte de atores internacionais (incluindo de Portugal), igualmente da parte de organizações como a União Africana. A atual Constituição do Reino de Marrocos (de 2011), ergue uma regionalização avançada, nela abrangendo a região do Saara, por ele administrado. A região em assunto, dispõe de uma representação parlamentar, tanto na Câmara dos Representantes como na Câmara dos Conselheiros. Marrocos considera o povo saarauí como sendo parte da sua identidade. Desde há séculos, o povo do Saara Ocidental ter-se-á mesclado geneticamente, culturalmente e socialmente ao restante da população do Reino de Marrocos.
A Frente Polisário, enfrenta uma descrença da parte da Comunidade Internacional e uma crescente perda de apoio. Movimento pró-soviético, terá resistido ao fim da Guerra Fria, e carece de falta de modernização dos órgãos de gestão (atente-se que o atual líder do Polisário, Brahim Ghali, foi também um dos membros fundadores da organização, em 1973). Junta-se a questão do secretismo envolto à organização, em parte evidenciada no mais recente relatório do Conselho de Segurança das Nações Unidas, S/2025/612, datado de 30 de setembro de 2025: “A Frente Polisário não autorizou voos de reconhecimento por helicóptero da MINURSO a Este do Muro do Saara desde novembro de 2020.”. Segundo relatórios de instituições internacionais que garantem a ajuda humanitária internacional ao campo de refugiados de Tindouf (que acolhe populações dominadas pela Frente Polisário) na cúmplice Argélia, houve desvios de ajuda humanitária internacional. Serve de exemplo, a informação divulgada no relatório do Organismo Europeu de Luta Antifraude, OF/2003/0521, feito conhecer pela primeira vez a 27 de fevereiro de 2014, onde constam informações tais: “o problema da população sobrevalorizada e os desvios de ajuda alimentar, eram conhecidos por todos, nos meios diplomáticos de Argel”. O Direito Internacional Humanitário (DIH), aplicável em zonas de conflito, considera o desvio de ajuda humanitária, um ato de violação das normas, previstas no Artigo 70.º do Protocolo Adicional I de 1977 às Convenções de Genebra de 1949.
Irão e Hezbollah aliados à Frente Polisário, Israel e Estados Unidos a Marrocos, certamente que estes novos atores vieram reforçar a tendência para uma “política do poder” entre os dois estados em atrito, desviando cada vez mais um cenário de paz. Sem citar a Argélia, que sempre sustentou o Polisário, e figura como concorrente fronteiriço de Marrocos. Em virtude da observação de múltiplos fatores precedentemente descritos, adverte-se para um possível conflito bélico de ordem internacional na região do Saara Ocidental.