“252.756 milhas de distância da Terra.” “A humanidade nunca foi tão longe”. “Batemos um recorde histórico”. É isto que se repete por todo o lado.
Mas arrisco-me a dizer que não foi isso que mais me marcou da missão Artemis II.
No meio de uma das missões espaciais mais ambiciosas desde a Apollo 11, houve espaço para um quinto “tripulante” improvável: um peluche.
Numa cápsula onde cada quilograma foi justificado e cada variável antecipada, a NASA decidiu levar ao espaço uma ideia que não veio de cálculos ou simulações, mas da imaginação de uma criança de 8 anos, Lucas Ye. [1]
Chamaram-lhe “Rise”. E foi a bordo como indicador de gravidade zero.
À primeira vista, parece apenas um detalhe bonito. Não o é. É um lembrete de que, mesmo nos sistemas mais sofisticados, continua a haver espaço e, mais do que isso, necessidade de imaginação sem filtros.
É isso que distingue este quinto tripulante. Não uma nova capacidade técnica, mas a liberdade: a de não pedir validação, não seguir guião, nem ter medo de parecer absurda. A liberdade que torna a criatividade possível.
É a partir daí que se começa a ver mais longe.
E esse é exatamente o estado natural de uma criança: viver com espanto, sentir curiosidade e uma ligação espontânea ao que a rodeia.
Não precisa de ir ao espaço para sentir isso. Ainda não perdeu essa forma de ver o mundo. Para nós, adultos, esse estado tornou-se exceção. Quase que um privilégio.
Com a idade vem o conhecimento. E com ele, o filtro: aquele que nos ensina a não fazer perguntas “erradas”, o que calibra o que é razoável dizer em voz alta e decide até no que vale a pena pensar. Com o tempo, deixamos de precisar que alguém nos cale. Fazemo-lo nós próprios.
E é exactamente esse filtro que entra em acção quando pensamos em exploração espacial.
A missão Artemis II custou milhares de milhões. E a nossa cabeça vai logo para aí: valeu a pena? Em que é que se gastou tanto? Faz sentido?
Agora imaginem explicar isto a uma criança.
Não nos vai perguntar pelo custo nem se a viagem fez sentido.
Vai perguntar se havia Wi-Fi lá em cima para ver o seu desenho animado favorito. Ou, se tivesse ido, se podia levar o seu cão.
Parece absurdo.
Mas é exatamente esse tipo de perguntas, desalinhadas e fora do guião, que revelam problemas que nem sequer sabíamos que existiam.
O GPS nasceu de militares a tentar rastrear um satélite soviético pelo efeito Doppler, uma curiosidade sem destino óbvio[2]. Hoje orienta mil milhões de pessoas todos os dias. Nenhuma das grandes aplicações espaciais nasceu de uma pergunta “normal”. Nasceu de alguém que ainda não sabia que a pergunta era absurda, ou a quem não importou que fosse.
Para uma criança, esse estado é o seu ponto de partida. Para nós, tornou-se performance.
Falta-nos a coragem para pensar sem filtro, dizer coisas “parvas”, e testar ideias que ainda não fazem sentido.
É aí que começa a inovação. Não na resposta certa, mas na pergunta inesperada.
Porque não é que as crianças sejam mais criativas que nós. É que ainda não aprenderam a censurar o pensamento. Nós aprendemos. E chamamos a isso maturidade.
Estamos a entrar na fase mais ambiciosa da exploração espacial. A economia espacial ultrapassa os 600 mil milhões de dólares[3]. E levamos connosco exatamente o mesmo modelo mental. As mesmas perguntas seguras. Os mesmos limites invisíveis sobre o que faz sentido questionar.
Isso começa a ser um risco. Não técnico. Cognitivo.
As falhas mais graves raramente vêm da falta de conhecimento, mas do que ninguém se atreve a pôr em causa. Um caso clássico é o Challenger.
Em 1986, os engenheiros da Morton Thiokol sabiam que certas peças podiam falhar a baixas temperaturas. Documentaram-no. Alertaram para isso na véspera do lançamento. O problema não era desconhecido, foi ignorado. Foram pressionados a mudar de posição. A raciocinar como gestores, não como engenheiros. E cederam.
O Challenger explodiu 73 segundos após o lançamento. Sete pessoas morreram.[4] Não por ignorância. Por silêncio.
O que falhou não foi a engenharia. Foi o sistema que tornou certas perguntas demasiado incómodas para serem ditas em voz alta.
Para aqueles engenheiros, a pergunta era simples: e se tivermos mesmo razão? Não faltava resposta técnica. Faltou coragem para a dizer em voz alta.
O próximo salto não depende só de melhor engenharia ou mais investimento. Depende de conseguirmos ver o que ainda não está visível, e isso exige perguntas que os nossos próprios filtros rejeitariam antes de as deixar sair.
A missão Artemis II tem quatro astronautas. Mas foi um quinto que me marcou. O único cujo pensamento ainda não aprendeu a ter fronteiras.
Nós pusemos a imaginação dele num peluche. Ele teria posto a nossa no espaço.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.