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A velhice: o retrato difícil de um país que envelhece

Hoje, ser idoso em Portugal, sobretudo sem autonomia plena, está longe de ser tarefa fácil.

Nuno Pires
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Os dados oficiais não deixam dúvidas: Portugal envelhece a um ritmo acelerado. Há 184 idosos para cada 100 jovens. Com uma taxa de natalidade de 1,37 filhos por mulher, o desequilíbrio demográfico é um problema social grave, com impacto direto no desenvolvimento e na sustentabilidade económica.

Todos queremos viver mais tempo. Mas queremos viver com qualidade, com a certeza de que família e sociedade assumem a sua responsabilidade. Hoje, ser idoso em Portugal, sobretudo sem autonomia plena, está longe de ser tarefa fácil.

Não é fácil para quem envelhece e enfrenta a perda de capacidades. Higiene, alimentação ou caminhar tornam-se desafios diários. Também não é fácil para quem cuida. As famílias esbarram nos custos para adaptar casas, na falta de material específico e na escassez de equipas técnicas preparadas para cuidados domiciliários.

Por isso, a institucionalização deve ser solução de recurso, nunca um fim em si mesma. Mas a realidade impõe-se. A degradação da autonomia física de um familiar idoso obriga muitas vezes a recorrer a um lar. É uma decisão inevitável e dolorosa. A casa de família parece perder a identidade.

Encontrar vaga numa Estrutura Residencial para Idosos não é simples. Mesmo pagando, a dificuldade é enorme. Um estudo recente mostra que um terço das famílias esperou meses ou anos por uma vaga.

Conhecer por dentro a dinâmica de um lar revela diferenças gritantes. Há lares marcados por falta de formação e funcionamento desleixado. E há outros onde os profissionais encaram o trabalho como missão, com eficácia e entrega total.

Mesmo com boas condições físicas e cuidados de qualidade, é impossível ignorar a angústia que vai no coração de muitos idosos institucionalizados. Resta consolá-los levando-os, sempre que possível, a “matar saudades” do seu lar, da casa pela qual tanto lutaram.

Envelhecer com dignidade não pode depender da sorte. Exige planeamento, políticas públicas eficazes e uma sociedade que não vire as costas a quem a construiu