Se na tomada de posse do marido, Margarida Maldonado Freitas invocou o amor, a fé e a identidade através dos três Corações de Viana que serviram de botão no vestido midi de azul pastel, para a primeira visita oficial de António José Seguro a mulher do Presidente da República invocou um símbolo feminino, assim como da riqueza e do status, ao utilizar uns brincos Rainha em filigrana.
A peça, que se acredita ter aparecido no reinado da rainha D. Maria I (1734-1816) — responsável também pela criação do Coração de Viana —, ganhou a popularidade que mantém aos dias de hoje só quando a bisneta, D. Maria II (1819-1853), já estava no torno. Quando a 8 de maio de 1852 visitou a cidade de Viana do Castelo, acompanhada pelo rei consorte D. Fernando, o príncipe herdeiro D. Pedro e o infante D. Luís, foi-lhe oferecido pelas jovens vianenses um par em ouro. Foi a partir dessa data que os brincos foram nomeados “brincos Rainha”, apontando para uma imagem de elegância e realeza, popularizando-se assim enquanto um símbolo de riqueza e de estatuto. Esta foi a última viagem de Maria II ao Alto do Minho, depois de ter elevado Viana do Castelo à categoria de cidade em 1848.


A origem exata dos brincos não é conhecida, mas em Ponte de Lima há quem lhes chame “picadinhos”, defendendo que é esse o nome original. Noutras zonas do Minho, são ainda conhecidos como “à moda da rainha”, “de mulher fidalga” ou “mulher rica”. Há também quem defenda que os brincos Rainha resultam de uma evolução dos brincos de laço e pendente do final do século XVIII ou dos brincos à Rei, mais clássicos e em ouro, mas aqui com um formato maior na parte inferior. Tradicionalmente, eram usados por mulheres de estatuto elevado, como parte dos seus trajes para ocasiões formais ou religiosas, sendo por isso, ainda atualmente, usados regularmente por noivas. No entanto, há quem acredite que o modelo que conhecemos hoje tenha sido simplificado pelas classes mais em baixo na pirâmide social.
O modelo brincos Rainha é assim composto por um topo em forma de botão que se prende ao lóbulo da orelha — em gancho ou tornilho — e que está ligado à peça inferior. Já esta é composta por um laço fundido a uma argola que termina em bico, conferindo-lhe a forma de triângulo invertido. No interior desta argola está uma pequena peça circular. Esta forma e design do brinco sugere uma ainda maior ligação às mulheres, com os brincos Rainha a ser um símbolo da fertilidade feminina: a peça circular central, ligada à peça envolvente, simboliza a ligação do filho ao ventre da mãe, do qual se irá libertar, enquanto que a forma de um triângulo invertido, na parte inferior do brinco, representa também um símbolo feminino, a fertilidade e o lado lunar. Há versões em que são adornados com corações, flores e laços.
Imagem de elegância e realeza, com raízes tradicionais, são atualmente um acessório cada vez mais combinado numa estética contemporânea, já muito adaptados ao dia a dia. Não deixam, mesmo assim, de fazer parte de festivais folclóricos, procissões e eventos religiosos, sendo parte integrante dos trajes à vianesa das Lavradeiras da Meadela, de Viana do Castelo.
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