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Animações de Lego, memes de embaixadas e "slopaganda". Como o Irão trava a guerra com os EUA nas redes sociais

Animações Lego feitas com IA, que ridicularizam Trump e exaltam a resistência iraniana ficaram virais nas redes sociais. Regime de Teerão é "cliente" de grupo de dez jovens que produzem os vídeos.

Madalena Moreira
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Donald Trump e Benjamin Netanyahu estão debruçados a ver o conteúdo de um dossier intitulado “Ficheiros Epstein”. Ao seu lado está Satanás, com um pequeno cálice dourado na mão. Netanyahu ri abertamente, enquanto Trump, cada vez mais ansioso e irritado, carrega num grande botão vermelho repetidas vezes. O botão ativa um míssil com a bandeira norte-americana. No Irão, uma professora escreve em persa num quadro branco, perante uma sala de meninas, todas de hijab cor de rosa. O ecrã fica negro e ouve-se uma explosão. Na imagem seguinte, no meio dos escombros, estão dois sapatos brancos e uma pequena mochila cor de rosa.

https://twitter.com/navyhato/status/2030828983714185358

É assim que começa um vídeo de mais de dois minutos publicado pela imprensa estatal iraniana durante a primeira semana da guerra e que ficou viral nas redes sociais. A viralidade justifica-se com o facto de retratar a guerra com recurso a Lego: edifícios, armas e veículos são construídos com tijolos coloridos e os líderes internacionais são representados pelas pequenas figuras de brincar, tradicionalmente amarelas.

Ao longo das semanas seguintes, as animações geradas com recurso a Inteligência Artificial (IA) tornaram-se cada vez mais frequentes e tomaram de assalto as redes sociais. A maior parte dos vídeos são produzidos por um canal chamado Explosive Media, que se intitula como “uma equipa independente por detrás das animações iranianas com Lego”. Apesar da declaração de independência, um representante da equipa (já conhecido como Mr. Explosive) admitiu em entrevistas à imprensa internacional que o regime iraniano é “um cliente” da equipa.

"Tudo isto demonstra as capacidades iranianas para compreender o público americano e como a internet funciona. Acho que não há outra peça mediática que tenha saído deste conflito que tenha sido tão falada ou tão partilhada como os vídeos de Lego."
Moustafa Ayad, analista no Institute of Strategic Dialogue

A narrativa política de Teerão é percetível na mensagem dos vídeos, que retratam desenvolvimentos na guerra, troçando das palavras de Donald Trump, condenando as ações dos governos dos EUA e de Israel e exaltando a resistência iraniana. “Em memória das estudantes [da escola primária] de Minab que foram martirizadas às mãos dos terroristas sionistas e americanos”, lê-se no final da animação descrita, que termina com um soldado iraniano ao lado da pequena mochila cor de rosa, depois de o regime ter atacado e destruído alvos norte-americanos e israelitas por todo o Médio Oriente em vingança.

A realidade no terreno é muito diferente e o Irão está longe de estar a ganhar a guerra. Contudo, a guerra também se trava na esfera da informação e, nesse aspeto, o Irão poderá estar a sair-se melhor, argumentam múltiplos especialistas. E as animações de Lego são uma parte fulcral para perceber esse sucesso. “Tudo isto demonstra as capacidades iranianas para compreender o público americano e como a internet funciona“, apontou Moustafa Ayad, analista no Institute of Strategic Dialogue, à Wired. “Acho que não há outra peça mediática que tenha saído deste conflito que tenha sido tão falada ou tão partilhada como os vídeos de Lego”, ressalvou.

Videojogos e “guerras de memes”: a nova guerra mediática

“Os media são mais eficazes que os mísseis, aviões e drones a forçar o inimigo a retirar e a influenciar corações e mentes. Todas as guerras são guerras mediáticas. O ator que tiver a maior influência mediática, vai concretizar os seus objetivos.” As palavras são do antigo Líder Supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, morto no primeiro dia da guerra por um ataque israelo-americano. O então líder do Irão falava assim durante uma reunião em 2024, sobre a necessidade de saber utilizar as redes sociais a seu favor.

"A comunicação política tradicional, incluindo conferências de imprensa, comunicados e cobertura noticiosa tradicional, chega às pessoas que já estão a prestar atenção." Por esse motivo, a prioridade passa a ser chegar "a todos os outros; os milhões de pessoas cuja compreensão de conflitos internacionais não vai além do que acontece na sua página das redes sociais."
Adam North, investigador especializado em análise discursiva na Universidade de Manchester

Esta leitura de Khamenei não reflete uma preocupação específica do Irão, mas uma realidade mais alargada, que se traduz numa nova forma de travar a guerra ao nível da comunicação. A guerra mediática sempre existiu, impressa tanto na necessidade de os líderes justificarem a guerra perante os eleitores e a comunidade internacional, como na criação de propaganda. Mas a mudança do panorama mediático nas últimas décadas obrigou a repensar as estratégias utilizadas.

“A comunicação política tradicional, incluindo conferências de imprensa, comunicados e cobertura noticiosa tradicional, chega às pessoas que já estão a prestar atenção”, escreve Adam North, investigador especializado em análise discursiva na Universidade de Manchester, num artigo de análise publicado na semana passada. Por esse motivo, a prioridade passa a ser chegar “a todos os outros; os milhões de pessoas cuja compreensão de conflitos internacionais não vai além do que acontece na sua página das redes sociais”, continua o especialista.

https://twitter.com/WhiteHouse/status/2029741548791853331

No caso da guerra no Irão, o foco nas redes sociais é visível na comunicação tanto dos Estados Unidos como do Irão. Do lado norte-americano, o exemplo mais gritante é o da presença constante do Presidente Donald Trump na sua rede social, a Truth Social, que utiliza para elogiar ataques, descrever operações, deixar ameaças ou mesmo anunciar a aplicação de tréguas. Mas a presença dos EUA nas redes sociais também se traduz nas publicações da Casa Branca, que recorrem a imagens de videojogos e filmes de ação para falar sobre a guerra — uma forma de comunicação que, de forma consciente, assemelha a realidade a um videojogo.

https://observador.pt/especiais/guerra-no-irao-volta-a-testar-a-maxima-o-maga-e-trump/

Já o lado iraniano revela uma preferência por memes, publicações de pendor cómico. Esta ação é visível nas páginas das embaixadas iranianas pelo mundo inteiro. Numa publicação do dia 13 de abril da embaixada iraniana na Tailândia, vê-se uma imagem que imita os cartazes da campanha eleitoral de Donald Trump onde, à primeira vista, se pode ler “Trump 2028”. Mas as letras mais pequenas acrescentam o humor: “Trump 20.28$ por galão”, lê-se na verdade, numa referência ao aumento do preço dos combustíveis. “Estão prontos à malta”, pode ler-se legenda da publicação. Tine Munk, especialista de guerra cibernética na Universidade Nottingham Trent, define esta forma de comunicação como uma “guerra de memes“.

https://twitter.com/IranInThailand/status/2043616789612118127

Outras publicações partilhadas pela mesma conta, e pelas de outras embaixadas, incluem paródias às publicações de Donald Trump — incluindo à publicação, posteriormente apagada, em que o Presidente se retrata como Jesus Cristo — e vídeos com recurso a Inteligência Artificial. As legendas mantêm sempre um tom leve e humorístico, pouco característico da diplomacia internacional. Pelo meio, são ainda partilhadas animações de Lego da Explosive Media.

Explosive Media: a equipa “independente”, jovem e anónima que cria propaganda de Lego

A conta “@ExplosiveMediaa” no X (antigo Twitter), soma quase 70 mil seguidores e os vídeos ascendem a milhões de visualizações. Na descrição da página está explicado que se trata de uma “equipa de animação em estilo Lego iraniana”. “Rápida, Instantânea, Explosiva”, lê-se ainda. A página em inglês foi criada em março de 2026, mas, na verdade, a Explosive Media existe há mais tempo. A página começou em 2025 como um canal de YouTube em que um jovem iraniano fazia comentários políticos, sob o nome Explosive News.

Foi nesse ano, durante a guerra dos 12 Dias com Israel que a Explosive Media publicou a primeira animação de Lego. Mas a explosão de popularidade só se deu em março deste ano, com a guerra com os Estados Unidos, altura em que o nome passou de Explosive News para Explosive Media. Na semana passada, o canal original do YouTube foi banido. À Al Jazeera, um representante da Explosive Media disse, sob anonimato, que o canal foi banido por “promover violência”. Contudo, à publicação Middle East Eye, a plataforma de vídeos disse que o canal tinha sido banido por “violar a política de spam, práticas enganadoras e de burlas”.

Quase dois meses depois do início da guerra, a Explosive Media conta agora com uma equipa de dez pessoas, com idades compreendidas entre os 19 e os 25 anos. “[Somos] uma equipa de media liderada por estudantes com experiência em ativismo social“, descreveu um representante da equipa à revista New Yorker. A equipa consolidou-se depois da guerra dos 12 Dias e quando a guerra atual deflagrou entrou em ação. “Estávamos a postos, com planos prontos e os motores ligados — e no segundo dia, as animações Lego estavam novamente em ação”, descreveu. “A trabalhar a tempo inteiro, podemos produzir um vídeo de dois minutos a cada 24 horas”, acrescentou.

"Slopaganda: uma combinação de um fenómeno relativamente familiar (propaganda) com um relativamente recente (slop de Inteligência Artificial generativa)."
Neologismo cunhado por Michał Klincewicz, Mark Alfano e Amir Ebrahimi Fard

O recurso a Inteligência Artificial permite a velocidade na produção dos vídeos, mas o investimento da equipa permite a “produção de conteúdos mediáticos de alta qualidade”, explicou o representante à Al Jazeera. Já a escolha das animações em Lego é justificada com o facto de os tijolos de brinquedo dinamarqueses serem uma “linguagem universal”. A equipa prefere manter o anonimato para não se tornarem alvos da ofensiva israelo-americano. Ainda assim, a publicação insiste que é “completamente independente“. “É natural que diferentes meios de comunicação — incluindo alguns filiados ao Estado — comprem o nosso trabalho para transmitir”, argumentou ao canal qatari.

Contudo, numa entrevista posterior, à BBC, um dos representantes, que se identificou com Mr. Explosive, caracterizou o regime iraniano como um “cliente” da plataforma. Em entrevistas à imprensa, o canal justificou ainda o acesso à internet e às redes sociais ocidentais — que está bloqueado pelo regime iraniano — com o facto de estar a usufruir de uma exceção aplicada às organizações mediáticas — às que emitem propaganda do regime Teerão e não aos órgãos críticos.

“Slopaganda”: a forma de comunicar que captura o zeitgeist online

“Slopaganda”: “Uma combinação de um fenómeno relativamente familiar (propaganda) com um relativamente recente (slop de Inteligência Artificial generativa)”. Foi assim que Michał Klincewicz, Mark Alfano e Amir Ebrahimi Fard definiram o seu neologismo num artigo de março de 2025. O termo rapidamente começou a ser utilizado para analisar o fenómeno em ascensão que é a utilização de conteúdos de IA de baixa qualidade (o chamado slop de IA) na comunicação política.

A estratégia é eficaz pois cumpre o propósito que os atores procuram na comunicação nas redes sociais: captar a atenção dos públicos desatentos ou desinteressados. A eficácia resulta do facto de utilizar o humor e a linguagem típica da internet para transmitir mensagens políticas e de propaganda. Um vídeo de Lego, que surja na página de um cidadão norte-americano, não é interpretado imediatamente como um vídeo político, mas de entretenimento, apontam os especialistas.

“Através da exposição tanto nos meios tradicionais como nas redes sociais, a slopaganda pode penetrar as nossas defesas mentais”, escrevem dois dos investigadores que cunharam o termo num artigo de análise posterior. “Funciona quando capta a atenção e produz emoções — normalmente de forma negativa — e apresenta a um público distraído, como uma pessoa a fazer scroll nas redes sociais ou a mudar de separadores. Em vez de procurar a precisão, a slopaganda é expressiva e emblemática de sentimentos e emoções e tenta criar uma emoção”, continuam.

Esta associação é visível no vídeo do início do texto. A presença de Satanás ao lado das figuras de Benjamin Netanyahu e Donald Trump cria uma associação negativa, uma representação dos dois líderes internacionais como “diabólicos”, enquanto os soldados iranianos aparecem a segurar as mochilas cor de rosa das meninas mortas, numa representação de protetores das crianças. Esta segunda associação é reforçada com a menção — frequente nas animações de Lego — aos ficheiros Epstein, que detalham os relatos de abusos sexuais de nomes influentes da política ocidental a crianças e jovens.

"Os iranianos conseguiram captar o zeitgeist, através da utilização de subculturas da internet, memes e animações. A mensagem — não confiem na América — não vem dos líderes que são 'odiados ou polarizantes', mas das suas versões de Lego, que são 'divertidas'."
Moustafa Ayad, analista no Institute of Strategic Dialogue

Na verdade, o conteúdo da mensagem é o mesmo que os líderes iranianos transmitem nas suas declarações ou publicações nas redes sociais. Mas o formato é completamente diferente, muito mais acessível e de fácil digestão do que um discurso feito por um líder caracterizado como um extremista religioso. “Os iranianos conseguiram captar o zeitgeist, através da utilização de subculturas da internet, memes e animações. A mensagem — não confiem na América — não vem dos líderes que são ‘odiados ou polarizantes’, mas das suas versões de Lego, que são ‘divertidas’, resume Moustafa Ayad, do Institute for Strategic Dialogue, à The Economist.

“O que estava a faltar aos regimes autoritários”: falar para o público norte-americano

A caracterização da comunicação política do Irão como “slopaganda” não é unânime. Emma Briant, investigadora na área da propaganda e guerra de informação, argumenta à BBC que o conteúdo é “demasiado sofisticado” para se considerado “slop” ou lixo. A sofisticação reside na forma como os vídeos têm uma história, com princípio, meio e fim, têm uma atenção aos detalhes e transmitem uma mensagem concreta e de fácil compreensão.

Porém, o sucesso não se explica apenas com este formato, mas com a escolha do público alvo. “Os vídeos de IA da Lego não são muito diferentes dos posters de ‘Lutem pela Liberdade’ dos anos de 1940“, declarou o analista de guerra de informação, Tal Hagin, à Axios. O especialista referia-se ao facto de tanto um como outro serem uma forma de propaganda, mas a frase também é verídica no que toca ao público alvo: ambos visam o público norte-americano.

"Comprometemo-nos a aprender todos os dias mais sobre o povo americano e sua a cultura. Neste processo, os próprios americanos têm-nos ajudado — e esse apoio e orientação continuam. Partilham dicas e ideias relevantes connosco."
Representante da Explosive Media

A comunicação eficaz com os públicos ocidentais é uma das maiores vitórias do Irão nesta guerra, aponta Emma Briant. Isso é possível devido à utilização de temas familiares para o público norte-americano. Enquanto a propaganda norte-americana exalta as Forças Armadas de Washington e as conquistas militares, a propaganda iraniana menciona tópicos que mais preocupam os eleitores, como o preço dos combustíveis, a subir devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, ou mesmo os ficheiros Epstein, cuja publicação na íntegra passou para segundo plano à luz da guerra. Ao mesmo tempo, os temas familiares são embrulhados numa linguagem familiar, de memes e tendências online.

E esta é uma escolha consciente, apontou um representante da Explosive Media à Wired. “Comprometemo-nos a aprender todos os dias mais sobre o povo americano e sua a cultura. Neste processo, os próprios americanos têm-nos ajudado — e esse apoio e orientação continuam. Partilham dicas e ideias relevantes connosco”, elaborou. A juventude da equipa — todos os membros pertencem à Geração Z, nascida entre 1997 e 2012 — também contribui para facilitar esta forma de comunicação.

Mas o verdadeiro interesse em alcançar o público norte-americano vê-se na existência do canal em si, em redes sociais onde acesso dos públicos iranianos está bloqueado e com recurso a ferramentas de IA treinadas com dados ocidentais. “[Isto] era o que estava a faltar aos países autoritários que queriam visar o Ocidente no passado”, remata Emma Briant. E se o objetivo dos cartazes de 1940 era mobilizar os norte-americanos para a II Guerra Mundial, o objetivos dos vídeos de IA de 2026, é exatamente o oposto: mobilizar a opinião pública contra a guerra. As sondagens mostram que, por agora, o objetivo do Irão está bem encaminhado.

[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”.