Duarte Cordeiro pôs-se em campo. Um grupo de destacados socialistas distanciou-se. O ex-líder Pedro Nuno Santos regressa ao Parlamento. A semana de José Luís Carneiro começou espinhosa, apesar das sondagens positivas. Na direção do PS nem tudo é visto com o mesmo grau de dificuldade, até porque da parte de Pedro Nuno, por exemplo, houve garantia de que não regressava com agenda própria. Já quanto à demarcação de Cordeiro “não tem duas leituras”, comenta ao Observador um dirigente do núcleo de Carneiro. Quis colocar-se em campo e no oposto ao do atual líder. Para quê, até onde quer ir e quando? E o partido está interessado nisso? As dúvidas são mais do que as respostas nesta altura. Mas há uma certeza: não pode repetir-se o que aconteceu em 2014 no PS.
“José Luís Carneiro vai ter Duarte Cordeiro como candidato contra ele daqui a dois anos“, diz um membro da direção de Carneiro ao Observador, interpretando a movimentação do antigo ministro no fim de semana. Conta-se rapidamente esse episódio: estava disponível para integrar a Comissão Política do partido, onde se decidem orientações políticas, mas recuou porque não quis ser tomado como apoiante de Carneiro e quer ter “liberdade para discordar”.
Uma dirigente comenta que, embora não concorde com a argumentação usada, compreende “a importância de ficar claro que não há apenas uma solução. “Foi o facto de ser ter criado a ideia que só Pedro Nuno Santos podia suceder a António Costa que trouxe o PS até aqui”, sublinha. Outro dirigente vê na ação de Cordeiro a vontade de “não encerrar o tema de que José Luís Carneiro vai sozinho até 2029 e que não acontece nada até lá”. Este mesmo socialista acredita até que o antigo governante já tinha procurado marcar o congresso “pela ausência”, colocando-se atrás da moção setorial mais crítica e “deixando a ideia de que estava a pairar. Agora foi vocal a dizer que não está com Carneiro”.
O líder, diz ainda um outro dirigente que é próximo de Cordeiro ao Observador, dá ideia de uma “unanimidade que não existe”. Outro elemento deste núcleo acrescenta que existe no partido “uma ideia de ineficácia de José Luís Carneiro”. “As sondagens são positivas, mas podem ser conjunturais ou representarem apenas demérito do Governo”, lamenta a mesma fonte. Neste grupo argumenta-se que Carneiro tem de “construir uma alternativa, mais do que pôr as pessoas em órgãos”. “É preciso uma visão para o país e ainda não houve essa dinâmica.”
“É benéfico haver válvula de escape”
É difícil encontrar no PS quem não veja aqui uma afirmação de alternativa, sobretudo na direção, onde a reação imediata é tentar desvalorizar e apontar antes “a falta de rumo do Governo”, o focos no problema do “custos de vida dos portugueses” e até as sondagens mais recentes que colocam Carneiro à frente de Montenegro.
Ao Observador, João Azevedo segue a linha que o presidente do partido usou no domingo para desdramatizar e diz que “o PS é um partido plural”. O deputado e membro da direção Luís Testa diz que “o PS é um partido muito grande, com diferentes sensibilidades. Haverá sempre pontos de união e pontos de divisão”. “É benéfico, num partido como o PS, haver sempre algumas válvulas de escape“, diz, sugerindo que opiniões diferentes “são contributos para a liderança”. “Existe sempre necessidade de auto-interrogação.”
Luís Testa acredita que “não se pode fazer uma leitura de fratura. Sendo um antigo líder da Federação da Área Urbana de Lisboa, se tivesse uma ideia de fratura, teria facilidade de contagiar muitos mais” da mesma estrutura, o que não está a fazer.
Mas se o líder já desconfiava ter razões para olhar por cima do ombro, agora tem a certeza de ter, pelo menos, um elemento-desafiador. Ainda que os mais próximos de Duarte Cordeiro estejam habituados a ouvir o socialista dizer que a sua ambição maior é uma candidatura à Câmara Municipal de Lisboa, também se comenta que um desafio à liderança pode tornar-se inevitável — se Carneiro não arrebatar os socialistas entretanto.
Ouvem-no igualmente jurar que não tem um plano e que está “disponível para alternativas” — sempre assim, no plural, que é como quem diz que pode ser ele ou qualquer outro. Há um ano, no rescaldo das legislativas e da saída de Pedro Nuno Santos, chegou a estar num grupo, com Fernando Medina, Mariana Vieira da Silva e Ana Catarina Mendes, que ponderou uma alternativa a Carneiro. Mas o que é certo é que agora aparece destacado.
Mais livre ou com maior risco de parecer desleal?
Enquanto esses três nomes menos alinhados com Carneiro aceitaram integrar a Comissão Política, Duarte Cordeiro desistiu e preferiu manter-se à margem. “Era só mais um futuro aspirante, agora é ‘0’ aspirante“, argumenta um socialista quando olha para a decisão de Cordeiro. “Traçou uma bissetriz a dizer que não apoia a estratégia. Traçou uma bissetriz face a Medina, Alexandra [Leitão], Ana Catarina, ao dizer que quem fica lá dentro — por taticismo — valida tacitamente o líder”, continua.
Mas as declarações também criaram desconforto. Uma dirigente do partido reforça que “sair não é a história do PS”. Outro destacado socialista comenta com o Observador: “Agora só se fala livremente fora dos órgãos do partido?” Ainda que esta mesma fonte não perceba “a intenção ou o argumento”, acredita que esta posição de Cordeiro não condiciona quem aceitou integrar a Comissão Política mesmo sem ser fã de Carneiro: “Não deixa ninguém em situação difícil. A CPN, ao contrário do secretariado, é mesmo o local de expressão das diferentes sensibilidades. Sempre assim foi.”
Este mesmo socialista é dos poucos que não vê “uma demarcação” por parte de Cordeiro: “Sair da CPN, que é um órgão de diversidade do partido, não afirma nada”. Isso faz-se numa “coreografia própria: falar antes dentro do partido e só depois fora”. Agora, insiste, Duarte Cordeiro perdeu essa possibilidade. Não está em nenhum órgão, terá sempre de falar fora de portas e isso pode ser “mal visto” pelos militantes, argumenta a mesma fonte.
É uma linha de argumentação que se ouve em mais socialistas. “Se Duarte Cordeiro acha que ficar de fora lhe dá vantagem, se calhar corre o risco de dizerem que devia ter sido mais solidário com o partido”, adverte um autarca do partido. “Os militantes não gostam de quem se auto-exclui por taticismo político“, acrescenta um dirigente, que acredita que “este tipo de atitude pode granjear indiferença e até uma certa apreciação negativa” por parte dos socialistas. Sobretudo porque “José Luís Carneiro foi duas vezes candidato único” à liderança.
Voltam a existir diretas do PS em 2028 e as autárquicas e as legislativas serão um ano e meio depois e este calendário político pode baralhar as ambições. O que vai ser decidido primeiro, nessa altura, os candidatos autárquicos ou os candidatos às eleições diretas do PS? E uma corrida condiciona a outra? No núcleo de Cordeiro garante-se que esse cálculo não está a ser feito pelo ex-ministro, nem mesmo qualquer vontade de condicionar outros socialistas que possam estar interessados em concorrer à liderança: seja Medina, seja, outros externos, como Mário Centeno, por exemplo.
O que esteve na base da decisão de Cordeiro foi a suspeita de que Carneiro estava a tentar fazer da Comissão Política uma extensão da sua equipa. E colocar decisões que normalmente são do secretariado nas mãos da Comissão Política, procurando comprometer os dirigentes que nela se sentam. Tendo em conta essa avaliação que fez, Cordeiro considerou que tinha de vincar agora que não faz parte da equipa de Carneiro. E também esclarecer que não tinha decido com base em razões profissionais, a justificação inicialmente dada por fonte próxima do líder ao Observador para justificar a desistência de Cordeiro.
Mas nos seus mais próximos existe a expectativa de que a partir daqui Duarte Cordeiro “possa ser mais escutado”. Ainda que alimentem o desejo de que este passo venha a ter outros subsequentes, também não há pressas. Afinal, José Luís Carneiro acabou de ir a votos internamente e não teve nenhum desafiador.
E há outro aviso sobre qualquer investida que venha a existir: “O PS não sobrevive a uma luta fratricida como a de 2014″. O aviso de um dirigente do partido não é isolado. “Não estamos num ciclo de alternância, mas de sobrevivência — e até nos estamos a sair bem”, acrescenta um destacado dirigente que acredita que, neste quadro, “uma luta como a de 2014 favoreceria o incumbente” — o oposto do que aconteceu em 2014, em que António Costa destronou António José Seguro.
Já Luís Testa acredita que “a questão interna do partido parece suficientemente estável e robusta para se estar a colocar a questão da alternativa” à liderança. “O PS precisa de tempo e disponibilidade para se reconstruir e apresentar a sua proposta política”. “O PS precisa de tempo e precisa de ir a eleições com esta liderança”, diz outra fonte socialista.
Não é nada que o próprio Duarte Cordeiro não tenha já dito, embora com um significativo “mas”. Em outubro passado, numa entrevista ao Observador, concordou que é o líder que deve ir a votos nas legislativas. “O princípio é esse. O líder do PS é potencialmente um candidato a primeiro-ministro. Desejavelmente é ele quem deve ir a votos”. E depois o tal “mas”: “Se é ele que vai a votos, não sei. As circunstâncias futuras não as conseguimos controlar”.
Não jurou “amor para todo o sempre”, tendo já na altura desafiado Carneiro a mudar de rumo. “Tem que ouvir, tem que ser representativo do partido, ser eficaz, passar a mensagem, procurar marcar a agenda política.” Mas no arranque da liderança de Carneiro — o primeiro momento em que o líder tem órgãos da sua escolha — pôs o relógio a contar.
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
