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(A) :: "A instituição [das Forças Armadas] não me rejeita, muito pelo contrário": María Corina Machado aponta à transição e não exclui coligação

"A instituição [das Forças Armadas] não me rejeita, muito pelo contrário": María Corina Machado aponta à transição e não exclui coligação

"Destruíram o país" e "hoje agarram-se ao poder", acusa Machado ao ABC. Pedindo a cooperação pela transição ("pelo seu próprio bem"), admite colaborar com o atual executivo. Mas, primeiro, eleições.

Mariana Furtado
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Num momento em que procura reforçar apoios fora da Venezuela e manter a pressão por uma transição política, María Corina Machado fez de Madrid uma paragem estratégica na sua deslocação internacional durante este fim-de-semana. Em entrevista ao jornal ABC, a líder da oposição venezuelana define o atual processo de mudança como “irreversível” e sustenta que a resistência à sua liderança dentro das Forças Armadas se limita a “alguns indivíduos”. Neste cenário, Machado abre a porta uma coligação com Delcy Rodríguez — apesar da ausência de contactos — desde que sob condições eleitorais, antevendo que a transição do regime venezuelano terá um efeito de “réplica”, precipitando o fim do regime em Cuba.

“O que estamos a viver agora é uma questão existencial”, afirma María Corina Machado, sublinhando que a hierarquia das Forças Armadas venezuelanas continua sob o controlo dos norte-americanos: “As Forças Armadas venezuelanas foram derrotadas a 3 de janeiro e, na realidade, o Governo dos Estados Unidos [é quem as] controla hoje. A cada dia, mais e mais pessoas, não apenas dentro das Forças Armadas, mas também em outros círculos próximos ao regime, entendem que este é um processo irreversível e que, para o seu próprio bem, devem cooperar com uma transição ordenada“.

A Nobel da Paz (2025) recusa-se a pintar a cúpula militar com um pincel único — e chavista. Para ela, a rejeição à sua figura é uma resistência de redutos isolados: “A instituição não me rejeita, muito pelo contrário; são alguns indivíduos”, clarifica, apontando o dedo àqueles que — coincidentes com os “alguns” ou não — ainda hoje “se agarram ao poder”.

Os cidadãos sabem que uma mudança real e sustentável só é possível num Estado com instituições fortes e ordem constitucional, onde a lei ofereça respaldo genuíno. Essa não é a situação atual da Venezuela. Aqueles que destruíram o país, as suas instituições e famílias são os mesmos que hoje se agarram ao poder, cumprindo ordens.

No centro do que considera um processo “complexo” e de “urgência vital”, surge uma questão inevitável: a convivência com as figuras centrais do atual executivo. Machado mostra-se cética, quanto ao papel da atual vice-Presidente: para a líder opositora, a “situação económica trágica” da Venezuela “ultrapassa em muito” os poderes de Delcy Rodríguez. A solução, defende, não passa por reformas cosméticas, mas pelo calendário eleitoral.

A situação económica é trágica, e a profunda transformação necessária para melhorar a qualidade de vida ultrapassa em muito o que Delcy Rodríguez pode fazer. No fim, trata-se de uma questão de expetativas: a sociedade está disposta a fazer sacrifícios se tiver a certeza de que existe uma direção. Daí a importância de se chegar a um calendário eleitoral com datas definitivas.

https://observador.pt/2026/04/14/maria-corina-machado-quer-eleicoes-na-venezuela-o-mais-rapidamente-possivel/

Mesmo admitindo que pode não chegar o que Delcy “pode fazer”, não descarta cenários de coexistência política e, até, de um Governo de coligação: “Tudo depende das condições em que este plano for apresentado. Se o objetivo for adiar as eleições e usá-las como manobra para retardar a expressão da vontade popular, isso é algo que a sociedade venezuelana não aceitará. Se houver disposição para realizar transformações e mudanças reais que facilitem e agilizem o processo eleitoral, o país acolhê-lo-á”.

Apesar da abertura teórica, o diálogo direto ainda não aconteceu. Não houve encontros, nem estão previstos, entre as duas mulheres que hoje são figuras-chave da Venezuela. Enquanto o aperto de mão não acontece, o olhar de Machado volta-se para o tabuleiro internacional, rejeitando a visão de que Donald Trump possa afinal decidir que o executivo de Delcy Rodríguez seja o “objetivo final” para a Venezuela, e não o “ponto de partida” de uma transição de regime. “Não foi isso que o Governo dos EUA ou seu Secretário de Estado disseram. O Secretário afirmou repetidamente que este é um plano de três fases, e as fases não são necessariamente sequenciais; elas podem sobrepor-se. Aliás, há poucos dias, ele disse que a primeira fase já foi concluída. A terceira fase, que é um processo eleitoral, é o que realmente garantirá a estabilidade e a paz na Venezuela. Não há outra resposta”, referiu.

Mas, para lá da estratégia traçada em Washington — e do peso da sua influência na remoção de Maduro —, Machado reclama o protagonismo do momento político atual para “o povo”.

Chegamos até aqui graças ao povo. Embora nos dissessem que era impossível organizar o movimento, unir o país, realizar as primárias, nos defender ou suportar os meses de terror, aqui estamos. Só uma liderança em que o povo confie será capaz de conduzir um processo de negociação que exige concessões. Portanto, é do interesse daqueles que estão atualmente com o regime que a pessoa mais respeitada e confiável pelo povo venezuelano participe deste diálogo para uma transição negociada.

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O impacto desta transição, acredita, terá um efeito de dominó nas Caraíbas. Ao abordar a influência de Havana, a líder considera que a queda do regime venezuelano seria o princípio do fim para o regime cubano — algo que “todos os democratas ao redor do mundo almejam”.

A remoção de qualquer regime ditatorial ligado à Venezuela seria de grande ajuda. No entanto, acredito que o regime venezuelano não seja atualmente dependente de Cuba, mas, é claro, a saída do regime venezuelano, na minha opinião, provocaria imediatamente a queda do regime cubano.

“Sou uma entre milhões que querem voltar. Saí da Venezuela com objetivos ambiciosos e sinto que os estamos a alcançar, embora alguns ainda precisem de ser concluídos”, conclui no caminhar para o fim da entrevista ao jornal espanhol. Vinte e cinco anos depois de ter iniciado a sua jornada na Súmate (associação cívica), María Corina está com pressa. Diz: “Preciso de me apressar porque quero voltar para a Venezuela tendo terminado a tarefa a que me propus”. Mas “a María Corina de hoje” garante: “‘Valeu a pena, e eu faria tudo de novo'”.

[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”.