Afonso Moreira. Bastardo de segundo nome. O primeiro apelido do extremo do Lyon poderia ser um prenúncio para o desfecho do seu trajeto nos escalões de formação do Sporting. Entrou nos leões com 13 anos e só de lá saiu em definitivo como jovem adulto, mas não por ter dado o salto que muitos dão, como foi o caso de Mateus Fernandes, da mesma geração. Algo não correu bem. Moreira teve o seu espaço, mas não conseguiu ampliá-lo. Acabou por sair em julho de 2025 por dois milhões de euros para os franceses. Agora, está a assumir o protagonismo que nunca teve e poderá dar o salto que nunca deu no futebol profissional.
A jornada de Afonso Moreira no futebol começou no Cracks de Lamego, a sua terra natal. O “grande talento”, como defendia Ruben Amorim antes de o promover à equipa principal dos verde e brancos, fez com que saísse do relvado do 1.º de Julho e entrasse na Academia em Alcochete, em 2017/2018. Três anos depois da sua chegada ao Sporting, Afonso Moreira era chamado à seleção nacional de Sub-16. “Sabemos que é apenas o início”, lia-se na nota emitida pelo clube onde o lamecence deu os primeiros toques na bola.
Se era “apenas o início” ou não, a verdade é que o jovem jogador resistiu à habitual sangria das camadas jovens dos clubes grandes, até chegar à equipa principal do Sporting.
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Um jogo treino em Alcochete no início da época de 2023/2024, frente ao Marítimo, foi o balão de ensaio que Ruben Amorim escolheu para testar o extremo. O teste foi suficiente para o então técnico dos leões levar Afonso Moreira para um estágio no Algarve, onde o avançado atuou pela primeira vez em público num jogo da equipa principal, num empate frente ao Genk. Seguiu-se o velhinho Goodison Park, onde Afonso Moreira teve mais 20 minutos de jogo, desta vez frente ao Everton. Foi o último jogo antes de se estrear oficialmente pelos leões, frente ao Vizela, a contar para a Liga, em agosto de 2023.

No fim da época seguinte, a nível oficial, Afonso Moreira voltou a vestir a camisola do Sporting por apenas mais cinco vezes, com uma passagem pelo Gil Vicente pelo meio, que igualmente não refletiu o talento que Amorim reconheceu no jogador ainda na pré-época de 2022/2023. Um total de 11 jogos não resultou em qualquer contribuição para golo. Ao peso dos números juntava-se a concorrência interna na posição onde Afonso Moreira jogava originalmente. Pedro Gonçalves era dono e senhor de um lugar no onze, como Trincão. Na segunda linha estavam ainda Geovany Quenda – que, desde início agarrou um lugar como opção assídua no onze, como ala –, Geny Catamo – que acabou por ser decisivo para as contas finais do título e também mostrou conforto em assumir todo o corredor – e Marcus Edwards, o único dos três que só jogava à frente e que também foi perdendo espaço para Trincão na direita até acabar por sair para o Burnley.
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Os números foram sintoma de insucesso desportivo e as circunstâncias antecipavam uma saída. Assim foi: no verão de 2025, o Sporting recebeu dois milhões de euros pelo passe do extremo e abriu mão do jogador de forma definitiva. O destino era Lyon. “Sem desmerecer as minhas qualidades, pelo trajeto que estava a ter no Sporting até então, poderia pensar que não iria para um nível tão alto. Mas, a partir do momento em que apareceu, o Lyon foi a minha escolha”, comentou o ala ao jornal A Bola.
Era no Parc OL que Afonso Moreira ia celebrar os primeiros golos numa equipa principal e assumir a preponderância que nunca teve no futebol profissional, pela mão de Paulo Fonseca, treinador principal. O técnico, já em janeiro, disse mesmo que Afonso Moreira foi o jogador com maior protagonismo na presente temporada. “Tem sido talvez o jogador mais influente na nossa equipa, com assistências e golos, mas não só. É um miúdo com uma energia incrível, que trabalha defensivamente como poucos. Tem sido uma agradável surpresa a performance dele, mas há que lhe dar mérito. O Afonso Moreira tem trabalhado muito, ouvido, aprendido e arriscado. É um miúdo de coragem e muito importante na nossa equipa. Ainda é jovem e tenho a certeza de que se continuar desta forma vai ser um jogador a ter em conta na Seleção Nacional”, disse Paulo Fonseca à agência Lusa, numa altura em que o extremo contava com cinco golos e cinco assistências em todas as competições.
Surgiu, entretanto, uma lesão em fevereiro. Nada que travasse o ímpeto do atleta: Afonso Moreira fez mais cinco assistências e dois golos, desde então. O último dos quais no passado domingo, na vitória do Lyon por 2-1, no Parque dos Príncipes. Em dia de dérbi lisboeta, o menino de Lamego apareceu em Paris. Uma assistência para Endrick (6′) e um golo (18′) derrubaram o campeão europeu de Vitinha, Gonçalo Ramos (titulares), João Neves (suplente) e Nuno Mendes (lesionado), na 30.ª jornada da Ligue 1. Num jogo em que se previa que um atleta português pudesse, uma vez mais, ter protagonismo numa partida do PSG, Afonso Moreira, como adversário, fez questão de prolongar essa tendência e continuar a acrescentar contribuições de golo àquela que é, estatisticamente, a sua melhor época desde que se tornou sénior.
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“O Afonso [Moreira] passou-me a bola quando achei que ele ia chutar. Tentei ler bem a jogada e estou muito feliz por ter ajudado a equipa. Ele é um bom jogador e estou muito feliz por ter marcado também. Damo-nos muito bem”, destacou o avançado brasileiro Endrick, emprestado pelo Real Madrid ao Lyon desde janeiro, sobre o ala internacional Sub-21 português que leva agora sete golos e dez assistências em 33 jogos.
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Com o inesperado triunfo frente o campeão europeu e francês, o segundo consecutivo depois de um período complicado com sete encontros sem triunfos entre Ligue 1, Taça e Liga Europa, o Lyon subiu à terceira posição, última com acesso direto à Liga dos Campeões, com 54 pontos, os mesmos do Lille, mais um do que o Rennes, mais dois do que o Marselha e mais quatro do que o Mónaco. Ou seja, sete anos depois pode voltar à Liga milionária, de forma direta ou passando pela terceira pré-eliminatória (quarto lugar). Afonso Moreira não tem dúvidas: está disposto ao que for necessário para jogar a principal prova europeia de clubes. “Era um sonho. Já estou a fazer planos para o verão com os meus amigos mas se tiver a felicidade de ir à Champions, não me importo de perder o dinheiro das reservas. Não quero pensar muito nisso para já. Se tivermos a mentalidade certa, não tenho qualquer dúvida de que vamos ter sucesso”, referiu ao Le Progres.